Dez discos que definiram o meu gosto – João Cabrita

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o João Cabrita.

Video Kids “Woodpeckers from Space”

(1984)

Este foi o primeiro disco que comprei com o meu dinheiro. Retornado de S. Tomé e Príncipe em 1981, de ouvidos cheios de semba, que predominava na rádio nacional, na casa de Lisboa só tinha discos de cantautores, alguma MPB e muitos LPs da Deutsche Grammophon. Não era o que se queria aos 9/10 anos. Para piorar a situação, a rádio de casa só apanhava onda média. Ou seja, nada de música contemporânea. Ironicamente a minha janela de acesso à música que se estava a fazer era a televisão, e para um miúdo à procura de coisas novas, este tema que esteve em 1º lugar no nosso top de vendas chamou a atenção por não poder estar mais distante do Tchaikovski ou do Sérgio Godinho. Assim, juntei os 150 escudos das minhas poupanças e orgulhosamente obriguei a minha família a ouvir este tema em repeat por muitos bons meses no único gira-discos da casa – o da sala. Olhando para trás, o tema é muito fraco, super datado, mas enfim foi o primeiro possível.

A-ha “Scoundrel Days”

(1986)

Aos 14 anos, de volta das miúdas, acabei por ser um consumidor passivo da febre mais estranha da adolescência portuguesa nos 80s: A revista Bravo. Completamente escrita em alemão, cheia de brindes, autocolantes e posters dos artistas da época, vendia-se aos milhares de exemplares por cá. Ninguém entendia patavina dos textos, mas isso não diminuiu o sucesso da revista. Em 86 eu reparava num trio recorrente na Bravo, os Noruegueses A-ha. Tinha visto o video do Take on Me na TV que me deixou de boca aberta, mas o tema não bateu. Já o Hunting High and low e o The Sun Always Shines On TV eram outra coisa. Mal informado comprei o Scoundrel Days, o álbum seguinte, mas nunca me arrependi. Muito mais bem produzido que o primeiro, e com um tom mais escuro no geral, deu-me a conhecer uma parelha de compositores que sigo até hoje, o Pal Waaktaar e o Magne Furuholmen. Muitas vezes têm canções com arranjos desleixados, ou outras que ficam mal resolvidas, mas têm uma coisa que admiro muito: não têm medo de ser lamechas.

Depeche Mode “Music For The Masses”

(1987)

Por esta altura andava eu mergulhado no mundo da Banda Desenhada, mas o tema Strangelove, com aquele som “Gigante” implodiu nos meus ouvidos. O Mesmo para o Never Let Me Down Again. Senti que estava a entrar em território novo, mais escuro. As harmonias, os sons, os efeitos e os ambientes deixavam-me arrepiado. A produção do David Bascombe já me tinha deixado com as orelhas em bico no “Songs From the Big Chair” dos Tears for Fears e no “So” do Peter Gabriel. Isto quando nem suspeitava do que iria ser a minha carreira. Era um som enorme, que me deixava alterado. Os Videos do Anton Corbjin também contribuíram muito para o pacote completo que é este disco.

David Sylvian “Gone To Earth”

(1986)

Esta foi a minha porta de entrada para o compositor que mais admiro. Um colega da escola mostrou-me uma cassete deste álbum e eu fiquei completamente abanado com este disco. Ainda hoje, depois de todo o conhecimento teórico que adquiri nas escolas de música não consigo perceber o que me faz ressoar na música do Sylvian, e até tenho alguma resistência em analisar ou aplicar o “ouvido profissional (separar as pistas todas na minha cabeça)” à musica dele. Um som cheio de espaço, temas como o Laughter & Forgetting só com o piano do John Taylor e um solo de flughel do Kenny Wheeler que se funde com o de guitarra do Robert Fripp… o próprio Gone To Earth com as guitarras distópicas do Fripp a anunciar um apocalipse e inesperadamente, a acabar numa resolução de alívio.. E depois, todo o segundo disco de instrumentais, provavelmente a minha primeira aproximação a um estado meditativo, sem o saber.

Japan “Tin Drum”

(1981)

Depois da avalanche do “Gone To Earth” não descansei enquanto não consegui ouvir tudo o que havia do Sylvian. Na era pré-internet não era fácil obter informação sobre as coisas menos mainstream, e por isso os programas de rádio e os escritos do Nuno Galopim, João Gobern eram o único canal para aceder a factos e discografias. De resto, só cassetes gravadas de outros (muito) poucos fãs. Esta banda chega a este disco numa forma sublime. Depois de dois primeiros álbuns na esteira do glam, produzem  o “Quiet Life” e o “Gentlemen Take Polaroids”, dois discos com a electrónica mais presente, sequenciadores, e muitas pistas que seriam mais tarde repescadas por bandas como os Duran Duran. No Tin Drum, soube mais tarde pelo Steve Jansen, com quem vim a gravar, a ideia era a banda abolir os sequenciadores e backing tracks, mantendo o som e mood que a  repetição e quantização proporcionam. E que tratado! Um Mick Karn em topo de forma, entrosadíssimo com o Steve na bateria. Oiça-se o Talking Drum. Aquele prato de choques ainda hoje me dá arrepios! Ou o beat do Visions of China. Os sons dos sintetizadores, do Sylvian e do Richard Barbieri, tão bem trabalhados que não se percebe onde acabam e começam os sons tradicionais orientais.

