No final dos anos 60 a Alemanha assistia à emergência de uma mais clara ordenação das ideias musicais que ali tinham emergido ao longo da década. Por um lado traduziam uma expressão da necessidade de reativar impulsos criativos que a história política das últimas acabara por secundarizar rejeitando também quaisquer expressões de identidade com afinidade para com o período em que o regime nazi estivera no poder. O mesmo tempo havia uma vontade em reagir à presença física de contingentes militares das forças que haviam vendido a guerra, que tinham evidente expressão na sugestão de uma cultura jovem sob claras marcas anglo-americanas. Daí a busca de uma música que não procurasse uma raíz comum nos blues e expressões folk anglo-americanas. E os estúdios/laboratório que exploravam os potenciais da música eletrónica desde os anos 50 revelaram caminhos possíveis a seguir…
Em Dusseldorf, numa região industrial em franca recuperação, Ralf Hutter e Florian Schneider dão os primeiros passos na sua vida artística sob este cenário. Schneider era filho de um arquiteto, e tendo passado já por primeiras bandas – entre a qual uma que se apresentava como Pissoff – estava em 1968 a estudar numa escola de artes em Remscheid quando conheceu Ralf Hutter. Começam por se apresentar como Organization e gravam um primeiro álbum em 1970. Mas, ainda o álbum não tinha chegado às lojas, já tinham mudado o nome para Krafwerk. Até 1973 exploram ideias e caminhos. E encontram um rumo em Autobahn (1974), iniciando uma nova etapa que deles faria um nome de absoluta referência na história da música eletrónica…
Aos poucos, um a um, vamos aqui “escutar os seus álbuns”
ÁLBUNS DE ESTÚDIO
A esta lista, que inclui os álbuns de estúdio e gravações ao vivo dos Kraftwerk, podemos juntar ainda “Tone Float” (ver aqui), álbum de 1970 assinado pelos Organization, o nome que o grupo comandado por Ralf Hutter e Florian Schneider usava antes de, nesse mesmo ano, mudar para Kraftwerk.
1970. Kraftwerk 1
Ralf Hutter e Florian Schneider, que haviam recentemente deixado os Organization – através dos quais tinham gravado o álbum Tone Float, editado em 1969 – encontravam na paisagem da região de Dusseldorf e no tom económico que a caracterizava um nome para uma nova etapa. Escolhem Kraftwerk e começam a divergir das linhas mais livres de alguma da música experimental de então, afastando-se também da vertente cósmica que caracterizava algumas das outras bandas suas contemporâneas. Contando na formação com as presenças dos percussionistas Andreas Hohmann e Klaus Dinger (que pouco depois formaria os Neu!), o quarteto original entrou em estúdio em julho de 1970 para, em poucas semanas, e na companhia de Conny Plank (como produtor e engenheiro de som) criarem o álbum que asseguraria a estreia do novo grupo.
Sem vontade de captar referências a possíveis heranças anglo-americanas – que explicariam pouco tempo depois numa entrevista a Lester Bangs – nem nas formas musicais exploradas nem nos títulos das quatro faixas que fazem o álbum (todas elas apresentadas em alemão), Kraftwerk é um claro passo adiante do que Tone Float havia sugerido, mostrando um conjunto de ideias contudo mais em modo de busca que cientes de que tinham encontrado a resposta.
Ruckzuck, que abre o disco, é mesmo assim um dos raros temas dos Kraftwerk que podemos associar a uma ideia de rock progressivo, quer pela forma como tecem as linhas hipnóticas – dominadas pela flauta e pela guitarra (sim, naquele tempo Ralf Hutter tocava guitarra) – que definem a alma da composição, quer pela percussão que, tal como na seguinte (e mais planante) Stratovarius, revelam, apesar da cadência metronómica, uma sonoridade aproximada da que se vivia então entre bandas pop/rock. O lado B do disco abre contudo outras possibilidades. Megahertz revela um protagonismo de sonoridades electrónicas e em Vom Himmel Hoch sentem-se primeiros indícios de uma vontade de, com estes mesmos elementos, começar a definir uma ordem mais racional e arrumada das ideias.
Disco experimental, não vocal, feito de temas de extensão longa, Kraftwerk assinalou o encetar de um relacionamento do grupo com a recentemente formada editora Philips e revelou, na capa, primeiros sinais de uma preocupação no plano do design que a evolução da obra do grupo levaria bem mais adiante. Um cone de sinalização rodoviária – na primeira manifestação de um recorrente interesse pelo universo dos transportes – serviu de primeira imagem de marca do grupo. Hoje, ao escutar Kraftwerk, acabamos inevitavelmente a procurar nele primeiros sinais que sugerissem o achar de um caminho mais firme que, em 1974, os acabaria por levar a Autobahn. Mas em 1970, ao mesmo tempo que nomes como os Tangerine Dream, Can e outros contemporâneos criavam um novo mundo de sons e sugestões, poucos poderiam imaginar que era daquele quarteto que emergiria pouco depois uma nova ordem que teria impacte global e mudaria a história da música popular.

1971. Kraftwerk 2
Integralmente criado e gravado por Ralf Hutter e Florian Schneider, contando apenas com a colaboração do engenheiro de som Conny Pank, o segundo álbum dos Kraftwerk evolui diretamente a partir de algumas sugestões apresentadas no disco de estreia embora represente, em toda a sua obra, aquele momento em que as electrónicas são menos presentes. Lançado pela Phillips em 1972, quase dois anos depois de Kraftwerk 1, Kraftwerk 2 sublinha mesmo essa noção de continuidade através do recurso a um design em tudo semelhante ao do álbum anterior, alterando apenas a cor do cone de laranja para verde escuro.
A instrumentação é essencialmente conduzida pelas guitarras, baixo, flauta e violino, e teclados (ainda apenas recorrendo ao orgão e ao piano elétrico). Há uma sugestão de padrão rítmico assim desenhado em Klingklang, a faixa longa que ocupa quase toda a face A do disco e que, de todo o alinhamento, é o que aqui abre horizontes. Este acaba por ser o momento do disco mais próximo de abrir portas rumo aos caminhos futuros da música do grupo, assim como inscreveu na sua histórica a designação pela qual mais tarde deram nome ao seu estúdio: Kling Klang.
