Dez discos que definiram o meu gosto – Jorge Janela

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é o Jorge Janela.

“10 discos que definiram o meu gosto musical” é a coisa mais difícil que se pode pedir a um melómano de gostos ecléticos. Sendo certo também que escolher entre discos que achamos que mudaram a nossa perspectiva e discos preferidos também não se afigura tarefa fácil, se é que possível. O mais natural é que a escolha reflicta ambos. Vou ainda tentar fugir a alguns lugares comuns destas listas, aqueles discos que parece terem influenciado toda a geração da ‘imensa minoria’. Na minha bolha das redes sociais os que apareceram mais foram o Remain in Light dos Talking Heads e o My Life In the Bush Of Ghosts do Brian Eno e David Byrne. Vou também deixar de fora quase toda a música urbano-depressiva/independente/alternativa dos anos 80 e post-punk de uma forma geral que influenciou a minha geração (por coincidência estou a escrever ao mesmo tempo que oiço o concerto da obra integral dos Joy Division em 2015, por Peter Hook & The Light, no aniversário da morte de Ian Curtis, que puseram hoje na internet). Até um dos discos que mais venerei, O Music For A New Society do John Cale vai ficar de fora! Na verdade os discos que definiram, definem e definirão o meu gosto musical, são do passado, do presente e hão-de ser do futuro, espero. Como poderão comprovar nesta lista com capas e respectiva música – que começou por uma corrente do género da que agora por aí anda que na verdade já aí anda há uns anos –  que ganhou vida própria e através da qual descobri e/ou relembrei muita música antiga, alguma nova para mim e outra nova mesmo (ver link).

The Clash “London Calling” 

(1979)

Na maior parte dos casos, antes de sermos influenciados por discos, somos influenciados pelas pessoas que nos levaram a ouvi-los. E a minha irmã, sendo um pouco mais velha do que eu, foi quem trouxe lá para casa os primeiros discos emprestados: colectâneas dos Rolling Stones, Beatles, Doors e Leonard Cohen, mas também os primeiros singles comprados, Message in A Bottle dos Police e o Silly Thing dos Sex Pistols, com aquela capa da edição portuguesa que não passaria com certeza o crivo dos nossos dias. O punk passou a ser a minha música aos 13/14 anos. Não ouvi tudo, não gostei de tudo, mas o espírito ficou cá para sempre. Deve ser por isso que adoro os recentes Fontaines D.C. ou que me entusiasmei quando redescobri o Richard Hell & The Voivoids. Os The Clash também começaram por ser uma banda punk, mas foram muito mais do que isso. Curiosamente, o primeiro disco que tive deles foi o triplo álbum  SandinistaLondon Calling – com uma das mais icónicas capas da música popular, inspirada na do álbum homónimo de Elvis Presley  de 1956 – é o disco deles que mais ouvi e o que mais definiu o meu gosto. Comprei-o em 81 na antiga discoteca Melodia na Rua Do Carmo, que hoje é uma sapataria indiferenciada das muitas que pululam por Lisboa. O álbum é de 79 e foi uma sorte tê-lo encontrado naquele fim de tarde, pois há muito estava esgotado. Custou-me uns benditos 740 escudos e nunca mais me esqueci da excitação que foi vir com ele no comboio de regresso a casa.  19 temas de puro deleite em que aprofundaram estilos musicais que já vinham dos discos anteriores, Reggae, Two-Tone e Ska, e outros  como o Rockabilly, Pop, New Orleans R&B,  Lounge Jazz, Soul, Pop e Hard Rock de maneira contagiante como só eles conseguiam. Haveria algo mais Punk Rock do que fugir ao cânone Punk e alargar horizontes?  As letras de algumas canções são explicitamente políticas (London Calling, Spanish Bombs, Guns Of Brixton),  quase todas de crítica social nas histórias que contam (Jimmy Jazz, Clampdown, Rudie Can’t Fail ou Lost In The Supermarket, só para citar algumas). Política não era exactamente o que me interessava aos 16 anos, mas como não amar aquela raiva, rebelião, energia e sagacidade? Obra-prima intemporal. 

