Madonna “I’m Breathless” (1990)

Editado a 22 de maio de 1990, o álbum “I’m Breathless” surgiu como uma consequência das experiências, ambientes e sugestões do filme “Dick Tracy”. Mas, como um ovni, o fim do alinhamento guardava um dos maiores clássicos de toda a obra de Madonna. Texto: Nuno Galopim

Se bem que o trabalho musical de Madonna para o cinema tenha gerado dois Óscares e uma série de singles de grande impacte, curiosamente os álbuns com bandas sonoras assinados pelo seu nome não costumam figurar entre os títulos habitualmente mais referidos da sua discografia. Se essa relativa secundarização faz sentido com Who’s That Girl (1987) que na verdade tem apenas quatro faixas de Madonna e se poderá ser compreensível que Evita (1997) seja eventualmente encarado como um esforço criativo que envolve outra história (com antecedentes), já I’m Breathless, de 1990 merecia ser encarado como mais do que “apenas” um disco associado a um filme. É verdade que o álbum nasce como um disco-companheiro de Dick Tracy, de Warren Beatty, e no qual Madonna teve um dos seus mais destacados trabalhos como atriz. É inclusivamente importante referir que o disco, de facto, foi apresentado como um conjunto de canções do filme ou inspiradas por ele… Mas não deixa de ser um disco no qual Madonna definiu um caminho peculiar, desde a composição e arranjos à própria prestação vocal. Foi um êxito global na altura (fruto do estatuto de popularidade que então a tinha levado a uma dimensão planetária). Mas hoje é, de certa forma, um álbum algo… esquecido.

            I’m Breathless nasceu de estímulos lançados pelo filme. Em primeiro lugar reuniu canções que tinham sido criadas para a banda sonora, assinadas por Stephen Sondheim, um veterano do teatro musical e com um percurso no cinema que passara, por exemplo, pelo histórico West Side Story (na verdade nascido também no palco). Entre as composições de Sondheim está Sooner or Later que, mesmo sem ter conhecido edição em single, acabou por ser um dos clássicos nascidos nesta etapa da obra de Madonna, valendo-lhe um primeiro Óscar de Melhor Canção Original.

            A criação do disco teve em conta uma vontade em vincar marcas de época coincidentes com as que definiam a ação de ficção em Dick Tracy. Daí os ambientes que associamos a musicais e canções dos tempos da “lei seca”, a presença do jazz (em particular dos primeiros passos do swing) ou até outros flirts com memórias históricas dos musicais (como se escuta, por exemplo, em I’m Going Bananas). O alinhamento segue por isso estas orientações, afastando-se das tonalidades pop do recente Like a Prayer (1989), o que não impediu Madonna de juntar um quaro alusivo a I’m Breathless (e ao filme) na Blonde Ambition Tour que então andava pela estrada.

            Entre os registos mais clássicos de I’m Breathless está o dueto com Mandy Patinkin (sim, o Saul Berenson de Homeland) ou as primeira das duas partes de Now I’m Following You, dueto com Warren Beatty que esteve pensado para ser um terceiro single, o que não se concretizou (a segunda parte, contudo, revela um olhar plástico pop bem mais desafiante). Houve apenas dois singles extraídos deste álbum. Talvez porque pela frente surgiu, logo depois, a compilação Immaculate Collection, que a bordo incluía dois inéditos (Justify Me Love e Rescue Me) que tiveram vida a 45 rotações.

O primeiro single de I’m Breathless, que surgiu pouco antes do álbum, na verdade nascera como possível lado B mas acabou por ter ordem para conhecer outro protagonismo. Inspirado por uma expressão da cultura queer nova-iorquina que um ano antes tinha já cativado as atenções de Malcolm McLaren (que então criou Deep In Vogue). Co-assinado por Sheep Pettibone, e um verdadeiro “ovni” no final do alinhamento do álbum, Vogue cruza as linguagens da canção pop com as da house music, abrindo de certa forma o caminho a Erotica, álbum de 1992 que repetiria esta mesma dupla criativa. Vogue foi acompanhado por uma coreografia diretamente inspirada pelo voguing que, explorada num teledisco de David Fincher e depois apresentada no palco da Blonde Ambition Tour, criou um dos momentos iconográficos mais marcantes de toda a obra de Madonna.  O segundo single extraído deste álbum foi Hanky Panky, um swing reinventado em clima pop e desenhado sob temática S&M marcou atenções na época mas está longe de ser das canções de Madonna cujo sucesso mais bem resistiu à passagem do tempo.

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