O alinhamento de Kraftwerk 2 mostra uma sucessão de temas instrumentais criados segundo uma lógica experimental já distante dos espaços do jazz que animaram muitos dos primeiros focos de busca de identidade da juventude alemã em finais dos anos 60, mas revela-se ainda longe das rotas e destinos que dois anos depois os conduziriam a Autobahn. Há muito descatalogado, o álbum não viu os seus temas regressar aos alinhamentos dos concertos dos Kraftwerk depois da digressão que se sucedeu ao lançamento desse álbum histórico de 1974.

1973. Ralf & Florian
Por muito que vejamos no álbum de 1974 Autobahn um momento de eureka na obra dos Kraftwerk e da própria história das electrónicas, assinalando-se aí o instante no qual foi encontrada a chave que abrira as portas à sua presença com protagonismo maior na música popular, na verdade há que ter em conta que todo um processo de buscas, encontros e desencontros, que o antecede e sem o qual as ideias não teriam sido tão certas na hora certa e no local certo. Os dois primeiros álbuns dos Kraftwerk na verdade não os afastavam muito das grandes linhas de ideias que então caracterizavam outros grupos alemães do seu tempo, num processo de procura de uma identidade fora das genéticas anglo-saxónicas da música popular do seu tempo, chegando algum tempo depois, via Reino Unido, o rótulo krautrock que, convenhamos, pode não ter sido a palavra mais entusiasmante de ouvir na Alemanha. Afinal, as referencias a ecos da II Guerra Mundial que a expressão transportava podiam sugerir desconforto e até mesmo uma não identificação, sobretudo entre uma geração que também não olhava a esse passado coletivo (que era mais o das gerações dos pais e avós) como fonte para a busca daquilo que era e do que sonhava vir a ser.
Em 1973 o grupo andava novamente na estrada, não apenas tocando temas dos álbuns Kraftwerk 1 e Kraftwerk 2, mas experimentando por diversas vezes os universos da improvisação. E foi de ideias experimentadas durante essas atuações que emergiam as linhas que depois os levariam aos temas que gravaram em estúdio, uma vez mais ao lado de Conny Plank.
Ainda com afinidades para com gravações anteriores, mas num patamar mais ordenado de ideias e, sobretudo, mais minimalista nos elementos, mais claro na arrumação das estruturas e nítido na produção. Ainda há por aqui flautas, baixo, violino e até mesmo guitarra (que tem um papel fulcral na Ananas Symphonie que fecha o alinhamento). Mas mais que nunca há um protagonismo de teclados electrónicos, percussão e sugestões de sonoplastia que servem a construção de uma música que adivinha a descoberta de um novo patamar de acontecimentos.
Se temas como Elektrische Roulette ou Kristallo revelam já um encanto pela exploração das electrónicas e de padrões repetitivos, é contudo em Tanzmuzik que, sob uma ordem percussiva ordenada (já em clima motorik), encontram os azimutes que os transportariam ao passo seguinte.
Ao álbum, que editam em 1973, chamam simplesmente Ralf & Florian, na verdade não mais que os primeiros nomes dos fundadores e elementos fixos do grupo que, então, era um duo. A foto, que vemos na capa da edição alemã original, é como uma passagem de testemunho entre o que tinham sido e o que em breve passariam a ser. Ralf Hutter ainda de cabelos longos e roupas largas e… modernas. A seu lado Florian Schneider já de fato e gravata e cabelo aprumadamente cortado, vestindo a personagem que, daí em diante, seria a que interpretaria até 2008, ano em que se afastou do grupo. Na contracapa há uma foto do estúdio Kling Klang que revela elementos adicionais desta sugestão de que estaríamos mais perto de figuras da ciência que dos universos de glamour e festa da cultura pop.

1974. Autobahn
Kraftwerk (1970) sugeriara ligações possíveis com a cultura rock e expressara uma forma de pensar a composição entre heranças de liberdade aprendidas no jazz e um sentido de visão que ajudaria outros a inventar o progressivo. Um ano depois em Kraftwerk 2 o tema Kling Klang apresentava primeiras sugestões de uma abordagem rítmica mais arrumada, num caminho que voltariam a abordar em Tanzmuzik no álbum de 1973 Ralf & Florian. Mas faltava ainda algo. Se havia ferramentas (as electrónicas) e um indício de arquitetura rítmica de sons (que pouco depois seria conhecida sob o nome motorik), faltava ainda o tema que demarcasse definitivamente a sua geografia e o seu tempo.
A resposta chegou, curiosamente, de uma analogia com uma banda americana. Se os Beach Boys tinham encontrado no surf uma forma de cantar a “sua” Califórnia, os músicos que faziam a formação de então dos Kraftwerk poderiam celebrar a modernidade alemã através de um dos maiores feitos do pós-guerra: a construção de uma nova rede viária feita de auto-estradas nas quais se podia andar muito, e depressa. Ao cantar uma viagem numa auto-estrada, os quatro músicos de Dusseldorf encontraram a sua Califórnia. E, com descodificação imediata, o mundo entendeu-os e deu-lhes atenção.
Autobahn, é o tema-título com o qual os Kraftwerk apresentam o seu quarto álbum, em novembro de 1974. Não é ainda um álbum integralmente electrónico, uma vez que acolhe ainda a participação de outros instrumentos (nomeadamente a flauta e guitarra), mas ao longo do alinhamento o protagonismo das novas ferramentas é já bem visível.
