Rui Ferreira

Rui Ferreira foi enfermeiro entre 1991 e 2016, mas a música sempre ocupou um lugar especial na sua vida. Em 1993, entrou para a Rádio Universidade de Coimbra, foi presidente da administração durante três anos, diretor de programas e ainda hoje é o homem do leme do programa “Cover de Bruxelas”. É o nome por detrás da Lux Records/Subotnick Enterprises. Editou discos e foi manager de bandas como Belle Chase Hotel, Wraygunn, The Legendary Tiger Man, Sean Riley And The Slowriders, D3O, Tiguana Bibles, Born A Lion e X-Wife, sendo por isso, figura marcante do rock em Coimbra. Em fevereiro de 2017, fundou a loja de discos “Lucky Lux” em Coimbra. Melómano incorrigível, é um incansável coleccionador de discos.

Qual foi o primeiro disco que compraste?

Foi o “Steve McQueen” dos Prefab Sprout, de Paddy McAloon. É um álbum de canções pop a roçar a perfeição como “When Love Breaks Down”, “Appetite”, “Bonny”, “Faron Young”, “Desire As” e “Goodbye Lucille #1” (mais tarde seria lançada em single com o nome de “Johnny Johnny”). O disco tem uma produção irrepreensível de Thomas Dolby, um músico que também admiro. Comprei-o na Discoteca Almedina na Rua Ferreira Borges, em Coimbra, em 1985. Na altura ainda tinha o péssimo hábito de assinar o meu nome na contracapa. No início dos anos 90 comprei a edição americana do disco em CD, por três razões: o vinil tinha sido castigado com largas dezenas de audições, o CD americano tinha três temas-bónus, e também a curiosidade de ter outro nome – “Two Wheels Good”. No mercado americano, problemas legais com os herdeiros do actor Steve McQueen determinaram a mudança do nome para uma referência a “1984” de George Orwell. No Record Store Day de 2019 foi editado em vinil “Steve McQueen Acoustic” (gravado por Paddy McAloon em 2006), e isso levou-me a ouvir o disco novamente e serviu para confirmar que me estreei com o pé direito.

E o mais recente…

De discos recentemente editados foi o novo dos Black Lips, “In A World That’s Falling Apart”. Comprei a edição limitada em vinil vermelho e em “die-cut sleeve”. Acompanho a carreira dos Black Lips desde o início e é incrível como me continuam a surpreender. O disco foi editado em Janeiro pela Fire Records, e o título não podia ser mais oportuno.

Os últimos que comprei mesmo foram quatro discos-tributo de versões: “That’s Mighty Childish – Songs Billy Childish Taught Us”, “Chairman Of The Board – Interpretations Of Songs Made Famous By FRANK SINATRA”, “Hard To Beat (Twenty-One Stooges Killers)” e “Another Damned Seattle Compilation”. E já que tinha que pagar portes, juntei ao lote o 10” “Mini” dos Wedding Present, os máxis “I Dig You” dos Boss Hog, “Lungs” dos Big Black e “Boo! Forever” (em vinil branco) dos Boo Radleys e ainda os singles “Brucia I Cavi” dos Dirtbombs, “We’re All In Love” dos Black Rebel Motorcycle Club, “Free Again” dos Teenage Fanclub e “What About The Rings?” dos Catenary Wires. Estes últimos são um duo britânico formado por Amelia Fletcher e Rob Pursey e gravaram no período de confinamento três versões exclusivas para a “Cover de Bruxelas”, o programa que faço na Rádio Universidade de Coimbra há 24 anos.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

O que procuro mais são discos que contenham versões (cover versions) e deve ser por isso que tenho tantos singles e máxi-singles na minha colecção (é frequente os lados B trazerem versões). Sempre apreciei uma boa versão, e ao longo dos anos elas serviram para enriquecer a minha cultura musical. Foi através de “Third Uncle” na versão dos Bauhaus que conheci os primeiros discos a solo de Brian Eno, foi a cover de “Sister Ray” dos Joy Division que abriu as portas para os Velvet Underground, foi o “Lonesome Town” dos Cramps que me levou a Ricky Nelson, foram as versões de “Song To Siren” e “Holocaust”/”Kangaroo” do projecto “This Mortal Coil” que me fizeram descobrir Tim Buckley e os Big Star, foi o “Kathleen” dos Tindersticks que me conduziu a Townes Van Zandt. Ainda hoje, descubro inúmeros artistas através das versões.

