A discografia dos Kraftwerk

Numa altura em que se assinala a passagem de 50 anos sobre o lançamento de “Tone Float”, o GiRA DiSCOS vai mergulhar nos títulos fundamentais da discografia dos Kraftwerk. Aqui vão surgir, regularmente, referências a cada um. Texto: Nuno Galopim

No final dos anos 60 a Alemanha assistia à emergência de uma mais clara ordenação das ideias musicais que ali tinham emergido ao longo da década. Por um lado traduziam uma expressão da necessidade de reativar impulsos criativos que a história política das últimas acabara por secundarizar rejeitando também quaisquer expressões de identidade com afinidade para com o período em que o regime nazi estivera no poder. O mesmo tempo havia uma vontade em reagir à presença física de contingentes militares das forças que haviam vendido a guerra, que tinham evidente expressão na sugestão de uma cultura jovem sob claras marcas anglo-americanas. Daí a busca de uma música que não procurasse uma raíz comum nos blues e expressões folk anglo-americanas. E os estúdios/laboratório que exploravam os potenciais da música eletrónica desde os anos 50 revelaram caminhos possíveis a seguir…

Em Dusseldorf, numa região industrial em franca recuperação, Ralf Hutter e Florian Schneider dão os primeiros passos na sua vida artística sob este cenário.  Schneider era filho de um arquiteto, e tendo passado já por primeiras bandas – entre a qual uma que se apresentava como Pissoff – estava em 1968 a estudar numa escola de artes em Remscheid quando conheceu Ralf Hutter. Começam por se apresentar como Organization e gravam um primeiro álbum em 1970. Mas, ainda o álbum não tinha chegado às lojas, já tinham mudado o nome para Krafwerk. Até 1973 exploram ideias e caminhos. E encontram um rumo em Autobahn (1974), iniciando uma nova etapa que deles faria um nome de absoluta referência na história da música eletrónica…

Aos poucos, um a um, vamos aqui “escutar os seus álbuns”

ÁLBUMS

A esta lista, que inclui os álbuns de estúdio e gravações ao vivo dos Kraftwerk, podemos juntar ainda “Tone Float” (ver aqui), álbum de 1970 assinado pelos Organization, o nome que o grupo comandado por Ralf Hutter e Florian Schneider usava antes de, nesse mesmo ano, mudar para Kraftwerk.

1970. Kraftwerk 1

Ralf Hutter e Florian Schneider, que haviam recentemente deixado os Organization – através dos quais tinham gravado o álbum Tone Float, editado em 1969 – encontravam na paisagem da região de Dusseldorf e no tom económico que a caracterizava um nome para uma nova etapa. Escolhem Kraftwerk e começam a divergir das linhas mais livres de alguma da música experimental de então, afastando-se também da vertente cósmica que caracterizava algumas das outras bandas suas contemporâneas. Contando na formação com as presenças dos percussionistas Andreas Hohmann e Klaus Dinger (que pouco depois formaria os Neu!), o quarteto original entrou em estúdio em julho de 1970 para, em poucas semanas, e na companhia de Conny Plank (como produtor e engenheiro de som) criarem o álbum que asseguraria a estreia do novo grupo.

Sem vontade de captar referências a possíveis heranças anglo-americanas – que explicariam pouco tempo depois numa entrevista a Lester Bangs – nem nas formas musicais exploradas nem nos títulos das quatro faixas que fazem o álbum (todas elas apresentadas em alemão), Kraftwerk é um claro passo adiante do que Tone Float havia sugerido, mostrando um conjunto de ideias contudo mais em modo de busca que cientes de que tinham encontrado a resposta.

Ruckzuck, que abre o disco, é mesmo assim um dos raros temas dos Kraftwerk que podemos associar a uma ideia de rock progressivo, quer pela forma como tecem as linhas hipnóticas – dominadas pela flauta e pela guitarra (sim, naquele tempo Ralf Hutter tocava guitarra) – que definem a alma da composição, quer pela percussão que, tal como na seguinte (e mais planante) Stratovarius, revelam, apesar da cadência metronómica, uma sonoridade aproximada da que se vivia então entre bandas pop/rock. O lado B do disco abre contudo outras possibilidades. Megahertz revela um protagonismo de sonoridades electrónicas e em Vom Himmel Hoch sentem-se primeiros indícios de uma vontade de, com estes mesmos elementos, começar a definir uma ordem mais racional e arrumada das ideias.