Gun Club “Fire Of Love”

(1981)

Fire Of Love > The Velvet Underground & Nico

A primeira vez que ouvi ‘For The Love Of Ivy’ – canção com uma espécie de pulsão primitiva, primordial, que lhe é dada pela síncope do canto e pela gestão dos silêncios – foi no programa nocturno Rolls Rock do António Sérgio. Já não tenho a certeza se era da meia noite à 1h ou da 1h às 2h, mas lembro-me de aguardar o momento religiosamente, de dedo em riste, prestes a carregar no botão REC do gravador de cassetes aos primeiros acordes de uma música que tinha ouvido em sessões anteriores e da qual tinha gostado. Sempre com o máximo cuidado para não apanhar a voz do locutor. Foi uma das nossas melhores vozes de rádio de sempre, mas o que queríamos mesmo era gravar a música pretendida o mais completa possível. Deste álbum também passava o Sex Beat e, durante algum tempo, a cassete era a única maneira que tinha de as ouvir quando me apetecesse. No verão de 82, fui passar 2 semanas a casa de uns primos nos arredores de Paris e das quase seis dezenas de discos que trouxe, o Fire Of Love foi um deles!

Nessa altura, em Portugal, estávamos limitados às edições locais, que não incluíam a maior parte dos discos em que estávamos interessados. Por isso, ir ao ‘estrangeiro’ era uma oportunidade única de os arranjar a preços decentes. “Nunca houve outro disco como este antes nem veio a haver depois”, escreve o Thom Jurek na AllMusic.  Voodoo Blues , Punk Rock vs Delta Blues, é música de um “Elvis from hell” como  canta em Sex Beat Jeffrey Lee Pierce, o carismático líder da banda, que começou por se interessar por Glam Rock, tendo ficado aficionado do Reggae após um concerto de Bob Marley. Chegou mesmo a viajar para a Jamaica. Mas voltou-se para a American Roots Music, sentindo que era mais autêntica, não importada,  fixando-se nos Delta Blues e tornando-se um exímio conhecedor do género. Por outro lado foi Presidente do clube de fãs dos Blondie!

“You look just like an Elvis from HELL
My heart is broken, so I’m gong to HELL
Bury me way down deep in HELL
I’m a steel drivin’ man, I want to go to HELL!”

Como disse alguém num ‘user reviews’ de um site:

“An extremely dangerous mission: guide punk’s ferocity into the swamp of the Delta blues and then, return alive. And, in case you haven’t noticed it yet, The Gun Club did bring the fire of love.”

Amén!

Os anos 70 tiveram o Fun House dos Stooges, os 80 o Fire of Love dos Gun Club.

Nick Drake “Fruit Tree”

(1986, Comp.)

Numa rubrica com capas esta caixa tinha de constar, pois foi pelas capas que a comprei, numa loja na cave do C.C. Arco-Íris nos anos 80. Curiosamente, também lá comprei o Born Sandy Devotional dos The Triffids pelo mesmo motivo, pela capa. Nunca tinha ouvido falar nem de um nem dos outros antes disso. Obviamente que devo ter ‘picado’ os discos na loja. Naquele ritual que era pedir para ouvir, deixar tocar um bocado de uma faixa, pedir para mudar para a seguinte e assim sucessivamente até ao ponto –  umas vezes mais rápido, outras mais demorado – de dizer “pode tirar, vou levar”, ou não.

Do Nick Drake não sabia absolutamente nada, nunca tinha lido nada sobre ele, nunca tinha ouvido na rádio ou em casa de amigos. Ninguém o conhecia. A caixa tinha os 3 LP originais + uma colectânea e uma brochura com imensas fotografias e uma biografia. Em ambas retratado como solitário, introvertido, melancólico, sem relações amorosas que se tenham conhecido. Postos a tocar, a música bela e intimista, límpida, as letras puras como a sua alma. 