Entrei na Rádio Universidade de Coimbra em 1993, tive o meu primeiro programa de autor em 1994 que se chamava “Os Últimos Dias do Vinil”. Apresentei e realizei o programa sozinho no primeiro ano, mas em 1995 já tinha a companhia do saudoso José Braga, uma verdadeira enciclopédia ambulante. Entendemo-nos às mil maravilhas, e no ano seguinte, para além de “Os Últimos Dias do Vinil”, sugerimos um novo programa – “LP(A) e a Cover de Bruxelas” que só passava cover versions. De então para cá nunca mais parei de coleccionar avidamente discos com versões.

 Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.r

São muitos, por exemplo as edições originais em vinil do “Promenade” e do “Liberation” dos Divine Comedy (vão ser finalmente reeditados em vinil e já estão encomendados). Há vários com preços inacessíveis, como o “Lovebuzz” (mais uma cover que me levou aos holandeses Shocking Blue), single de estreia dos Nirvana (tenho uma edição contrafeita), e uma edição original peelable banana do “Velvet Underground And Nico” (tenho 10 versões diferentes em vinil deste disco, mas nenhuma é das edições originais). Nunca vi uma cópia do primeiro álbum do Fausto e é mais um daqueles que gostaria de ter se o preço fosse simpático.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

A “Metal Box” dos PIL. Durante mais de 30 anos, o único exemplar que tinha visto pertencia ao José Braga. O mais curioso foi que no final de 2016, num espaço de um mês, consegui duas cópias. A minha comprei a um amigo em Coimbra, e a segunda comprei-a ao Everett True, um jornalista inglês que me habituei a ler no Melody Maker e New Musical Express e do qual tenho dois livros (Nirvana e White Stripes). Diz-se que foi o Everett True que apresentou o Kurt Cobain à Courtney Love num concerto dos Butthole Surfers. Em 2016 comprei-lhe vários discos através da discogs e lá estava a “Metal Box” no meio. Quando inaugurei a Lucky Lux em Fevereiro de 2017, a lata dos PIL estava em grande destaque e era mesmo um dos discos mais caros da loja. Vendeu-se ao fim de pouco tempo e ficou em Coimbra. Neste momento há, pelo menos, três exemplares da “Metal Box” em Coimbra.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Não costumo pagar muito só por um disco, o meu pensamento sempre foi: “com esse dinheiro compro vários que também gosto”. Nasci numa família humilde e tive sempre que poupar e fazer alguns sacrifícios para poder comprar os discos que queria. Lembro-me de no liceu abdicar da refeição a meio da manhã para guardar o dinheiro e comprar um disco no final do mês.

Raramente paguei mais de 50€ por um disco, a única loucura que me lembro foi muito recente. Em Janeiro de 2020 paguei cerca de 150€ pelo disco onde os Flaming Lips e amigos fazem versões do álbum de estreia dos Stone Roses (“The Time Has Come To Shoot You Down… What A Sound”). Em 2009 os Flaming Lips iniciaram uma série de discos de versões com “Dark Side Of The Moon” onde seguem o alinhamento do famoso álbum dos Pink Floyd. O último da série, até agora, saiu em 2014 e chama-se “With A Little Help From My Fwends” onde os Flaming Lips e amigos fazem versões das canções de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles. Estes dois tributos têm edições americanas e europeias em vinil e em CD. Pelo meio, os Flaming Lips e amigos fizeram edições exclusivas para o Record Store Day – Black Friday de mais dois discos de versões. Em 2012, “Playing Hide And Seek With The Ghosts Of Dawn”, versões do álbum de estreia dos King Crimson – “In The Court Of The Crimson King” em vinil multi-colorido limitado a 500 exemplares. Em 2013, “The Time Has Come To Shoot You Down… What A Sound”, também em vinil colorido e limitado a 500 exemplares. Ambos os discos têm capas magníficas e não tiveram mais nenhuma edição. No tributo aos King Crimson ainda não consegui por as mãos (valores proibitivos), mas o álbum dos Stone Roses é um dos meus preferidos de sempre e queria muito ter aquelas versões (e diga-se que há muito poucas versões de originais dos Stone Roses) e o valor que paguei foi cerca de metade do preço médio a que normalmente aparece o disco.