Disco experimental, não vocal, feito de temas de extensão longa, Kraftwerk assinalou o encetar de um relacionamento do grupo com a recentemente formada editora Philips e revelou, na capa, primeiros sinais de uma preocupação no plano do design que a evolução da obra do grupo levaria bem mais adiante. Um cone de sinalização rodoviária – na primeira manifestação de um recorrente interesse pelo universo dos transportes – serviu de primeira imagem de marca do grupo. Hoje, ao escutar Kraftwerk, acabamos inevitavelmente a procurar nele primeiros sinais que sugerissem o achar de um caminho mais firme que, em 1974, os acabaria por levar a Autobahn. Mas em 1970, ao mesmo tempo que nomes como os Tangerine Dream, Can e outros contemporâneos criavam um novo mundo de sons e sugestões, poucos poderiam imaginar que era daquele quarteto que emergiria pouco depois uma nova ordem que teria impacte global e mudaria a história da música popular.

1971. Kraftwerk 2

Integralmente criado e gravado por Ralf Hutter e Florian Schneider, contando apenas com a colaboração do engenheiro de som Conny Pank, o segundo álbum dos Kraftwerk evolui diretamente a partir de algumas sugestões apresentadas no disco de estreia embora represente, em toda a sua obra, aquele momento em que as electrónicas são menos presentes. Lançado pela Phillips em 1972, quase dois anos depois de Kraftwerk 1Kraftwerk 2 sublinha mesmo essa noção de continuidade através do recurso a um design em tudo semelhante ao do álbum anterior, alterando apenas a cor do cone de laranja para verde escuro.

A instrumentação é essencialmente conduzida pelas guitarras, baixo, flauta e violino, e teclados (ainda apenas recorrendo ao orgão e ao piano elétrico). Há uma sugestão de padrão rítmico assim desenhado em Klingklang, a faixa longa que ocupa quase toda a face A do disco e que, de todo o alinhamento, é o que aqui abre horizontes. Este acaba por ser o momento do disco mais próximo de abrir portas rumo aos caminhos futuros da música do grupo, assim como inscreveu na sua histórica a designação pela qual mais tarde deram nome ao seu estúdio: Kling Klang.

O alinhamento de Kraftwerk 2 mostra uma sucessão de temas instrumentais criados segundo uma lógica experimental já distante dos espaços do jazz que animaram muitos dos primeiros focos de busca de identidade da juventude alemã em finais dos anos 60, mas revela-se ainda longe das rotas e destinos que dois anos depois os conduziriam a Autobahn. Há muito descatalogado, o álbum não viu os seus temas regressar aos alinhamentos dos concertos dos Kraftwerk depois da digressão que se sucedeu ao lançamento desse álbum histórico de 1974.

1973. Ralf & Florian

Por muito que vejamos no álbum de 1974 Autobahn um momento de eureka na obra dos Kraftwerk e da própria história das electrónicas, assinalando-se aí o instante no qual foi encontrada a chave que abrira as portas à sua presença com protagonismo maior na música popular, na verdade há que ter em conta que todo um processo de buscas, encontros e desencontros, que o antecede e sem o qual as ideias não teriam sido tão certas na hora certa e no local certo. Os dois primeiros álbuns dos Kraftwerk na verdade não os afastavam muito das grandes linhas de ideias que então caracterizavam outros grupos alemães do seu tempo, num processo de procura de uma identidade fora das genéticas anglo-saxónicas da música popular do seu tempo, chegando algum tempo depois, via Reino Unido, o rótulo krautrock que, convenhamos, pode não ter sido a palavra mais entusiasmante de ouvir na Alemanha. Afinal, as referencias a ecos da II Guerra Mundial que a expressão transportava podiam sugerir desconforto e até mesmo uma não identificação, sobretudo entre uma geração que também não olhava a esse passado coletivo (que era mais o das gerações dos pais e avós) como fonte para a busca daquilo que era e do que sonhava vir a ser.

Em 1973 o grupo andava novamente na estrada, não apenas tocando temas dos álbuns Kraftwerk 1 e Kraftwerk 2, mas experimentando por diversas vezes os universos da improvisação. E foi de ideias experimentadas durante essas atuações que emergiam as linhas que depois os levariam aos temas que gravaram em estúdio, uma vez mais ao lado de Conny Plank.

Ainda com afinidades para com gravações anteriores, mas num patamar mais ordenado de ideias e, sobretudo, mais minimalista nos elementos, mais claro na arrumação das estruturas e nítido na produção. Ainda há por aqui flautas, baixo, violino e até mesmo guitarra (que tem um papel fulcral na Ananas Symphonie que fecha o alinhamento). Mas mais que nunca há um protagonismo de teclados electrónicos, percussão e sugestões de sonoplastia que servem a construção de uma música que adivinha a descoberta de um novo patamar de acontecimentos.

