Quando o cinema visita as lojas de discos

De Godard a Kubrick, são vários os exemplos de presenças de lojas de discos em filmes de ficção. Um dos exemplos que mais explora o ambiente de uma loja é a adaptação ao cinema de “Alta Fidelidade” que Stephen Frears nos deu a ver no ano 2000. Texto: Nuno Galopim

O cinema visitou em várias ocasiões lojas de discos. De Viver a Sua Vida de Jean-Luc Godard (onde podemos reencontrar o ambiente de uma loja dos anos 60) a 500 Days of Summer de Marc Webb (num momento que mostra como os discos de que gostamos podem dizer um pouco sobre o que somos), o espaço da loja de discos serve por vezes mais do que um mero cenário. Acrescenta razões de ser às personagens, ajuda a caracteriza-las, diz-nos um pouco mais sobre quem são. As lojas de discos no cinema são ora reais ora ficcionais. Em Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, as personagens interpretadas por Ethan Hawke e Julie Delpy visitam a mítica Teuchtler Schallplattenhandlung em Viena. Já em A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, vemos a dada altura Alex (interpretado por Malcolm McDowell), a visitar uma loja de discos do futuro, caminhando entre expositores repletos de vinil e com uma montra que exibe um Top 10… Num dos planos vemos, ostensivamente em destaque, uma banda sonora de 2001: Odisseia no Espaço, do mesmo realizador.

Há, contudo, filmes que fazem da loja de discos um espaço mais presente e central. Um deles é Empire Redcords (1995), de Allan Moyle, uma versão anos 90 dos velhos teen movies dos anos 50 e 60, colocando em confronto os jovens empregados de uma loja de discos contra o gerente que a quer vender… É na verdade um coming of age fraquinho, mas fixou nas imagens ambientes das lojas daquele tempo. Melhor uso do espaço da loja de discos é de facto o que Stephen Frears faz em Alta Fidelidade (2000), a sua adaptação ao cinema do romance homónimo que Nick Hornby publicara cinco anos antes.

         O projeto envolveu profundamente John Cusack, que não só vestiu a pele do protagonista como teve um papel na escrita do argumento adaptado que transportou a loja Championship Vinyl do livro de Londres para Chicago. O filme conta-nos histórias da desastrosa vida amorosa do dono de uma loja de discos. E tal como ele e os seus dois funcionários passam a vida a fazer Top 5 de músicas para isto ou aquilo, aqui apresenta-nos a história das suas cinco mais graves separações…

Se nesse plano central da narrativa estamos no domínio da comédia romântica, o que salva Alta Fidelidade é mesmo o tempero que os discos trazem aos ambientes em que a trama evolui. A casa de Rob (o protagonista) é um paraíso de discos de vinil, que arruma (como qualquer colecionador) com um critério pessoal. Neste caso, optou por ordenar os discos pela cronologia da sua vida (enfim, cada um com a sua mania). Melhor ainda é o espaço da loja, uma característica loja independente de discos em vinil (não especifica se usado se novo), na qual Rob partilha o espaço com dois nerds que são os opostos polares um do outro. Dick (Todd Louiso) é introvertido, discreto e gosta de Belle & Sebastian. Barry (Jack Black em modo… Jack Black) é explosivo, intimidador e dança entusiasmado ao som de Walking On Sunshine de Katrina & the Waves.

Rob, Dick, mas mais ainda, Barry, reconhecem-se como elitistas, e este último chega até a demover os clientes de comprar discos que “a sua filha não vai querer” como I Just Called To Say I Love You de Stevie Wonder. Eu acrescentaria aqui que a atitude não será elitista mas sensata, sobretudo referindo um músico com tamanha obra de génio para além daquele tropeção que vendeu discos que nem pães quentes. Enfim, coisas de quem gosta de discos (e não apenas de êxitos).

Os planos na loja de discos ou na casa de Rob são apetitosos para trainspotters. Vemos capas de discos de Aretha Franklin, Fleetwood Mac, Brian Eno, das Slits ou o clássico brasileiro Tropicalia ou Panis et Circencis. Numa sequência Barry “obriga” um cliente a comprar Blonde on Blonde de Dylan… E basta estar atento para notar outros detalhes como estes. No fim a satisfação só não é maior porque a narrativa investe substancialmente mais na trama romântica do que nos ambientes em volta da loja de discos. Mesmo assim, este pode ser talvez o filme de ficção que mais e melhor utilização fez de uma loja de discos no grande ecrã. O livro (e o filme) geraram depois novas vidas desta mesma história (e ambientes) num musical na Broadway e numa série de televisão.

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