O que nos pode dizer a indústria da música sobre economia?

É certo que é um texto originalmente publicado em 2019 (ou seja, antes do que 2020 juntou a esta história). Mas em “Rockonomics” Alan B. Krueger reflete sobre o que o mundo da economia (e a vida de todos nós) pode aprender com a crise que afetou a indústria da música no início do século e o modo como foi ultrapassada. Texto: Nuno Galopim

Os circuitos económicos em torno da música passaram por um vendaval de acontecimentos nos últimos 20 anos. Depois de vivida uma década de 90 com números astronómicos (e que muito se deviam ao progressivo impacte do CD e do facto de muitos terem refeito as suas discografias voltando a comprar discos para os quais não havia senão gastos de fabrico), o advento do consumo (ilegal) P2P abriu um primeiro conjunto de brechas no que parecia uma economia robusta e votada ao sucesso (e atenção que a chamada “pirataria” não foi a causa única da crise que se instalou). A música não deixou de ter protagonismo nas nossas vidas. Mas as várias indústrias ao seu redor tiveram de encarar a chegada do século XXI e o confronto com novas realidades. E se durante a década de 90 a indústria da música não soube agir ao advento do online, a reação, quando finalmente chegou, refletiu já outro modo de pensar, começando pelo estabelecimento de lojas online (para download de canções ou de álbuns inteiros) e chegando ao modelo (atual) de streaming, isto sem esquecer um reequacionar do peso de outras fontes de rendimento para lá das vendas de música gravada, desde a estrada ao merchandising ou licenciamentos de música para os mais diversos fins. A verdade é que, mesmo tardia, a reação da indústria da música conseguiu inverter o curso em queda que se verificara nos primeiros anos do século XXI. E nos últimos anos o panorama inverteu-se e o crescimento foi evidente. O streaming, novos modelos de contratos (que se estendem para lá da edição dos discos), a atenção pela soma dos nichos (das reedições deluxe ao reaparecimento do vinil) são alguns dados a ter em conta para explicar a reviravolta que, depois da queda do início do século, a indústria da música conseguiu operar… 2020 não entra para já ainda nesta análise (até porque aqui o objeto em mãos é um livro de 2019), mas a seu tempo o ano e as suas consequências terão naturalmente de ser tomados em conta neste retrato.

            O objeto acima referido é Rockonomics, um livro assinado por Alan B. Kruger, que chefiou o Conselho Económico da administração Obama. Acalmem-se já os espíritos que respiram ideologia que o livro não é um manual de pensamento não conservador. O livro é na verdade uma reflexão sobre o que o mundo da economia pode aprender com o que se passou nas indústrias da música, notando como se instalou e depois ultrapassou uma crise (que no seu pico gerou encerramento de empresas e sérios números de desemprego).

            Alan B Kruger escreve, mesmo assim, de um modo que não fecha a compreensão do texto entre economistas. Logo na introdução observa que “quase toda a gente tem alguma ligação à indústria da música, seja ela qual for”, notando que “estamos intimamente ligados à música e à indústria da música através de amigos, da família ou de colaboradores”. Tendo em conta esta proximidade, o autor desenha em Rockonomics um olhar panorâmico que fala assim para todos. Mas que procura sublinhar que “os economistas podem aprender muito a observar a forma como os músicos se esforçam por desenvolver um elo emocional com o público, muitas vezes à custa dos lucros a curto prazo, e como as emoções lhes orientam o trabalho e moldam as decisões económicas”.

            Economistas e o público em geral são o leitor a quem Kruger dedicou estas páginas já que, na verdade, tanto os músicos como os profissionais das indústrias da música e os jornalistas que seguem estes universos já ouviram falar sobre estes assuntos, já os debateram e, em muitos casos, viveram e passaram por cenários aqui descritos. Mesmo assim qualquer profissional ligado à música pode aproveitar aqui uma sistematização de ideias, com o valor acrescentado de não mergulhar num “economês” de descodificação difícil. O livro junta a história dos acontecimentos que afetaram as indústrias da música nos últimos anos, focando questões como “a economia das superestrelas”, “o poder da sorte”, “a economia da música ao vivo”, “embustes e vigarices”, o advento do streaming, “propriedade intelectual num mundo digital” ou um olhar amplo sobre “o mercado global da música”. Pelo caminho há transcrições de figuras ligadas a estes universos, sejam profissionais da indústria ou até mesmo músicos (como o baterista Steve Ferrone ou Gloria Estefan). Rockonomics não é (nem quer ser) um tratado definitivo sobre estes assuntos. Tem informação. Tem histórias. E tem alguma opinião, claro. Como ponto de partida para refletir sobre as indústrias da música, ou para passar mensagem a outras esferas da economia, é um bom ponto de partida.

“Rockonomics – O Que a Indústria da Música Nos Pode Ensinar Sobre a Economia e Sobre a Vida”, de Alan B. Krueger, com 348 páginas, está disponível numa tradução de Luís Oliveira Santos publicada pela Temas & Debates.

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