Michael Brecker “Don’t Try This At Home”

(1988)

Em 89 comecei a tocar saxofone na Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense. A minha interacção com a música até ali fora sempre na “óptica do utilizador” mas nesse ano, por um acaso, fui parar à escola de musica da banda e toda a minha vida mudou: De repente eu podia “fazer” música e não só ouvi-la. Passado pouco tempo dei por mim na escola do Hot Clube de Portugal. O jazz era completamente desconhecido para mim, e este disco, comprado pela capa (juro) foi mesmo a minha porta de entrada para o género. E que discão! Logo a faixa de abertura Itsbynne Reel, com aquele sintetizador de sopro de gosto discutível a crescer para o tenor que mais admiro, sempre em duelo com um violino, energia pura! O Chime This e o Talking to Myself outros pontos altos que me fizeram quebrar o preconceito e a resistência ao Jazz. O Michael Brecker é o Rei! Toda a energia que imprime nos seus solos, mais que alguns aspectos formais influenciou-me muito a tocar.

AC/DC “Back in Black”

(1980)

O rock chegou-me tarde, só nos 90s, mas entrei por uma bela porta: este disco,  junto com um ao vivo (AC/DC Live 92) era de passagem obrigatória na carrinha de um grupo de baile onde eu tocava entre espectáculos de Sitiados. Desde o riff épico do Hell’s bells ao groove do Back in Black, à passada escorreita do Shoot th Thrill, todo este disco foi rodado até à quase transparência, tal o desgaste! A energia contagiante desta música eriçou-me os cabelos da nuca e faz parte da banda sonora deste jovem músico de 20 anos a correr de norte a sul de Portugal. Com a descoberta dos Nirvana, Soundgarden, Clawfinger e Alice in Chains abri o espectro, mas nunca deixei de voltar a este disco.

Rage Against the Machine “Rage Against the Machine”

(1992)

Este disco foi um autêntico game changer. A primeira vez que ouvi o Killing in The Name fiquei completamente virado do avesso. Os riffs do Tom Morello e do Tim Commerford eram tão pesados e com tanto groove que só podiam funcionar propulsionados pela bateria do Brad Wilk, duríssima mas sempre funky. Até aqui nunca tinha ligado grande coisa ao hip hop, mas as letras do Zack de la Rocha não podiam passar despercebidas neste bolo incrível. Tudo aqui é energia. Energia colectiva, onde o todo é bem maior que  a soma das partes. Até este disco, o groove estava pouco ligado ao género mais rockeiro, mais branco. Esta fusão mudou muito a minha maneira de ver e sentir a música e consequentemente de a fazer. A cereja no topo do bolo foi ver os RATM ao vivo em Algés, no Super Bock Super Rock poucos anos depois e verificar que ao vivo eles tocam os temas todos ainda mais lento que nos discos, conferindo-lhes assim um peso adicional. Saí desse espectáculo exausto.

Morphine “Cure For Pain”

(1993)

Este disco não podia ter surgido em melhor altura. Andava eu entusiasmado a ouvir Nirvana, Soundgarden, Clawfinger, Rage Against the machine, Living Color e outros, e desanimado por tocar um instrumento que não cabia neste género musical. Felizmente o baterista dos Sitiados Jorge Quadros levou este disco para a carrinha. Toda a banda se apaixonou por este som. E eu descobri que não precisava de tocar guitarra para poder fazer rock n roll. Uma das minhas maiores ambições é compor um riff tão poderoso como o do Buena. O Dana Colley, saxofonista, nunca me entusiasmou muito na maneira de tocar. Mas com o passar dos anos apercebo-me que absorvi muito mais influências dele do que na altura quis admitir.

Zero 7 “Simple Things” 

2003

Por esta altura já estava na ressaca do drum& bass e do jungle. O trip hop era entusiasmante, mas havia muitos projectos a imitar os Portishead e os Massive Attack. Este disco surgiu numa altura em que eu fazia parte dos Assessores, banda do Sérgio Godinho. O nosso director musical, o Nuno Rafael nunca poupou esforços a levar roupagens mais contemporâneas aos temas do Sérgio, e este disco serviu-me de “muleta criativa” para o tipo de arranjos que escrevi para lá. É fácil identificar uma vibe próxima entre o Simple Things e o”O Irmão do Meio” e o “Ao Vivo no Coliseu”. A mistura perfeita entre um som analógico, quase 70s com uma electrónica discreta mas omnipresente, e uns arranjos de flughel e trombone abriu-me os ouvidos para outras coisas, como os Ilya, os Air.

Esta lista acaba com um sabor amargo, porque outros tantos foram os discos que me influenciaram mas ficaram de fora. Fosse isto escrito noutra altura e metade destes discos seria trocada.

Por ora fica esta

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