O disco é o primeiro que vê o grupo a abraçar uma lógica conceptual que, daí em diante, caracterizaria a sua criação em álbuns futuros. Composição de 22 minutos ocupando todo o lado A do disco e revelando-se afinal uma longa canção, o tema-título Autobahn sugere um percurso numa autoestrada, integrando inclusivamente elementos de sonoplastia pensados para caracterizar o cenário. Reduzida a uma versão de três minutos, o tema seria pouco depois (já em 1975) o primeiro êxito global do grupo. O lado B apresenta quatro temas adicionais, do ensaio de piscadela de olho ao melodismo pop em Kommetenmelodie 2 ao não metronómico Morgenspaziergang, que fecha o alinhamento com uma proposta que se afasta consideravelmente dos trilhos seguidos no resto do alinhamento.
Convém contudo lembrar que, a anteceder a edição de Autobahn, os primeiros sinais de uma nova abordagem à composição na obra dos Kraftwerk tinha chegado ainda em finais de 1973 com um single que dividia uma ideia entre ambas as faces do disco. Com o título original Kohoutek-Kometenmelodie, numa alusão ao cometa identificado em março de 1973 pelo astrónomo Lubos Khoutek, os Kraftwerk propunham um tema instrumental com uma carga melódica até então nunca vista na sua obra, numa das duas partes do tema chegando mesmo a definir um padrão rítmico insistente.
Os dois temas que apresentaram neste single seriam regravados de novo para pouco depois integrar o alinhamento de Autobahn, residindo a maior diferença no facto de terem trocado a ordem da parte mais rápida e mais lenta da composição. Ou seja, enquanto em Autobahn é a parte 2 que revela a luminosidade pop e o suporte rítmico mais insistente, no single essa mesma composição é apresentada como sendo a parte 1, ocupando assim o lado A. Era um single visionário para o seu tempo, mas passou ao lado das atenções. Kommenenmelodie 2 foi mais tarde reeditado como segundo single extraído de Autobahn, não conseguindo contudo repetir os feitos do tema-título do álbum. É, contudo, um interessante pedaço de electrónica visionária, ainda ingénua na melodia, mas firme num desejo de levar a pop a um terreno nunca antes visitado pelo homem. O tempo deu-lhes razão.
Autobahn foi um dos álbuns mais influentes dos anos 70 e teve em David Bowie um dos seus primeiros grandes admiradores.

1975. Radio-Activity
O sucesso de Autobahn e as suas consequências financeiras permitiram equipar o estúdio Kling Klang e assim prescindir da necessidade de outros estúdios para trabalhar e gravar nova música. Ao mesmo tempo, a regularidade na relação com Karl Bartos e Wolfgang Flur fixavam a formação do grupo naquele que seria o seu line up “clássico”, que se manteria fixo até 1986, assinando assim o registo da etapa mais substancial da sua discografia. Radio-activity, lançado em 1975, seria o primeiro fruto das mudanças.
O disco é novamente uma expressão do desejo em elaborar uma peça conceptual, emergindo a ideia de um interesse em refletir sobre o papel da comunicação. Em concreto, a comunicação via rádio. Como em muitas outras criações dos Kraftwerk, o disco assinalava um ponto de diálogo entre uma ideia de nostalgia (evocando esse meio que havia tido um papel protagonista antes da chegada da televisão) e ao mesmo tempo colocando em cena ideias do presente. Estas ganham forma numa das primeiras manifestações musicais de um ceticismo perante a cada mais presente energia nuclear, sugerindo muitas das composições uma duplicidade de leituras. O tema-título, é de resto um exemplo claro dessa dupla face, com uma possível leitura sobre a rádio como meio de comunicação, mas ao mesmo tempo aludindo à descoberta do casal Curie, falando em concreto de radioatividade, cabendo ao verso “it’s in the air for you and me” o papel de sublinhar essa carga de ambiguidade, que ora conhece argumentos no primeiro sentido num outro tema como Airwaves ou, no segundo, em Geiger Counter. Já em Radio Stars, a dupla leitura está no confronto entre um título que sugere a ideia de estrelas da rádio e o universo que a música nos dá a escutar depois, projetando-nos mais longe, pelo universo.
Musicalmente é um disco também de passagem de um patamar do que até recentemente seria experimental rumo a uma mais firme expressão das linguagens da pop. Na verdade há no álbum apenas duas canções que possamos entender como formalmente. Uma delas o tema-título, a outra o magnífico Antenna, injustamente secundarizado desde sempre (foi inclusivamente escolhido como o lado B para o single Radio-Activity). Há outros momentos com voz, mas nos quais esta é entendida sem a lógica verbal mais habitual na canção pop, sugerindo antes a presença humana num quadro instrumental dominado pelas electrónicas – com uma série de novos instrumentos recentemente adquiridos, entre eles um Vako Orchestron – fazendo deste disco o primeiro na obra dos Kraftwerk sem a presença dos instrumentos analógicos (como por exemplo a flauta) que até aqui haviam surgido nas suas gravações.
De novo há também aqui a estreia da voz “robótica” que escutamos em The Voice of Energy – tema que faz a ponte para Antenna na abertura da face B do álbum – mostrando o registo modificado da voz humana que a partir de então o grupo passa a usar nas suas apresentações em concerto.

1977. Trans Europe Express
Trans Europe Express começou a surgir durante a digressão que acompanhou o álbum de 1975 e durante a qual o grupo começara a adotar uma nova imagem e uma disciplina que impedia consumo de álcool e drogas. Rigor e precisão em palco eram valor maior a defender. O disco, sucessor de Autobahn, tinha revelado a presença de uma série de novas canções, mas dividia ainda atenções por caminhos de maior liberdade formal, por vezes mais em rotas de deleite pelo som que em busca de uma arquitetura mais arrumada. Em Trans Europe Express, sobretudo em temas como Showroom Dummies ou Hall of Mirrors há uma vontade em afinar ainda mais o trabalho da canção, representando Europe Enldess uma clara abordagem ao melodismo característico da pop. No lado B a suite que abre ao som de Trans Europe Express, continua em Metal on Metal e, desde a reedição de 2009, termina com Azbug (até aqui segunda parte de Metal on Metal), define um reencontro com uma lógica conceptual que o grupo já antes tinha ensaiado e ainda voltaria a experimentar, desta vez partindo da sugestão do som da evolução de carruagens sobre caminhos de ferro para definir a matriz rítmica de uma composição, beneficiando a construção instrumental da entrada em cena de sequenciadores, que ajudaram sobretudo a talhar um novo trabalho de percussão electrónica. A sonoridade aqui definida teve impacte variado, e chegou mesmo a influenciar caminhos pioneiros na emergente cena hip hop depois de Metal on Metal ter sido samplado em Planet Rock de Afrika Bambaata.