Se temas como Elektrische Roulette ou Kristallo revelam já um encanto pela exploração das electrónicas e de padrões repetitivos, é contudo em Tanzmuzik que, sob uma ordem percussiva ordenada (já em clima motorik), encontram os azimutes que os transportariam ao passo seguinte.

Ao álbum, que editam em 1973, chamam simplesmente Ralf & Florian, na verdade não mais que os primeiros nomes dos fundadores e elementos fixos do grupo que, então, era um duo. A foto, que vemos na capa da edição alemã original, é como uma passagem de testemunho entre o que tinham sido e o que em breve passariam a ser. Ralf Hutter ainda de cabelos longos e roupas largas e… modernas. A seu lado Florian Schneider já de fato e gravata e cabelo aprumadamente cortado, vestindo a personagem que, daí em diante, seria a que interpretaria até 2008, ano em que se afastou do grupo. Na contracapa há uma foto do estúdio Kling Klang que revela elementos adicionais desta sugestão de que estaríamos mais perto de figuras da ciência que dos universos de glamour e festa da cultura pop.

1974. Autobahn

Kraftwerk (1970) sugeriara ligações possíveis com a cultura rock e expressara uma forma de pensar a composição entre heranças de liberdade aprendidas no jazz e um sentido de visão que ajudaria outros a inventar o progressivo. Um ano depois em Kraftwerk 2 o tema Kling Klang apresentava primeiras sugestões de uma abordagem rítmica mais arrumada, num caminho que voltariam a abordar em Tanzmuzik no álbum de 1973 Ralf & Florian. Mas faltava ainda algo. Se havia ferramentas (as electrónicas) e um indício de arquitetura rítmica de sons (que pouco depois seria conhecida sob o nome motorik), faltava ainda o tema que demarcasse definitivamente a sua geografia e o seu tempo.

A resposta chegou, curiosamente, de uma analogia com uma banda americana. Se os Beach Boys tinham encontrado no surf uma forma de cantar a “sua” Califórnia, os músicos que faziam a formação de então dos Kraftwerk poderiam celebrar a modernidade alemã através de um dos maiores feitos do pós-guerra: a construção de uma nova rede viária feita de auto-estradas nas quais se podia andar muito, e depressa. Ao cantar uma viagem numa auto-estrada, os quatro músicos de Dusseldorf encontraram a sua Califórnia. E, com descodificação imediata, o mundo entendeu-os e deu-lhes atenção.

Autobahn, é o tema-título com o qual os Kraftwerk apresentam o seu quarto álbum, em novembro de 1974. Não é ainda um álbum integralmente electrónico, uma vez que acolhe ainda a participação de outros instrumentos (nomeadamente a flauta e guitarra), mas ao longo do alinhamento o protagonismo das novas ferramentas é já bem visível.

O disco é o primeiro que vê o grupo a abraçar uma lógica conceptual que, daí em diante, caracterizaria a sua criação em álbuns futuros. Composição de 22 minutos ocupando todo o lado A do disco e revelando-se afinal uma longa canção, o tema-título Autobahn sugere um percurso numa autoestrada, integrando inclusivamente elementos de sonoplastia pensados para caracterizar o cenário. Reduzida a uma versão de três minutos, o tema seria pouco depois (já em 1975) o primeiro êxito global do grupo. O lado B apresenta quatro temas adicionais, do ensaio de piscadela de olho ao melodismo pop em Kommetenmelodie 2 ao não metronómico Morgenspaziergang, que fecha o alinhamento com uma proposta que se afasta consideravelmente dos trilhos seguidos no resto do alinhamento.

Convém contudo lembrar que, a anteceder a edição de Autobahn, os primeiros sinais de uma nova abordagem à composição na obra dos Kraftwerk tinha chegado ainda em finais de 1973 com um single que dividia uma ideia entre ambas as faces do disco. Com o título original Kohoutek-Kometenmelodie, numa alusão ao cometa identificado em março de 1973 pelo astrónomo Lubos Khoutek, os Kraftwerk propunham um tema instrumental com uma carga melódica até então nunca vista na sua obra, numa das duas partes do tema chegando mesmo a definir um padrão rítmico insistente.