Lojas de eleição em Portugal…

A Lucky Lux, claro. O Ricardo costuma dizer que eu sou o melhor cliente da loja. Em Lisboa a minha preferida é a Discolecção, mas também me perco na Carbono, Louie Louie, Vinyl Experience e Glam-o-rama. Por incrível que pareça nunca fui à Groovie Records, espero que a estreia seja para breve. Quando vou ao Porto visito sempre a Louie Louie e a Porto Calling. Practicamente em todas as viagens que fiz a Londres passei pela Sister Ray.

Ter uma loja mudou a tua perspetiva como colecionador?

Mudou porque passei a conhecer ainda mais artistas e muitos mais discos fantásticos e outros obscuros através de dicas de clientes. Quando algum cliente me pede um disco que desconheço completamente procuro sempre ouvir e tenho feito grandes descobertas. Por exemplo, o ano passado alguém me pediu o “Pony” do Orville Peck. Apesar de ser um artista da Sub Pop eu nunca tinha ouvido falar dele e fiquei fã assim que escutei o disco. Quando fiz a encomenda veio um exemplar para mim. Outra coisa que mudou é que quando compro discos numa discoteca ou numa feira, não estou a pensar só na minha colecção mas estou também a comprar discos para a loja.

Como te manténs informado sobre discos que te possam interessar como colecionador?

Continuo a comprar religiosamente todos os meses as revistas Mojo e Uncut, de quando em vez ainda compro a Record Collector (já fui um grande fã). Quase diariamente recebo informações de editoras e distribuidoras de novos lançamentos discográficos e depois há esse enorme mundo novo que é a internet. Faço pesquisas na Discogs frequentemente. Mas a minha fonte de informação preferida continua a ser o “boca a boca” com clientes e outros coleccionadores.

Que formatos tens representados na coleção?

Quase todos. A grande maioria em vinil (12”, 10”, 7” e uns poucos fora de comum 5”, 8” e 9”). Sou fã de 7” (devo ter à volta de 7000 singles) e 10” (cerca de 500). Tenho largos milhares de CDs, algumas cassetes, uma centena de discos de grafonola (shellac), meia centena de flexi-discs, alguns cartuchos (adquiri um leitor recentemente), uns quantos MD (mini-disc), muitos DVDs de música, muitas cassetes VHS de música.

Os artistas de quem mais discos tens?