O encantamento mútuo entre os Kraftwerk e David Bowie ganhou forma ao longo de 1976. Bowie desafiou o grupo a abrir os seus concertos e os Kraftwerk chegaram a falar que iriam gravar juntis, Nenhuma das ideias se concretizou. Mas se por um lado Bowie fazia anteceder a sua subida ao palco com música dos Kraftwerk, chegando mesmo a visitar depois Hutter e Schneider nos estúdios Kling Klang em Düsseldorf, por outro os alemães retribuíram mencionando não apenas “Station to Station” como mesmo um encontro com Bowie e Iggy Pop na letra de Trans-Europe Express.
O álbum, se por um lado representa uma segunda incursão do grupo pelo universo dos transportes (e vincando um interesse pelas dinâmicas do movimento), por outro alarga para lá das fronteiras da Alemanha a sua busca de um sentido de identidade. Se a rede viária alemã (parte dela dos anos 30 e 40, mas entretanto reconstruída no pós-guerra) fora o mote para o encontrar de uma geografia cultural em Autobahn, em Trans Europe Express celebrava-se antes a ideia de uma grande Europa, eventualmente sem fronteiras, sendo o “expresso” ferroviário uma expressão do livre movimento ao longo do seu território.

1978. The Man Machine
Em 1978 surgiu o álbum que se afirmaria como o paradigma de referência de uma nova ordem na cultura pop: a pop electrónica emergia definitivamente aqui. Se até então, entre os três álbuns editados entre 1974 e 1977, os Kraftwerk haviam demonstrado um particular interesse pela canção em alinhamentos onde havia uma preocupação conceptual maior, desta vez apostaram em apresentar um álbum todo ele caracterizado por uma mais direta relação com essa identidade “clássica”. Um álbum pop.
Há variações entre a forma de entender a relação com a canção num alinhamento que tem como extremo mais distante dos modelos canónicos o quase instrumental Spacelab, mas que afirma em The Model o que seria o paradigma da canção pop electrónica de primeira geração. Pelo caminho há canções como Neon Lights (que teve versões depois assinadas por nomes tão diferentes como os OMD ou U2), Metropolis (que alude a memórias do filme clássico de Fritz Lang) ou o mais minimalista The Man Machine. E outro momento fulcral em The Robots, canção que volta a explorar o mesmo universo de referências já ensaiado em Showrooom Dummies, imaginando seres robotizados que chegam mesmo a dançar. We are dancing mekanik, cantam…
Se The Model representa a única expressão de uma personagem feminina como protagonista de uma canção dos Kraftwerk, num quadro narrativo que fala de moda e revistas, já temas como The Man Machine ou The Robots exploram e aprofundam uma visão do mensch maschine, o homem-máquina, uma diluição de fronteiras físicas entre o ser humano e a tecnologia, que no fundo acaba por dar ao álbum um cunho conceptual que assim sublinha uma das ideias mais importantes de toda a filosofia dos Kraftwerk.
Na capa do álbum vemo-los naquela que talvez seja a mais icónica das fotos dos Kraftwerk. Um look militarista – que tanto podia mostrar afinidades com ecos das Alemanha nazi como pelo presente do então Leste comunista, coisa que baralhou muitas almas e gerou discurso – mostrava os quatro músicos numa escada, de camisas vermelhas e gravatas negras, com lábios retocados e sobrancelhas sublinhadas. Na contracapa apresentam-se numa pose séria mas que sugere um humor quase camp que na verdade aprofunda a ideia de jogos de contrastes que habita uma música e uma identidade que não se pode avaliar a preto e branco.

1981. Computer World
Editado em maio de 1981 o álbum Computer World completa, juntamente com Trans Europe Express (1977) e The Man Machine (1978) aquela que poderíamos entender como a “santíssima trindade” da obra dos Kraftwerk e, naturalmente, referência maior na história da música electrónica. Apesar do caráter visionário de Autobahn (1974), é entre estes três discos que o grupo aperfeiçoa e fixa a sua linguagem, definindo entre os três princípios fulcrais que teriam impacte nas muitas descendências que gerou, dos novos grupos da pop electrónica ao então emergente hip hop, com impacte ainda entre tantos outros caminhos que ainda estavam por acontecer, ou pelo menos emergir com identidade mais vincada, da electronic body music ao techno.
O intervalo de três que separa este álbum do anterior The Man Machine não é apenas fruto de um ritmo de trabalho criativo que, depois dos anos 70, entrou em progressivo processo de desaceleração, como traduz a concretização de um feito técnico que, daí em diante (e com consequências ainda hoje visíveis), mudaria a vida em palco dos Kraftwerk. Muito do tempo despendido neste intervalo coube a uma tentativa – com sucesso – de adaptar todo o estúdio Kling Klang (em Düsseldorf) a uma unidade móvel, permitindo ao grupo levar assim para a estrada as mesmas ferramentas e sons que usavam no trabalho de estúdio.
É neste clima de focagem de parte de atenções em desafios num plano tecnológico que o grupo idealiza um novo álbum através do qual deseja refletir sobre a crescente presença dos computadores nas nossas vidas. Apesar da aparente placidez que nasce de temas como Computer Love – que tem como sub-texto mais uma manifestação de um já experimentado diálogo de fronteiras esbatidas entre os mundos do homem e os da máquina – ou até mesmo da luminosa alma pop de Pocket Calculator, o álbum é na essência um disco político que, sem panfletarismos, reconhece a caminhada recente dos computadores rumo a um patamar de destaque no quotidiano e nota depois que, com os avanços que a tecnologia propõe, surgem outras realidades menos claras, nos mundos da segurança ou das finanças, sobre os quais deixam um alerta.