“Time has told me
You’re a rare, rare find
A troubled cure
For a troubled mind

And time has told me
Not to ask for more
Someday our ocean
Will find its shore”

Robert Smith diz que foi neste verso que os The Cure encontraram o nome  para a banda.

O Nick cantava “I was made to love magic”

Não conheceu a fama e o reconhecimento devido em vida. Morreu novo, por excesso de antidepressivos, eventualmente acidental. Creio que podemos todos agradecer não ter acontecido o mesmo ao Bill Fay.

“Tell me, tell me
What have I done wrong?
Ain’t nothing go right with me
Must be I’ve been smoking too long.”

Nunca saberemos se alguma  vez terá encontrado as respostas às perguntas que fazia

“Can you now recall all that you have known?
Will you never fall
When the light has flown?
Tell me all that you may know
Show me what you have to show
Won’t you come and say
If you know the way to blue?”

Underworld “Dubnobasswithmyheadman”

(1994)

Este disco escancarou as portas da música de dança a muita gente, onde eu também me incluo. Não que não tivesse desde há muito tempo discos de música electrónica dançável, a começar pelos New Order (todos os discos, máxis incluídos, obviamente), Paul Haig, Cabaret Voltaire (sim, quem nunca dançou o Just Fascination numa festa de garagem?), Kraftwerk, Heaven 17, Momus (Hairstyle of The Devil tem samples do Kevin Saunderson, pioneiro do techno de Detroit juntamente com Juan Atkins e Derrick May, conhecidos por “The Belleville Three”) etc. O Acid Jazz também já tinha despertado muitas mentes, Us3 e a sua versão de Cantaloop de Herbie Hancock  à cabeça (lembro-me perfeitamente de saltar para a pista do Frágil aos primeiros acordes), as colectâneas Rebirth Of Cool, Galliano, o Screamadelica dos Primal Scream. Mas até aí grande parte da música com batida 4×4 era considerada pela geração da música alternativa dos 80, foleira, chamavam-lhe ‘música dos martelinhos’. O Dubnobasswithmyheadman libertou-nos do ‘dogma’. Não foi o único. Houve mais ajudas para essa libertação do espírito, os DJs que começaram a despontar, as raves, a metilenodioximetanfetamina, a pista de dança como espaço de libertação e comunhão. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. E como se entranha!

Importante voltar a frisar a importância da influência do outro na definição do nosso gosto. Não me recordo do ano em que apareceu a XFM [foi em 1993, acrescenta o GiRA DiSCOS], mas este disco conheci-o a ouvi-la. Que foi muito provavelmente a melhor estação de rádio que tivemos ou teremos e que nos influenciou o gosto com tanta pertinência. Essa rádio foi sem dúvida o principal influenciador do meu gosto musical no que à música de dança diz respeito. A equipa era Ouro Maciço,estavam lá os melhores e tinha programas incríveis. Lembro-me perfeitamente de estar uma tarde em casa e ouvir aquela voz do António Sérgio, aquando do lançamento do segundo disco dos Underworld, “Listen Carefully” e entrar a Confusion The Waitress “ She said…”

The Kinks “The Anthology 1964-1971”

(2014, Comp.)