David Bowie à cabeça, devo ter mais de 500 discos (LP, singles, máxis, CDs e caixas). Contei há pouco tempo os singles 7” de David Bowie e eram 89. Psychedelic Furs, das poucas bandas em que sou mesmo completista. Vinte e nove anos depois da edição de “World Outside” (1991) os Psychedelic Furs estão de regresso com um novo disco de originais, “Made Of Rain”. É só o oitavo álbum de originais da banda dos irmãos Butler, mas na minha colecção figuram cerca de 250 items (LPs, máxis, 10”, singles, CDs, cassetes, flexis, etc). Depois há vários artistas que procuro ter tudo: Velvet Underground, Rolling Stones, Beatles, Cramps, Stereolab, Beck, Nick Cave, Nina Simone, Johnny Cash, Clash, Iggy Pop, Black Keys, Oasis, Blur, Pulp, Sonic Youth, Nirvana, Fall, Echo & The Bunnymen, Flaming Lips e Tindersticks. Dos artistas portugueses os que estão mais representados na minha colecção são: Amália Rodrigues, José Afonso, Sérgio Godinho, Mão Morta e Legendary Tigerman.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Várias, especialmente nos anos 80 e 90, comprei muitos discos só porque tinham o selo Beggars Banquet, Mute, Factory, 4AD, Rough Trade, Blast First, Sub Pop, Matador e Fat Possum. Era como se de um selo de qualidade garantida se tratasse. Depois ainda temos editoras como a Sun Records, a Motown ou a Stax que são selos de confiança. De editoras portuguesas também havia selos que comprava sem conhecer os artistas, como a Ama Romanta, a Fundação Atlântica e a Dansa do Som. Das editoras mais recentes gosto muito das edições cuidadas da Light In The Attic e da Third Man Records.

Uma capa preferida.

“From The Lions Mouth” – The Sound

Tive uma educação religiosa e tenho um conhecimento razoável dos textos bíblicos. Desde miúdo que conheço a história do profeta Daniel, homem capaz de interpretar sonhos e de decifrar enigmas. Rapidamente se tornou num dos preferidos e protegidos do rei babilónio Nabucodonosor, mas também suscitou a inveja de muitos. Acabou por cair numa armadilha e foi lançado na cova dos leões. Felizmente a intervenção divina acabou por fechar a boca dos leões.

Quando olhei pela primeira para esta capa, com a pintura “Daniel in the Lion’s Den” do artista neo-clássico Briton Rivière, soube logo que era uma referência à história do profeta Daniel. Em 1985, talvez o ano mais decisivo da minha formação musical, comecei a ouvir o “Som da Frente” do António Sérgio e lembro-me do soco no estômago que levei na audição dos primeiros acordes do “Winning”. Outra canção recorrente nas emissões do “Som da Frente” era o “Fatal Flaw”, a minha canção preferida dos Sound. Apercebi-me com o decorrer dos anos que Coimbra deve ser das cidades com mais admiradores de Adrian Borland.

Uma disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

“If You Want To Defeat Your Enemy Sing His Song” dos Icicle Works. Dos melhores nomes para um álbum que conheço e que inclui um punhado de boas canções de Ian McNabb. Para além dos singles de sucesso “Evangeline” e “Who Do You Want For Your Love” contém duas grandes canções “Understanding Jane” e principalmente “Up Here In The North Of England”.

Como tens arrumados os discos?

Por ordem alfabética de artistas, quando preciso de ganhar espaço nas prateleiras os artistas com muitos discos passam para outra prateleira por ordem alfabética também. O problema de arrumação será eterno. Há secções específicas para tributos, bandas sonoras e compilações.

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Frank Zappa, tenho poucos discos do Zappa e reconheço que é um artista visionário e inovador, mas confesso que sempre gostei mais do Captain Beefheart. E depois a discografia do Zappa é um poço sem fundo. A Lucky Lux tem um cliente, o Jaime Bingre, que deve ser dos maiores coleccionadores de Frank Zappa no mundo. E não estou a exagerar, é um verdadeiro completista. Quando o ouço falar na sua colecção com quase mil discos de Zappa, sinto um alívio e penso: “Ainda bem que não fui por aí”.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Para dizer a verdade, acho que há mais casos ao contrário. Há vários discos que consumi avidamente e que adorava na altura em que foram editados, mas quando os voltei a ouvir, dez ou vinte anos depois, pensei: “porque raio é que eu gostava disto”?

Um disco que me lembro de estranhar no início e de o achar muito negro e pesado foi o “It’ll End In Tears” dos This Mortal Coil. Tinha dezasseis anos na altura e o “Som da Frente” só apareceu na minha vida um ano depois. Quando saiu o “Filigree & Shadow” em 1986 já era fã deste projecto de Ivo Watts-Russell, o fundador da 4AD. Os This Mortal Coil são grandes responsáveis pelo meu gosto por versões.