Instrumentalmente o disco é uma evolução na continuidade dos caminhos que o grupo tomara nos dois álbuns mais recentes, retomando o alinhamento uma lógica de arrumação mais semelhante à de Trans Europe Express, com uma suite temática a ocupar parte do lado B, estabelecendo pontes naturais entre Home Computer e It’s More Fun To Compute, entre estes dois temas podendo reconhecer-se ideias que fomentariam o despertar de novas abordagens às electrónicas pouco depois na cidade de Detroit, onde um novo som emergiria sob o rótulo techno.

1986. Electric Café
Uma pausa de dois anos fez-se notar entre a edição de Computer World e o episódio seguinte, um single estimulado pelo prazer (já antigo) dos elementos do grupo pelo ciclismo. Tour de France, com uma luminosidade pop e uma sensação de prazer e otimista que raramente transbordara tão evidente em composições anteriores, e animada por um trabalho rítmico com nuances inovadoras, surge em 1983, atrasada por um acidente (numa bicicleta) de Ralf Hutter durante a etapa de gravação do single. Chegara a ser ponderada a criação de um álbum que explorasse o universo do ciclismo ou até mesmo do desporto, mas a possível criação de um novo disco conceptual foi deixada de lado em detrimento da construção de um álbum que então se apresentava com o título de trabalho Technopop.
Os progressivos avanços que a música electrónica ia tomando para lá das paredes dos estúdios Kling Klang, o advento da gravação digital – inovação à qual sentiram que não podiam deixar de aderir – e uma falta de encantamento com o trabalho de mistura, que acabou mesmo por ser repetido, foram adiando sucessivamente a edição de um álbum. O longo processo de criação afastou-os do título original, entrando em cena a expressão Electric Café, recuperando uma ideia antiga do grupo em criar uma obra baseada nas vivências e sonoridades de um café. Rezam as mitologias que o grupo terá tomado ainda em conta memórias do cinema, como o filme de 1927 Cafe Elektric, protagonizado por Marlene Dietrich, ou a sequência de 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick, que junta um americano a um grupo de russos num lounge da estação espacial pela qual passa o trânsito de naves de e para a Lua.
Editado em novembro como Electric Café, mas hoje disponível numa edição remasterizada de 2009 que retomou o título original Technopop (com apenas uma ligeira alteração no alinhamento), o álbum não obteve o impacte dos discos anteriores mas representa uma pérola da obra do grupo que vale a pena (re)descobrir. Se é verdade que The Telephone Call é uma das canções menos inspiradas de toda a obra do grupo e Sex Object tenta encontrar – mas sem resultados surpreendentes – caminhos de exploração da canção segundo o que se sugeria em The Man Machine, o grosso do alinhamento mostra contudo o resultado de uma interessante redefinição de orientação na condução dos destinos da busca de inovação, valorizando um minimalismo nos elementos decorativos, concentrando atenções na exploração de formas de percussão electrónica e na sua relação com a palavra (entendida tanto pelo seu valor semântico como sonoro, aqui visando também o seu papel como elemento na arquitetura rítmica).
A face A do disco representa uma suite que junta três partes, que estão unidas não apenas pela estrutura rítmica – são ténues as mudanças que assinalam as passagens de cada segmento para o seguinte – mas também por elementos verbais que, com maior protagonismo num dos momentos, não deixam de estar presentes nos outros. Entre Boing Boom Tchak, Techno Pop e Musique Non Stop nasce mesmo uma das peças mais arrebatadoras da obra do grupo, evidência de que a sua capacidade de ver mais adiante não se esgotara depois de Computer World e Tour de France. O disco inclui ainda House Phone, uma visão mais dietética nos recursos, mas intelectualmente mais nutritiva, de elementos igualmente convocados em Telephone Call e Electric Café, tema-título que assinala um momento de ligação mais evidente para com as experiências registadas no single de 1983 Tour de France.

1991. The Mix
O silêncio que se instalou após a edição e promoção de Electric Café – que representou o episódio acolhido com menos entusiasmo na obra dos Kraftwerk desde os dias de Autobahn – não foi de inação, mas de profundas modificações técnicas nos equipamentos usados pelo grupo alemão. Ao decidir transitar para ferramentas digitais, o grupo – contando sobretudo com a ajuda do engenheiro de som Fritz Hilpert – iniciou o laborioso processo de transferência de todo o seu arquivo e registos para novas máquinas. No mesmo período o passo seguinte a dar começou a ganhar forma numa proposta alternativa ao mais clássico modelo do ‘best of’. As novas máquinas e as ideias que a música electrónica e formas mais contemporâneas de vários géneros entretanto iam revelando estimularam a criação de novas abordagens a um conjunto de temas originalmente compostos entre 1974 e 86. A vontade em fazer uma nova digressão – que como na que se sucedera à que acompanhou Computer World levaria para a estrada todo o estúdio, instalado em módulos portáteis – vincou mais ainda esta vontade de pensar uma coleção de novas visões para as suas canções.
O período que separou Electric Café de The Mix não viveu apenas episódios técnicos e artísticos. A progressiva insatisfação de Wolfgang Flur e Karl Bartos fez com que, por esta ordem, ambos abandonassem então o grupo. EW quando The Mix surgiu finalmente, em 1991, da formação anterior já só estavam a bordo Ralf Hutter e Florian Schneider. O disco está contudo longe de ser uma expressão de um “melhor de”, tendo deixado de fora alguns clássicos maiores da obra do grupo como The Model, Showroom Dummies ou até mesmo Tour de France, que até aí não tinha ainda surgido no alinhamento de nenhum álbum. Pelo contrário, temas como Dentaku ou Metal on Metal – continuações naturais das suites de, respetivamente, Pocket Calculator ou Trans Europe Express – visavam já um modelo de abordagem às composições que a digressão apresentaria pouco depois.