Durante muito tempo não dei muita importância aos The Kinks. O único disco que tinha deles era um duplo ao vivo de 1980 que nem sei como é que o arranjei. Não me lembro de o ter comprado. E o facto de não estar em grandes condições corrobora-o. Passei com certeza o You Really Got Me e talvez o Lola em festas. Talvez não tenha sido o melhor cartão de visita. Só comecei a conhecer verdadeiramente os The Kinks no início desta década. Canções como Sunny Afternoon, Death Of A Clown, Death End Street, Tell Me Now So I Know, I Go To Sleep (e eu que pensava que esta era dos Pretenders!), I’m Not Like Everybody Else e a definição de canção pop perfeita que é Village Green, deixaram-me literalmente maravilhado. Como foi possível ter passado tanto tempo sem conhecer a fundo esta banda genial? Talvez os mesmos motivos que me levaram também a não conhecer muito bem os Love (tenho o Da Capo há muito tempo, mas só lhe dei o devido valor depois de ter conhecido o incrível Forever Changes), os Big Star (mal eu sabia que Kangaroo e Holocaust não eram originais dos This Mortal Coil, e tinha o Like Flies On Sherbert do Alex Chilton, vá), os Modern Lovers (tinha um máxi do Jonathan Ritchman, That Summer Feeling de que gostava mas que só com o tempo fui percebendo o quão genial é a sua obra), Os Beach Boys (tinha um duplo LP com os ‘êxitos’ que faziam furor nas festas, e nem imaginava a quantidade de álbuns fabulosos que gravaram), as Shangri-Las (adoro)  e outras bandas que não eram cá editadas e que conhecia apenas como referências nas críticas a outros discos. A internet e as redes sociais mudaram todo esse paradigma. Agora está tudo ao alcance de um clique, só falta o tempo. A propósito dos Love, tenho de referir que a primeira música que me enfeitiçou foi o Everybodys Gotta Live do Arthur Brown, que conheci através de uma publicação da Soraia Simões em 2011. E, não resisto a partilhar este texto brilhante do Pedro Cortesão Monteiro: “Quis então expor uma minha teoria — tão indemonstrável como irrefutável — de que os Love são donos dos melhores ‘yeahs’ da história da música popular. Os ‘yeahs’ são quase invariavelmente afirmativos, celebratórios, convictos — o que, convenhamos, faz um certo sentido. Os dos Love, pelo contrário, são tristes, resignados, desesperados. A maravilhosa Alone Again Or (uma canção que parece que começa a meio — como se estivéssemos a entrar numa sala de cinema já depois do filme ter começado), arranca (e continua) com um ‘yeah’ derrotado (quem é que se lembra de começar uma canção — um disco — assim?):

Yeah
Said it’s all right
I won’t forget
All the times I’ve waited patiently for you
And you’ll do just what you choose to do
And I will be alone again tonight my dear

Já esta, a Always See Your Face (eu já vos falei disto, não já?), é uma das minhas canções preferidas de todo o sempre: a distorção da bateria (e de tudo o resto de uma forma geral), o som da guitarra, o t-t-tchhhh que começa antes do solo, o Arthur Lee… Caramba. Mas e os ‘yeahs’?… São todos arrasadores, mas aquele ao minuto 1:11 despedaça definitivamente qualquer coração que já esteja a precisar de ser resgatado das suas misérias.

won’t somebody please?
(yeah)”

Acho que foi o David Bowie que disse nunca ter ouvido uma canção dos Kinks que não fosse boa! 

Citando Ricardo Saló, mais um dos influenciadores do meu gosto musical e de tantos outros: “Os singles daquele período (64/71) são 5 estrelas: penso, mesmo, que foi o grupo que levou mais longe a simbiose engenho estético-empenho político/social. Depois, ainda há outra coisa: quando toda a gente aproveitou a vaga de Sgt. Peppers para fazer óperas rock e discos de cada vez maior pretensiosismo formal, Ray & Dave Davies retiveram a ideia do conceptualismo para erguer dois fabulosos álbuns sobre a Inglaterra da pesada herança vitoriana (Arthur e Village Green Preservation Society) e um disco duro sobre o lado menos visível do mundo de então – Lola Versus Powerman And The Moneygoround, Part One.” 

The Beatles or The Rolling Stones? The Kinks!