Tens uma editora. Que discos que tenhas editado achas que se podem tornar peças de coleção?

As três primeiras edições da Lux Records em vinil estão há vários anos esgotadas e já são peças de colecção: Belle Chase – Fossanova (2xLP, 1999), Tédio Boys – Jungle EP (7”, 2000) e Mão Morta – Nus (LP, 2004). As duas edições em CD de “Boppin’ Like A Chicken” de Ruby Ann & The Boppin’ Boozers há muito tempo que estão esgotadas e atingem valores invejáveis para um CD. As primeiras edições em CD de “Naked Blues” de Legendary Tigerman de 2002 e a primeira edição em vinil do mesmo disco, o 10” licenciado à espanhola Munster Records são já peças de colecção. Assim como a versão em vinil colorido do single “Girls” com membros dos Dirtbombs. Acho que os discos de Legendary Tigerman tenderão todos a tornarem-se peças de colecção a médio prazo.

As edições em vinil do “Feeding The Machine” dos X-Wife e o “Amateur” dos Wraygunn estão practicamente esgotadas e em breve serão peças de colecção.

As duas edições em vinil de Sean Riley & The Slowriders para a Lux Records serão seguramente peças de colecção em breve, o 7” em vinil branco de “Moving On” e a edição exclusiva a 150 exemplares em vinil laranja do álbum de estreia “Farewell” (numerada e com poster da digressão “Farewell Tour”).

A edição em vinil laranja (100 cópias apenas) do “Mati” da Selma Uamusse, foi editada em Novembro de 2019 e já há muito poucas cópias.

“The Box”, a caixa em madeira dos D3O que reúne os três primeiros EPs e um CD single exclusivo (edição numerada de 95 exemplares apenas vendidas nos concertos do grupo) também já é um item para coleccionador.

A edição em vinil transparente (numerada e limitada a 200 exemplares) das “Luna Demos” do norte-americano Dean Wareham tornar-se-á brevemente numa peça de colecção à escala mundial.

Nos últimos anos, as edições da Lux Records em vinil têm tido sempre edições limitadas em vinil colorido e por isso acho que facilmente os discos dos Parkinsons, Twist Connection, Birds Are Indie, Ghost Hunt, Raquel Ralha & Pedro Renato, D3O e The Walks também se tornarão peças de colecção.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história?

No dia do meu vigésimo sexto aniversário, 6 de Fevereiro de 1994 estava no Dramático de Cascais para ver os Nirvana. Era o primeiro concerto da digressão europeia para promoção do álbum “In Utero” da banda de Kurt Cobain, Krist Novocelic e Dave Grohl. Acompanhava a carreira dos Nirvana desde 1990, quando finalmente tive acesso ao álbum “Bleach”. Quando foi editado o “Nevermind” já era fã incondicional e comprei o CD assim que chegou às lojas. Houve um erro nas primeiras edições do CD que não traziam o tema escondido “Endless Nameless”. Eu tinha essa edição mas no final do ano li um artigo na, entretanto extinta, revista “Select” sobre temas “escondidos” em CDs e lá estava o “Endless Nameless”. O pessoal da discoteca “Fuga” (no ano seguinte ali nasceu a Kaos Records do António Cunha e seria lá que em 1995 nasceria a Lux Records) trocou-me o CD sem problemas. Não demorou muito para descobrir que afinal a edição que tinha despachado é que era rara e peça de colecção.

Mas voltemos ao concerto, haveria melhor prenda de anos? Para além de assistir a uma das últimas aparições ao vivo dos Nirvana, ainda tive vários bónus: à cabeça a primeira parte assegurada pelos Buzzcocks, depois poder assistir à prestação de Pat Smear (Germs) que acompanhava os Nirvana como segundo guitarrista, e finalmente pude falar com Big John Duncan que na altura era “roadie” dos Nirvana. Big John Duncan fez parte dos Exploited e era guitarrista dos Goodbye Mr. Mackenzie ao lado de Shirley Manson. Não há dúvida que isto anda tudo ligado, no ano seguinte Shirley Manson e Butch Vig (o produtor de “Nevermind”) formariam os Garbage.