As grandes diferenças face aos temas originais mostram-se sobretudo na versão reduzida (ou, antes, compactada) de Autobahn, na leitura ritmicamente mais vibrante e atualizada de The Robots ou numa abordagem menos dúbia de Radio-Activity em cuja letra figuravam agora referências a Chernobyl, Sellafield, Harrisburg e Hiroxima, acentuando a visão política anti-nuclear que então se tornou clara.
Relativamente bem sucedido, The Mix gerou a edição de dois novos singles. Foram eles The Robots – em cujo teledisco se apresentavam os novos robots mais minimalistas – Radio-Activity, neste último alguns dos formatos incluindo uma remistura assinada por William Orbit.

2003. Tour de France – Soundtracks
Entre o álbum “Electric Café” (1986) e o disco que chegou como surpresa em 2003 tinham passado 17 anos durante os quais dos Kraftwerk havia chegado um álbum de remisturas editado em 1991 e de, verdadeiramente novo, apenas um single havia a assinalar: “Expo 2000”, tema composto a partir da ideia concebida para um jingle criado pelo grupo para a exposição mundial de Hannover em 2000 e que, entretanto reescrito, se apresenta hoje com o título “Planet of Visions” em alinhamentos de recentes concertos ao vivo. A chegada de nova música em 2003 foi para quase toda a gente uma (boa) surpresa, do silêncio surgindo pouco antes do lançamento do álbum um disco promocional distribuído entre os media, gerando reações do oito ao oitenta. A quase unanimidade de outrora desaparecera. Mas “Tour de France Soundtracks” era tudo menos um momento menor na obra do grupo.
Na verdade a história do disco era já antiga, remontando aos tempos em que, depois de “Computer World” (1981) esteve sobre a mesa a ideia de criarem um álbum sobre ciclismo, uma das paixões maiores dos elementos do grupo. Houve ideias registadas e primeiros conceitos levantados, mas o desejo de criar um álbum teve materialização apenas na forma do single “Tour de France”, que editaram em 1983 e que acabaria então por representar uma experiência one off sem representação no alinhamento de um álbum de estúdio (nem mesmo, mais tarde, foi tema recuperado no repensar de formas e cenografias que ganhou forma em “The Mix”).
Com uma nova formação, já sem Karl Bartos nem Wolfgang Flur, os Kraftwerk do século XXI retomavam a ideia desse disco perdido para assinalar o centenário do surgimento da Volta a França em Bicicleta, repensando a forma de o arquitetar musicalmente juntando ecos do que era a linguagem que em tempos teriam utilizado, mas mostrando ao mesmo tempo sinais de atenção para o modo como as suas visões originais tinham gerado descendências que agora assimilavam, um pouco como aquela imagem do professor que volta a aprender com o que os alunos fizeram com base naquilo que em tempos ele lhes ensinara.
Tomando “Tour de France” como mote para parte das novas composições, explorando depois realidades e conceitos associados ao ciclismo, desporto, a tecnologia (afinal havia máquinas em cena: as bicicletas) e ao corpo do desportista, o disco emerge como um espaço tematicamente coeso, musicalmente revelando contudo uma lógica que concilia o gosto em criar peças maiores e sequenciadas (como o tinham feito ou em “Trans Europe Express” ou “Electric Café”) com uma vontade em trabalhar canções que pudessem ter expressão musical independente apesar de haver um elo de ligação temático entre si (como tinham mostrado em The Man Machine). Curiosamente o álbum que musicalmente mais se aproxima ao que aqui encontramos será “Computer World”. Mas a presença de novos elementos é igualmente evidente.
No álbum de 1991, que surge depois de a música de dança e o hip hop terem assimilado muitas das visões lançadas pelos Kraftwerk entre 1974 e 1981, notava-se já da parte do grupo alemão um desejo em escutar e aprender com os que haviam sido seus discípulos, e ecos da cultura house e suas cercanias já ali tinham emergido. Agora, em 2003, não só a house era assimilada (e transformada) como o mesmo acontecia com ensinamentos colhidos em tantos outros domínios, do ambiente às periferias do techno e outras derivações.
Sem perder o apelo pop, que sobressai particularmente em “La Forme” e na canção de 1983 devidamente recuperada e sem prescindir de marcas de personalidade evidentes, como as que escutamos em “Vitamin”, há em grande parte do disco a expressão de um desejo em adaptar as marcas de identidade de uma música de personalidade vincada ao convívio com novas formas e máquinas (afinal nada mais senão o que em tempos tinham feito com as máquinas ao seu serviço nos anos 70). E se “Aero Dynamik” e “Chrono” são expressões claras de um diálogo da “voz” kraftwerkiana com descendências várias da cultura house, já “Elektro Kardiogramm” assinala, através da utilização de sons do corpo sampados, uma aproximação a um terreno de construção sonora com base em captações áudio depois manipuladas onde tantas vezes encontrámos já nomes como uns Matmos ou Herbert.
Talvez não seja um álbum capaz de estimular novas ideias, como o fizeram os que em tempos tinham editado. Mas convenhamos que por essa altura, há 12 anos, os Kraftwerk tinham já contribuído mais que muitos para a história da música. E que bom que foi ver como deram um belo novo passo sem ficar atolados na nostalgia que tantas vezes domina obras de veteranos com o tempo de vida do quarteto alemão.
ÁLBUNS AO VIVO

2005. Minimum Maximum
Apesar de uma carreira de palcos que remonta aos primeiros tempos de vida do próprio grupo a ideia de editar um álbum ao vivo nunca morou entre as prioridades discográficas dos Kraftwerk durante longos anos. É importante notar que, mesmo sendo um projeto de intenso labor no estúdio, os Kraftwerk dedicaram sempre grande atenção ao desenvolvimento das suas performances ao vivo, com o tempo a tecnologia tendo tornado viáveis algumas das suas aspirações de outrora.