Cartola “Cartola II”

(1976)

A primeira vez que ouvi Cartola foi no ano 2000, quando fui trabalhar para o Porto 2001, Capital Europeia da Cultura. Um dos meus companheiros na produção, o grande Alexandre Camões, era fanático por Samba, pela Escola da Mangueira e por Música Popular Brasileira de uma forma geral. Mas não era só fanático, era e é um profundo conhecedor e ele próprio também músico e sambista do G.R.E.S. Trepa Coqueiro de Estarreja. E foi ele que me apresentou este disco. Viu-me tão impressionado com esta música até aí desconhecida, que me ofereceu logo um CDr, com capa impressa a cores e tudo. Também me apresentou o Napster, mas essa já é outra conversa.

Cartola só gravou o primeiro disco em nome próprio aos 66 anos. Este é o segundo, 2 anos após aquele, e é o meu preferido, talvez por ter sido o meu primeiro. De certa forma, foi a minha porta de entrada também na  Música Popular Brasileira. Já conhecia  há muito Chico Buarque, João Gilberto e mais uns quantos, mas tinha muitos anti-corpos em relação à maior parte, que entretanto passei a gostar muito de, pelo menos, parte da obra. Caetano Veloso, Gal Costa, João Donato, Quarteto em Cy, Milton Nascimento, Jorge Ben, Tim Maia, Dorival Caymmi, Tom Zé (quanto mais oiço mais gosto), Tom Jobim, Elza Soares e tantos outros que a lista é infindável. 

Angenor de Oliveira, conhecido como Cartola por usar um chapéu para se proteger do cimento nos seus tempos de pedreiro, esteve na génese da formação da Escola de Samba da Mangueira, sendo desta um dos compositores e director de harmonia até ao final dos anos 30. Durante a década seguinte compôs muitos sambas, tendo chegado a vender alguns, prescindindo dos direitos de venda dos discos, mas mantendo sempre a autoria. O primeiro sucesso comercial que escreveu aconteceu em 1933, com Divina Dama. “A partir dali, o sambista passou a compor exclusivamente para a sua escola no morro, marginalizando-se do círculo artístico e de produção discográfica da cidade”.  Depois de 1942, a carreira artística esmoreceu. Saiu da Mangueira, teve meningite, a sua mulher Deolinda morreu de ataque cardíaco, Andou desaparecido sete anos, havendo até quem pensasse que teria morrido e tenha composto sambas em sua homenagem. Uma terceira mulher, Zica, resgatou-o a uma vida boémia e miserável, trazendo-o de novo para o Morro da Mangueira. Só em 1957 haveria de regressar à ribalta artística, pela mão do jornalista Sérgio Porto que o reconheceu enquanto trabalhava como vigia e lavador de carros num prédio em Ipanema. 

O disco começa com um samba-canção inédito de 1975, O Mundo É Um Moínho e o coração cai logo aos nossos pés.

“Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar”

O terceiro tema é uma pungente homenagem à sua Mangueira.

“Habitada por gente simples e tão pobre
Que só tem o sol que a todos cobre
Como podes, mangueira, cantar?”

Ao quinto canta o poema escrito por Candeia de propósito para o disco, é a letra mais simples e mais pura que já existiu. Começa com acordes de viola e entra um fagote que nos transporta por um labirinto. Quando entra o pandeiro já estamos no meio do samba e da natureza.

(Ao rever o texto, encontrei na página fb de Cartola a “verdadeira história desta música”) 

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver”

A simplicidade que transpira em todos os temas, aquela rara qualidade de escrever música e letras que se enraízam e ecoam em nós de uma forma tão natural, que parece que sempre as conhecemos. Parece fácil. E, para ele, provavelmente, era. Poucos conseguiram traduzir o quotidiano em canções de tão simples entendimento. O  rei da ‘inteligência emocional’, antes de se falar tanto nisso.

Arthur Russell “The World Of Arthur Russell”

(2004, Comp.)

