Uma nova e recomendável leitura sobre o sentido cultural da obra dos Kraftwerk

Lançado já em 2020, “Kraftwerk: Future Music From Germany” não repete o que várias biografias já lançadas nos deram a ler e aposta antes em contextualizar e refletir sobre as referências e legado que podemos encontrar em volta da obra do grupo. Texto: Nuno Galopim

Não faltam por aí livros sobre a história dos Kraftwerk, da cidade de Dusseldorf como polo inspirador para uma visão que ganhou forma na música que ali nasceu ou até sobre o próprio krautrock… Isto para nem falar em livros sobre a história da música eletrónica que, inevitavelmente, passam por estes mesmos nomes e coordenadas. Porque resolvi então comprar mais um livro sobre os Kraftwerk? E, no final, porque dei por bem gasto o tempo de leitura que me deu?

         Em primeiro lugar comecemos pelo autor. Uwe Schütte é um académico alemão, mas trabalha há já vários anos numa universidade britânica. Tem já uma considerável obra publicada, que tanto envolve figuras como W.G. Sebald, Heiner Muller ou Thomas Bernhard (mais próximos do seu day job), abrindo igualmente frentes de atenção pela música em livros sobre a pop alemã ou os Laibach. Mais do que as credenciais académicas, era a possibilidade de ter um ponto de vista sobre os Kraftwerk que é de um alemão que sabe ao mesmo tempo ter uma perspetiva externa, que mais me cativava antes de iniciar a leitura. Isso e, confesso, a capa (magnífica) e o facto de ser uma edição de bolso da Penguin.

         Ao contrário de outros livros sobre os Kraftwerk, Uwe Schütte não faz aqui um percurso biográfico da banda. Não perde tempo a explicar como os Organization se transformaram em Kraftwerk ou como foram as vidas pessoais dos seus elementos. De resto, quando há factos exteriores à música, é porque terão depois expressão musical ou definem uma ideia de “obra total” que por vezes confunde a expressão pública das vidas dos músicos com a sua obra, um pouco como o fazem a dupla britânica Gilber & George. Da vida pessoal praticamente nada se fala. E, convenhamos, não temos nada a ver com isso.

         O título diz muito sobre o texto: Kraftwerk: Future Music From Germany. E o que o livro propõe é, sobretudo, um acompanhar da evolução musical da obra dos Kraftwerk em função do contexto que a vê nascer e crescer, notando como uma visão de futuro era desde cedo bem natural junto de quem vinha de um passado (político e social) a evitar e um presente confinado a uma ocupação (física e cultural). A história social e política da Europa do pós-guerra e todo um enquadramento da visão dos Krafwerk num modelo de pensamento alemão (dos ecos da Bauhaus a reflexões sobre a cultura industrial e o trabalho), assimilando ao mesmo tempo referências culturais “estrangeiras” (uma delas é Warhol, apesar das diferenças abissais de atitude entre os ambientes da Factory e do estúdio Kling Klang), a música dos Kraftwerk surge aqui como uma natural expressão do seu tempo, marcada claro está pelas personalidades dos principais pensadores (e fazedores) da ideia: Ralf Hutter e Florian Schneider.

         O autor nota como as visões de futuro que moldam a génese da música dos Kraftwerk são fruto de um pensamento positivo semelhante ao que os Beatles cantavam em Getting Better. Um futuro atraente, melhor… E logo o livro nos questiona o porquê de não haver hoje um discurso semelhante… “Quando pensamos sobre o amanhã, vemos mais ameaça do que oportunidade dado o clima de crise económica, a demagogia política e a erosão dos valores democráticos. Como é que podemos sequer imaginar a construção de um futuro melhor?”, questiona, com tom jocoso, o autor…

         Uwe Schütte avança cronologicamente em função da discografia e digressões dos Kraftwerk. Observa explica a etapa inicial mais exploratória, feita ainda em busca de uma ideia, um caminho. Depois aborda a criação dos discos que, entre Autobahn (1974) e Electric Café (1986) definem o núcleo principal do cânone kraftwerkiano, acrescentando que daí em diante se nota sobretudo uma presença de processos de progressiva atualização tecnológica para a recriação destas ideias que culmina com a presente digressão 3-D, que o autor compara à Never Ending Tour de Bob Dylan… Pelo caminho tanto o single Expo 2000 (na verdade uma extensão de um jingle de 4 segundos) e o álbum Tour de France (2003) são exceções numa fase tardia de uma obra que, em termos criativos, Uwe Schütte crê que esteja encerrada.  O autor interpreta ainda a recorrente negação do grupo perante a reedição ou até mesmo a apresentação ao vivo do material anterior a 1974, propondo que os Kraftwerk encarem, Autobahn como um creatio ex nihilo (que brota do nada). Em vez de mais uma biografia, Kraftwerk: Future Music From Germany propõe uma reflexão cultural sobre a obra dos Kraftwerk. E mesmo deixando de lado detalhes sobre a história do grupo (há mais livros para o fazer), apresenta-se como uma das mais recomendáveis leituras que hoje nos permitem fazer um olhar panorâmico sobre um dos nomes maiores da história da música.

“Kraftwerk: Future Music From Germany”, de Uwe Schütte, está disponível numa edição paperback, de 317 páginas, pela Penguin.

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