A capacidade em tornar portátil todo o estúdio Kling Klang, que caracterizou o regresso à estrada após a edição de Computer World, e a progressiva inclusão de novos suportes visuais a partir dos anos 90 abriram caminho para a visão de uma experiência audiovisual que tomou corpo depois da viragem do milénio na digressão que surgiu depois do lançamento do álbum de 2003 Tour de France Soundtracks.
Minimum Maximum (também disponível em DVD) é o registo dessa mesma digressão, juntando a versão em disco excertos de gravações efetuadas em atuações entre as cidades de Berlim, Varsóvia, Moscovo, Roma, Budapeste, Talin, Riga, Tóquio e São Francisco. O alinhamento segue a ordenação das canções tal e qual foram apresentadas em palco, omitindo a versão em disco a voz robotizada que anunciada chegada a palco dos músicos (que se escuta todavia no DVD).
Com uma importante presença de temas do álbum de 2003, mas recuperando uma série de faixas históricas – algumas delas próximas do registo revisto em The Mix – Minimum / Maximum inclui pela primeira vez num disco o tema Planet of Visions, na verdade uma evolução de Expo 2000. A introdução falada através de um vocoder, Sellafield 2, que se escuta antes de Radio-Activity, é também outra das estreias em disco do álbum.
Após uma multidão de bootlegs lançados ao longo dos anos, este disco correspondeu à primeira edição “oficial” de uma gravação live dos Kraftwerk.
Além da edição global do disco, há uma outra com alguns dos temas cantados em alemão, seguindo assim uma antiga tradição do grupo.
Esta gravação documenta a digressão que assinalou a primeira passagem dos Kraftwerk por palcos portugueses. Na verdade em 2004 o grupo visitou-nos duas vezes, a primeira a 2 de abril no Coliseu dos Recreios, a segunda a 8 de agosto no Festival Sudoeste, na Zambujeira do Mar.

2014. Der Katalog 3D (1 2 3 4 5 6 7 8)
Com uma história de palco que antecede até a edição dos seus primeiros discos, a obra dos Kraftwerk esteve mais focada na criação musical (que se traduzia na génese de sons, composição e gravação de álbuns) do que em rotinas de estrada durante a etapa que, entre Autobahn (1974) e Electric Café (de 1986, disco hoje entretanto rebatizado com o título originalmente pretendido Techno Pop) definiu o corpo central da sua música. Houve concertos e digressões nesse intervalo, é certo. Mas a prioridade estava então na criação de uma obra em disco. Com os anos 90 – e numa altura em que a disco chegava uma revisão da matéria dada na forma do álbum The Mix, de 1991 – surgirm novos desafios em palco que, na verdade, o grupo acabaria por abordar a fundo um pouco mais adiante quando, já depois da viragem do milénio, e com um novo álbum de estúdio entretanto editado – Tour de France – Soundtracks (2003), inicia uma nova etapa de vida na qual o palco passou a ser o destino central das ações do quarteto (que entretanto fora sofrendo alterações na sua constituição e do qual hoje resta apenas um dos seus fundadores, Ralf Hutter).
Uma viagem no tempo recorda-nos como, nos anos 70, só o tipo de instrumentos que levavam a palco distinguia os Kraftwerk de muitos dos seus contemporâneos. Chegaram mesmo a afastar-se da estrada em finais da década, regressando depois para cumprir uma nova digressão por alturas do lançamento do álbum Computer World. Mostravam-se então com um palco que recriava em cena todo o seu estúdio Kling Klang, que se tornara assim numa realidade móvel e itinerante, feito com quatro unidades portáteis mais os seus elementos de apoio, miniaturizando ainda mais os equipamentos no instante em que se chegavam à boca de cena para, de máquinas de calcular na mão, interpretar Pocket Calculator, um dos singles do novo álbum. É também nessa digressão que surgem pela primeira vez em palco os manequins (que haviam sido já expostos em fotos promocionais nos tempos de The Man Machine), que tomavam o lugar dos quatro músicos quando se escutava The Robots.
Ao longo dos anos 80, ao mesmo tempo que viam novas gerações de músicos a fazer das suas ideias a base de toda uma nova linguagem pop eletrónica, os Kraftwerk reduziram o volume de criação de estúdio, dedicando antes parte do seu tempo à exploração das potencialidades de novas tecnologias. E é desse trabalho (e do consequente domínio sobre o sampling) que nasce não só The Mix como uma versão digital do estúdio Kling Klang, que começam então a levar à estrada. Por essa altura, e aproveitando as sugestões de novas abordagens a clássicos seus tal e qual o haviam mostrado em The Mix, atualizaram as visões sonoras e cénicas para o palco. As composições ganham novo viço e, por vezes até, novos sentidos. Radio Activity, que tinha nascido sob uma identidade ambígua – já que não deixava claro se falavam apenas da radioatividade ou da rádio como espaço de comunicação – focava agora uma posição bem clara contra a proliferação do nuclear, com uma abertura que alertava para grandes catástrofes, de Hiroxima a Chernobyl. É sob este conjunto de visões, às quais podemos somar o acima citado álbum de 2003, que definem, já no século XXI, um novo modelo de concerto. A tecnologia tinha evoluído no sentido de dotar o grupo de equipamento que lhes permitia não só recriar em palco os elementos sonoros usados em estúdio como, depois, controlar um gigantesco ecrã sobre o qual iam lançando projeções, cada qual materializando imagens em função dos temas tocados. Dessas experiências de palco resultou em 2005 o álbum ao vivo Minumum Maximum, o seu primeiro disco “oficial” ao vivo (a juntar a uma multidão de bootlegs que há muito proliferavam). E ali mostravam-nos (sobretudo na versão em DVD) como, finalmente, às visões de futuro que a sua música fora sugerindo nos anos 70 e 80, as artes do palco finalmente tinham acrescentado a tecnologia necessária para completar essa mesma visão.