Tal como tantos outros, cheguei ao Arthur Russell através desta óptima compilação da Soul Jazz Records (não são todas?). Mas não foi amor à primeira audição. Comprei-o entusiasmado, tais eram as loas tecidas pelas pessoas e críticos musicais que considero. Reconheci-lhe valor mas andou algum tempo esquecido na prateleira. É provável que tenha comprado mais CDs junto com este e que me tenha apetecido ouvir mais esses. Demorei a reconhecer-lhe e a abraçar-lhe o génio. Aconteceu-me algo semelhante com o Scott Walker, ou com os seus Walker Brothers que conhecia menos bem. Mas quando lhes comprei os discos já gostava muito. 

Com o Arthur Russell foi uma relação progressiva, lenta, mas ascendente. Quanto mais ouvia mais gostava. E este até é o disco dele mais ‘fácil’, que aglomerou versões das suas canções com batida disco, algumas  interpretações de Dinosaur L, Lola, Loose Joints e misturas de Larry Levan e Francois Kevorkian. 

Foi um dos álbuns que me abriu o espírito para a música Disco. A minha adolescência tinha acontecido ao ritmo do Punk, New Wave, Post-Punk e seus derivados e precursores, lembram-se? Esse facto gerou muitos anticorpos, ouvir as mesmas músicas de sempre em festas de aniversário e de casamento também ajudou a contribuir para esse ‘pé atrás’. Hoje é um dos meus géneros de eleição. Sylvester, Donna Summer, Betty Wright, Giorgio Moroder, Chic, The Trampps, Cerrone, Indeep, Black Devil e tantos outros fazem parte da música que ouço regularmente. 

Também foi por causa do Arthur Russell que conheci o Patrick Cowley que teve um percurso parecido na costa Oeste. Talvez a loja de discos Flur também tenha contribuído para isso. As influências!

Deste disco parti para a também excelente compilação Another Thouhgt, que na verdade, de tão bem feita, até parece um disco de originais. Estava então preparado para a obra-prima World of Echo.

Escreveu Philip Glass, “this was a guy who could sit down with a cello and sing with it in a way that no one on earth has ever done before or will do again.

Pedrinho “Aleluia”

(2018, Re.)

Da música de Cabo Verde conhecia os Tubarões, a Cesária Évora e pouco mais. O disco que me abriu mais os horizontes nem foi este, mas antes as duas excelentes compilações Space Echo – The Mystery Behind The Cosmic Sound Of Cabo Verde Finally Revealed! e Synthesize The Soul: Astro-Atlantic Hypnotica From The Cape Verde Islands 1973-1988. A canção que mais me chamou a atenção nessas compilações foi a Djal Bai Si Camin do António Dos Santos, que é talvez a música mais dançável do mundo, sem exagero. 

O Pedrinho aparece nas duas compilações e este disco Aleluia é muito consistente e coeso. Só há edição em vinil, que hoje em dia já não compro tanto, por causa do preço e do espaço. Comprei na Flur discos, que escreveu sobre ele este texto:

“A música de Pedrinho está listada nas duas compilações que, recentemente, mostraram Cabo Verde ao Mundo: “Space Echo” e “Synthesize The Soul”. desde logo, o seu nome fica fundamental. A espécie de funaná psicadélico em “Ei Se Vous Dancé”, com o wah-wah da guitarra a tornar o groove ainda mais matador, abre este álbum de forma exuberante e celebratória, mas reparem como os sopros instalam uma certa melancolia por cima da festa. Gravado em Lisboa, como acontecia com muitos músicos africanos que vinham para Portugal procurar vida melhor, “Aleluia” afina a tradição das ilhas para uma certa modernidade sem que isso corrompa de forma alguma o coração puro da música. Vida de trabalho, vontade de romance, palavras saídas da experiência e um álbum que termina com a própria faixa “Aleluia” num êxtase invulgar de guitarra que abre para o cântico “Aleluia! Viva África independente. Aleluia!” E a óbvia correspondência entre as palavras Aleluia e Alegria vai encerrando este disco com um sorriso universal. Bonito, este primeiro da Mar & Sol, o pessoal que, a partir de Lisboa, faz também a Ostra Discos” 

