Vários “Volume One” (1991)

Entre 1991 e 1996 a série “Volume” criou um modelo de compilação, acompanhada por booklets de cerca de 200 páginas, nos quais havia um artigo sobre cada um dos artistas representados no alinhamento. Informação e sons úteis para quem queria acompanhar os rumos da música “alternativa” antes da generalização da Internet. Texto: Nuno Galopim

Eram compilações, focadas sobretudos nos terrenos “alternativos”, do indie à eletrónica, com alinhamentos que procuravam sempre trazer gravações raras e inéditas (remisturas, edits, gravações ao vivo) dos artistas representados. Mas a mais distintiva das características da série Volume é que cada disco era acompanhado por uma publicação (com cerca de 200 páginas com as dimensões semelhantes às do booklet de um CD) na qual era apresentado um artigo de fundo sobre cada um dos artistas representados. O conceito não era por isso semelhante ao que revistas como a Mojo (e outras) apresentam, juntando um CD bónus à publicação impressa. Ali a peça principal era o CD, e a revista o seu complemento natural (de facto um booklet alargado). E nesta junção do jornalismo musical à música, cruzando num mesmo espaço uma compilação com identidade bem evidente e um volume de informação a contextualizar cada uma das faixas apresentadas, a série Volume ganhou adeptos e fez  história nos anos 90.

            Vale a pena lembrar que estamos numa etapa que antecede o acesso alargado de todos nós à Internet. Naturalmente já havia em cena várias compilações temáticas em forma de série (e nos mais variados campos estéticos). E naturalmente havia no Reino Unido, onde esta ideia ganhou forma, um muito saudável panorama de publicações de jornalismo musical atentas a estes mesmos domínios da música popular “alternativa”. Mas a ideia lançada em 1991 por Robert Deacon (que antes tinha já experiência de edição discográfica através da independente Sweatbox Records) cativou pelo modo como juntava a música à possibilidade de sobre ela poder, logo ali, ter acesso a informação. Tudo isto com as vantagens de uma curadoria que soube criar uma identidade na seleção dos artistas (como o faria um programa de rádio de autor) e o valor acrescentado de uma noção de branding que nasceu logo no primeiro volume da série e caracterizou o grafismo de todos os 17 lançamentos: cada capa e detalhes do grafismo do “livro/revista” de cada edição eram dominados pela presença de imagens de peixes de águas tropicais.

            Para terem uma ideia (caso não conheçam) desta noção de curadoria, que conferiu identidade bem demarcada às compilações Volume, o primeiro lançamento, o Volume One, portanto, incluía temas dos New Order, The Orb, Nitzer Ebb, Meat Beat Manifesto, Throwing Muses, The Shamen, Fortran 5, Consolidated ou Wolfgang Press. Poucos meses depois, ainda em 1991, o Volume Two trazia, entre outros, Lush, Nine Inch Nails, Sugarcubes, System 7, Barry Adamson, MC 900 Ft Jesus, Blue Aeroplanes, Definition of Sound, Blur, Spirea X, EMF, Bomb The Bass, Curve ou Pulp… E depois, até ao Volume 17, de 1996, há passagens por gravações de nomes como os Dispisable Heroes Of Hiphoprisy, Charlatans, Breeders, Moby, Orbital, LFO, Suede, Ultramarine, Bim Sherman, Pavement, The Fall, Stereolab, Dub Syndicate, Little Annie, Aphex Twin, The Grid, Happy Mondays, Bettie Serveert, Cocteau Twins, Cabaret Voltaire, L7, Red House Painters, Auteurs, Morrissey, Spiritualized, Ultra Vivid Scene, Björk, Saint Etienne, The The, Belly, American Music Club, Fluke, Radiohead, Verve, Stereo MC’s, Marc Almond, Slowdive, Boo Radleys, Sabres of Paradise, Underworld, Happy Mondays, James, Elastica, Morphine, Paul Weller, Madder Rose, Sonic Youth, Divine Comedy, Kristin Hersh, Jah Wobble, Cranberries, Tindersticks, Fun-Da-Mental, AR Kane, Spooky, Loop Guru, Tricky, Transblobal Underground, Primal Scream, Cypress Hill, dEUS, Wedding Present, Manic Street Preachers, Kitchens of Distinction, Henry Rollins, Garbage, Massive Attack, Catatonia, Laika, Ride, Luscious Jackson, Edwyn Collins, Ash, Cast, Cardigans, Skunk Anansie, Baby Bird, Alabama 3, Mick Harvey, Dubstar, Beck, The Cure ou Elvis Costello, entre muitos outros. O Volume 14, de 1995, focou com enorme detalhe a edição desse ano do Festival de Reading (alargando o destaque ensaiado um ano antes no Volume 11).

Os números da série Volume apresentaram-se apenas no formato de CD + livro/revista até ao número 8. Do número 9 ao 12 houve em simultâneo uma edição em formato de 2LP (em vinil). O Volume 13, que retomou o formato único das oito primeiras edições e o Volume 14 apresentou seleção alargada num 2CD. O Volume 15 (1996), com o subtítulo Technology Alert, juntava ao CD um Enhanced CD com conteúdo multimédia, formato que seria retomado no Volume 16. O Volume 17 (o derradeiro da série) apresentava-se como um CD duplo.

Entretanto, em 1993, Robert Deacon lançou uma série em paralelo, com as mesmas características editoriais, mas focada na nova música eletrónica, chamando-lhe Trance Europe Express, que gerou dois volumes (com esse título e depois várias variações temáticas e geográficas, que se manifestaram em edições de menor impacte até 1996. Esse foi de resto o ano para o ponto final das séries Volume que, um ano antes, tinham celebrado os feitos até então alcançados com a edição dos dois ‘best of’ Wasted – The Best of Volume (Part 1) e Sharks Patrol These Waters – The Best of Volume (Part 2), ambos no formato de duplo CD.

É certo que faltam aqui muitos nomes que marcaram a história nesse período. Mas a série Volume ajudou a fixar parte significativa da história “alternativa” da música popular ocidental nos anos 90.

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