Os dois temas que apresentaram neste single seriam regravados de novo para pouco depois integrar o alinhamento de Autobahn, residindo a maior diferença no facto de terem trocado a ordem da parte mais rápida e mais lenta da composição. Ou seja, enquanto em Autobahn é a parte 2 que revela a luminosidade pop e o suporte rítmico mais insistente, no single essa mesma composição é apresentada como sendo a parte 1, ocupando assim o lado A. Era um single visionário para o seu tempo, mas passou ao lado das atenções. Kommenenmelodie 2 foi mais tarde reeditado como segundo single extraído de Autobahn, não conseguindo contudo repetir os feitos do tema-título do álbum. É, contudo, um interessante pedaço de electrónica visionária, ainda ingénua na melodia, mas firme num desejo de levar a pop a um terreno nunca antes visitado pelo homem. O tempo deu-lhes razão.

Autobahn foi um dos álbuns mais influentes dos anos 70 e teve em David Bowie um dos seus primeiros grandes admiradores.

1975. Radio-Activity

1977. Trans Europe Express

1978. The Man Machine

1981. Computer World

1986. Electric Café

1991. The Mix

2003. Tour de France – Soundtracks

2005. Minimum Maximum

2014. 3D (1 2 3 4 5 6 7 8)

COMPILAÇÕES

Estas não são todas as compilações lançadas com gravações dos Kraftwerk mas correspondem às que surgiram nos mercados centrais da discografia do grupo, nomeadamente Alemanha (D) e Reino Unido (UK), algumas tendo depois conhecido lançamentos em outros territórios.

1972. Kraftwerk (UK)

1974. Doppelalbum (D)

1975. Exceller 8 (UK)

1979. Highrail (D)

1981. Elektro Kinetik (UK)

2004. Der Katalog

SINGLES

No departamento a 45 rotações segue-se aqui um retrato do panorama de lançamentos no formato de sete polegadas. As discografias alemã e britânica são apresentadas nas respetivas integrais, já que entre ambas estão os cânones das edições em língua alemã e inglesa. As edições posteriores a 2003 que são linguisticamente iguais em todos os mercados ficam apenas registadas na discografia alemã. As referências a edições nos EUA, Japão, França, Brasil e Argentina devem-se a lançamentos com versões em línguas diferentes ou com alinhamentos consideravelmente distintos.

ALEMANHA:

1974. Kouhoutek – Kommetenmelodie

1974. Mitternacht / Morgenspaziergang / Kommetenmelodie 1

1974. Autobahn / Morgenspaziergang

1975. Komettenmelodie 2 / Mitternacht

1975. Radioaktivität / Antenne

1977. Trans Europa Express / Franz Schubert

1978. Die Roboter / Spacelab

1978. Das Model / Neonlicht

1981. Taschenrechner / Dentaku

1981. Das Model / The Model

1983. Tour de France (German Version) / Tour de France (French Version)

1986. Musique Non Stop / Musique Non Stop (version)

1986. Der Telefon Anruf (remix) / The Telephone Call (remix)

1991. Die Roboter (single edit) / Robotronik (single edit)

1991. Radioaktivität (François Kevorkian Remix) / Radioaktivität (William Orbit Remix)

2000. Expo 2000

2003. Tour de France 2003

2004. Aerodynamik

2007. Aerodynamik + La Forme Remixes

2017. Die Roboter 3D

REINO UNIDO:

1975. Autobahn / Kommetenmelodie 1

1975. Comet Melody 2 / Kristallo

1975. Radioactivity /Antenna

1977. Trans Europe Express / Europe Endless

1977. Showroom Dummies / Europe Endless

1978. The Robots / Spacelab

1978. Neon Lights / Trans Europe Express / The Model

1981. Pocket Calculator / Dentaku

1981. Computer Love / The Model

1981. The Model / Computer Love

1981. Kommetenmelodie 2 / Von Himmel Hoch

1982. Showroom Dummies / Numbers (remix)

1983. Tour de France / Tour de France (instrumental)

1983. Tour de France (remix) / Tour de France

1986. Musique Non Stop / Musique Non Stop (version)

1986. The Telephone Call / Der Telefon Anruf

1991. The Robots (remix) / Robotronik

1991. Radioactivity (François Kevorkian Remix) / Radioactivity (William Orbit Remix)

2000. Expo 2000

EUA:

1977. Showroom Dummies / Les Manequins

1978. The Robots (edit) / Neon Lights (edit)

1981. Computer Love (edit) / Numbers (edit)

JAPÃO:

1981. Dentaku (edit) / Pocket Calculator

FRANÇA:

1977. Les Manequins (edit) / The Hall of Mirrors

ARGENTINA:
1978. Metropolis (edit) / The Model

1981. Mundo de Computadores (Computer World) / Amor Computado (Computer Love)

BRASIL:
1978: Spacelab / The Model

Este texto é um “work in progress” que, aos poucos, irá acolher informação sobre os diversos títulos da obra em disco dos Kraftwerk.

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