Alice Coltrane “Turiya Sings”

(1982)

Indescritível a primeira vez que ouvi esta música, cuja edição original foi em cassete. A viúva de John Coltrane há anos que se vinha dedicando à espiritualidade, esse despertar começou ainda durante os anos de casamento com o carismático músico, e ícone do Jazz, e depois da sua morte em 1967. Estudou os textos védicos, precursores do hinduísmo moderno. Em 1969  estudou com um famoso guru Indiano, aprendeu cânticos de devoção e viajou para a Índia. Mais tarde formou o Sai Anantam Ashram nos arredores de Los Angeles e começou a gravar cantos religiosos em cassetes que dava a ouvir à sua comunidade espiritual. Esta é a primeira dessas cassetes. Conhecia-a através de uma publicação no facebook de Sérgio Hydalgo, programador musical da galeria Zé dos Bois no Bairro Alto, que rezava assim: “São 11:11 e a melhor música do mundo é esta:”. E era. A melhor música que ides ouvir hoje, republiquei eu.

Também segui esta dica dele “2019 e música mais linda do universo” Sosena Gebre Eyesus. Também é.

Outra descoberta improvável foi o disco dos The Golden Gate Quartet – Negro Spirituals (1961). A dica para este li numa rubrica da The Quietus, em que pedem a músicos conhecidos para escolherem discos. Uma das muitas pérolas escolhidas por Brian Eno: The Golden Gate Quartet – Go Where I Send Thee.

“This song that I’m going to play you is really interesting. To me it’s the birth of funk guitar. This is a song called ‘Go Where I Send Thee’ and was recorded in 1937. The Golden Gate Quartet are an a capella group, so this is a capella, but listen to what happens with the rhythm. It’s an amazing thing that four guys, no overdubs or anything like that, could make this amount of rhythm. For me they were one of the most important musical forces of the 20th century. The style of singing, which is called jubilee singing, was all originated in this one town in Virginia and there were lots and lots of groups in that town that could do this way of singing. Partly a way of harmonising but it’s also a way of creating rhythm by making voices slightly hit off each other so they don’t all land together. It’s incredibly hard to do. You’re pushing the beat by a 16th or 32nd to get that flam.”

A editora de David Byrne, Luaka Bop, pegou em parte destas cassetes gravadas de Alice Coltrane, remasterizou-as e editou-as em 2017  sob o título ‘WORLD SPIRITUALITY CLASSICS 1: THE ECSTATIC MUSIC OF ALICE COLTRANE TURIYASANGITANANDA’. Aleluia!

Danny Brown “Atrocity Exhibition”

(2016)

O Hip-Hop está presente nos meus gostos desde os anos 80: Grandmaster Flash & The Furious Five ( o The Message também veio no lote dos discos trazidos de França aos 16 anos), Beastie Boys, Public Enemy, LL Cool J, De La Soul (o 3 Feet High And Rising podia e devia estar nesta lista), Snoop Dogg, Afrika Bambaataa, Ice T, Gang Starr; Cypress Hill e inúmeros outros. 

Confesso que não conhecia muito bem o Danny Brown antes deste disco, talvez o Grow Up, o remix do ‘Step’ dos Vampire Weekend e a boca desdentada! Mas este foi seguramente um dos meus discos preferidos de 2016. A produção é de Paul White e consta que ouviram muito Talking Heads e Joy Division durante a feitura do álbum. Com participações de Kendrick Lamar (também podia ter sido escolhido para esta lista), Ab-Soul, Earl Sweatshirt, Petite Noir,  Kelela e B- Real. Tem uma visceralidade fascinante. E referências por todos os poros. O título do álbum é simultaneamente o nome da música dos Joy Division e do livro de J.G. Ballard. A música do disco é uma espécie de catarse constante, para ele e para nós. Começa logo com Downward Spiral (mais uma referência, desta vez ao álbum dos Nine Inch Nails) e somos imediatamente transportados numa espiral descendente, quase demoníaca, lá mesmo para o fundo. Ao longo do disco há uma mistura de ansiedade post-punk, elementos techno fragmentados e amostras de Soul assombrosas, mas é a destreza das rimas que faz com que o álbum floresça. O ambiente para onde este disco me transporta encontra paralelismo no Untrue de Burial. Sim, eu sei, a mente prega-nos – por vezes –  partidas e leva-nos para caminhos imaginários só nossos. 