Quando chegaram ao Dramático de Cascais, os Nirvana já tinham editados dois singles retirados de “In Utero”: “Heart-Shaped Box” e “All Apologies”/”Rape Me”. A Geffen Records preparava já a edição do terceiro single, “Pennyroyal Tea”, para o início do mês de Abril.

A digressão europeia deveria estender-se até dia 8 de Abril, mas o último concerto seria em Munique no dia 1 de Março. Bronquite e laringite severa de Kurt Cobain foram os motivos oficiais para o cancelamento do resto da digressão, mas os problemas de Cobain eram maiores. Dia 8 de Abril chegou a notícia da morte de Kurt Cobain (suicidou-se a 5 de Abril).

A Geffen cancelou de imediato a edição de “Pennyroyal Tea”, uma das canções incluídas no single chamava-se “I Hate Myself And I Want To Die”. No entanto, já tinham saído cópias do disco para distribuição do armazém alemão e chegaram algumas a Portugal. Comprei o meu exemplar no dia em que chegou à Fuga por 900 escudos (4,5€). A editora mandou recolher todas as cópias do mercado, mas algumas chegaram ao consumidor final.

“Pennyroyal Tea” rapidamente se tornou numa peça de colecção e passou a ser transacionado por valores a rondar os 1000€. Em 2013, precisava de dinheiro e coloquei o meu exemplar à venda por 800€ na discogs. Recebi uma proposta de um americano de 680€ para negociar fora do site (evitando assim a taxa da discogs) e acabei por vendê-lo. Até hoje foi o disco mais caro que vendi, mas também o que mais me custou vender.

A história não ficou por aqui, em 2014 no Record Store Day o single foi, pela primeira vez, editado oficialmente em vinil. Adquiri-o rapidamente para atenuar a sensação de arrependimento. Nos anos seguintes e graças à reedição do RSD o valor do CD single oficial caiu drasticamente e em 2016 voltei a comprar um exemplar por 300€. Agora sim, a ferida estava sarada.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Sérgio Costa (Belle Chase Hotel e Quinteto Tati), um dos melhores multi-instrumentistas que já conheci, ligou-me em Setembro de 2016 porque gostaria que eu fosse ver a nova banda dele ao vivo em Coimbra. Dia 24 de Setembro fui ao Salão Brazil e fui surpreendido por um “power trio” de rock e surpresa maior, o Sérgio Costa é que era o vocalista.

Gostei tanto do que ouvi que no final do concerto propus-lhe editar o disco dos Millions pela Lux Records. O disco foi gravado na Blue House, produzido pelo Pedro Renato (Belle Chase Hotel, Azembla’s Quartet, Mancines, Animais) e conta com a participação da Raquel Ralha (Belle Chase Hotel, Wraygunn, Azembla’s Quartet, Mancines, Twist Connection, Animais). Tem uma capa fantástica, da autoria da Joana Monteiro, que já foi internacionalmente premiada.

Foi editado a 8 de Setembro de 2017 em CD, a edição em vinil chegou em Dezembro com um alinhamento diferente. O limite de tempo num álbum em vinil é de 42 minutos e por isso “Internal Combustion” traz como bónus um single (7”) com os temas “Nice And Slow” e “Lost For Words”. Está disponível em duas versões: LP + 7” em vinil preto (300 exemplares) e LP + 7” em vinil castanho (edição numerada de 220 exemplares).

O disco abre com a “Tango A Go-go”, uma canção a fazer lembrar-me o melhor dos Belle Chase Hotel e tem um punhado de grandes temas como “My Way With You”, “Prince Of Babylon” e “Ides Of March”. Cometeram-se erros na promoção do disco e não houve o “airplay” nas rádios que desejávamos, mas a qualidade está lá e recomenda-se.

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