Pouco depois, a edição da caixa antológica Der Katalog (ou The Catalogue na versão internacional, lançamento que reunia a obra de estúdio dos oito álbuns editados entre 1974 e 2003, o que excluía as criações pré-Autobahn) motivou novo regresso à estrada, desta vez propondo dois modelos de concerto: um deles em formato best of, o outro sendo na verdade uma residência para oito atuações numa mesma sala, durante as quais a cada concerto cabia o papel de reinterpretar, de fio a pavio, um dos oito álbuns desse mesmo período, desenhando um ciclo live da sua integral de álbuns entre 1974 e 2003. No plano visual a grande novidade era então a integração de imagens 3-D no grande ecrã que dominava o palco. Mas também na música surgiam novos ângulos interpretativos, desde uma abordagem pop, mais viva e menos metronómica a Antenna à inclusão de uma das variações do tema criado para a Expo 2000 (agora com o título Planet of Visions) no alinhamento de The Mix, na verdade criado nove anos antes.
É neste quadro que nasce um novo registo em disco, DVD e Blu-Ray, este na forma de novas caixas, que documentam a visão dos concertos Der Katalog na era 3-D, correndo assim os alinhamentos dos álbuns Autobahn (1974), Radio Activity (1975), Trans Europe Express (1976), The Man Machine (1978), Computer World (1981), Techno Pop (1986), The Mix (1991) e Tour de France – Soundtracks (2003). Da formação original, resta apenas a figura central de Ralf Hutter, estando ao seu lado Fritz Hilpert (percussionista e engenheiro de som que entrou em cena em 1987 após a saída de Karl Bartos), Henning Schmitz (teclados) e Falk Grieffenhagen (que integra o quarteto desde 2013). The Catalogue 3-D, editado em 2017, é o documento desta etapa e do trabalho na estrada destes quatro músicos. A edição no formato Blu-ray junta, numa caixa de quatro discos, registos dos oito concertos assim como as projeções e filmes usados em palco, acrescentando um livro com fotos tiradas na digressão e imagens dos grafismos projetados nos ecrãs. A edição áudio (em CD e vinil) inclui gravações integrais dos oito álbuns revisitados e nasceu de uma seleção de gravações de atuações no intervalo de 2012 a 2016. Para carteiras mais contidas surgiu ainda um duplo LP que se ajusta ao espetáculo “best of” 3-D (o mesmo que trouxeram recentemente a Lisboa e ao Porto) e que junta elementos de
COMPILAÇÕES
Estas não são todas as compilações lançadas com gravações dos Kraftwerk mas correspondem às que surgiram nos mercados centrais da discografia do grupo, nomeadamente Alemanha (D) e Reino Unido (UK), algumas tendo depois conhecido lançamentos em outros territórios.
1972. Kraftwerk (UK)
1974. Doppelalbum (D)
1975. Exceller 8 (UK)
1979. Highrail (D)
1981. Elektro Kinetik (UK)
2004. Der Katalog
SINGLES
No departamento a 45 rotações segue-se aqui um retrato do panorama de lançamentos no formato de sete polegadas. As discografias alemã e britânica são apresentadas nas respetivas integrais, já que entre ambas estão os cânones das edições em língua alemã e inglesa. As edições posteriores a 2003 que são linguisticamente iguais em todos os mercados ficam apenas registadas na discografia alemã. As referências a edições nos EUA, Japão, França, Brasil e Argentina devem-se a lançamentos com versões em línguas diferentes ou com alinhamentos consideravelmente distintos.
ALEMANHA:
1974. Kouhoutek – Kommetenmelodie
1974. Mitternacht / Morgenspaziergang / Kommetenmelodie 1
1974. Autobahn / Morgenspaziergang
1975. Komettenmelodie 2 / Mitternacht
1975. Radioaktivität / Antenne
1977. Trans Europa Express / Franz Schubert
1978. Die Roboter / Spacelab
1978. Das Model / Neonlicht
1981. Taschenrechner / Dentaku
1981. Das Model / The Model
1983. Tour de France (German Version) / Tour de France (French Version)
1986. Musique Non Stop / Musique Non Stop (version)
1986. Der Telefon Anruf (remix) / The Telephone Call (remix)
1991. Die Roboter (single edit) / Robotronik (single edit)
1991. Radioaktivität (François Kevorkian Remix) / Radioaktivität (William Orbit Remix)
2000. Expo 2000
2003. Tour de France 2003
2004. Aerodynamik
2007. Aerodynamik + La Forme Remixes
2017. Die Roboter 3D
REINO UNIDO:
1975. Autobahn / Kommetenmelodie 1
1975. Comet Melody 2 / Kristallo
1975. Radioactivity /Antenna
1977. Trans Europe Express / Europe Endless
1977. Showroom Dummies / Europe Endless
1978. The Robots / Spacelab
1978. Neon Lights / Trans Europe Express / The Model
1981. Pocket Calculator / Dentaku
1981. Computer Love / The Model
1981. The Model / Computer Love
1981. Kommetenmelodie 2 / Von Himmel Hoch
1982. Showroom Dummies / Numbers (remix)
1983. Tour de France / Tour de France (instrumental)
1983. Tour de France (remix) / Tour de France
1986. Musique Non Stop / Musique Non Stop (version)
1986. The Telephone Call / Der Telefon Anruf
1991. The Robots (remix) / Robotronik
1991. Radioactivity (François Kevorkian Remix) / Radioactivity (William Orbit Remix)
2000. Expo 2000
EUA:
1977. Showroom Dummies / Les Manequins
1978. The Robots (edit) / Neon Lights (edit)
1981. Computer Love (edit) / Numbers (edit)
JAPÃO:
1981. Dentaku (edit) / Pocket Calculator
FRANÇA:
1977. Les Manequins (edit) / The Hall of Mirrors
ARGENTINA:
1978. Metropolis (edit) / The Model
1981. Mundo de Computadores (Computer World) / Amor Computado (Computer Love)
BRASIL:
1978: Spacelab / The Model
Este texto é um “work in progress” que, aos poucos, irá acolher informação sobre os diversos títulos da obra em disco dos Kraftwerk.






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