Depois há os samples. Na era em que quase toda a música – a nova e a antiga – está à distância de uns cliques, em que há óptimas editoras a resgatar os tesouros desconhecidos do passado, o Hip-Hop continua, como desde o início, a apontar-nos esse passado às vezes obscuro ou esquecido. Muita Soul veio assim à tona. Ficaram alguns géneros musicais de fora desta lista de 10 capas, o Jazz que mereceria bem mais do que 10  é certamente um deles. Mas a Soul e o Funk, até pela proximidade e/ou complementaridade das escolhas acima serão talvez os mais injustiçados, ainda por cima é a música que mais tenho ouvido ultimamente. Marvin Gaye (a minha entrada no género), Curtis Mayfield, Lee Moses (só gravou um álbum, Time And Place que só tem três músicas originais, no entanto, que disco! E uns singles também. Só p’lo Bad Girl (part I e II) já teria feito a diferença.), George Jackson (sem o Come Back Baby do último disco do Pusha T Daytona, nunca o teria conhecido), Darondo,  Al Green, The Temptations, Smokey Robinson, The Marvelettes, Mary Well, Diana Ross, The Supremes, James Brown, Bobby Womack, Otis Reading, Aretha Franklin, Stevie Wonder, Sly & The Family Stone, Staple Singers, Parliament, Funkadelic, The Meters, The Bar-Kays, Allen Toussaint, Isaac Hayes, Prince, Donny Hathaway, Terry Callier, James Mason, Gil Scott-Heron, Bettye Swann, Percy Sledge, Helene Smith. Vamos lá aos samples então. Really Doe sampla Fragments of Crystal de Giovanni Cristiani (1985), Get Down de The Montereys (1971) e Wish a Mutha Would de Frayser Boy (2003); Ain’t It Funny sampla Wervin’ de Nick Mason (1981); When It Rain sampla Pot Au Feu de Delia Derbyshire (1968) e Percolator de Cajmere (1992); Lost sampla Flame of Love (戀之火) de Lena Lim (1969); Dance in the Water sampla Ungawa Pt. 2 (Way Out Guyana) Remix by Pulsallama (1982); White Lines sampla Dry Land de Dave Greenslade (1979) e It’s Your Thing de Cold Grits (1969); Golddust sampla People From Out the Space de Embryo (1970) e Atrocity Exhibition dos Joy Division (1980); Pneumonia sampla White Room de Raz Mesinai (2001), Black Mamba de Cut Hands (2012) e HBA War de Dutch E Germ (2013); Downward Spiral sampla Oxymoron de Guru Guru (1972); Today sampla B.O.B. dos OutKast (2000); Tell Me What I Don’t Know sampla A Dali-Esque Sleep Fuse de Edgar Froese (1979) e From the Ground sampla Sleeping Earth de Godley & Creme (1977). Quite a list, ain’t it?

Atrocity Exhibition teve imensas críticas positivas, mas é o próprio Danny Brown a partilhar ‘aquela’ – de um canal youtube cuja foto de capa reza assim: The musician no one wants to hear with the opinion no one asked for – na sua página de facebook. “Finally someone gets it!!!!!!!!” Danny Brown: Person v. Persona RETROACTIVE REVIEW   

Não falei do Allen Halloween? Agora já!

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