Dez discos que definiram o meu gosto – Ana Ventura

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é a Ana Ventura.

Escolher discos é (quase) tão ingrato como dizer-se qual é o filho preferido (imagino eu, que não tenho filhos) ou arriscar enumerar a melhor sopa da minha mãe. É fácil dizer “não gosto disto” mas é muito mais cruel a perspectiva daquele número finito de lugares disponíveis para serem ocupados por documentos que nos encham a alma, que nos invadam os sentidos ou que se tornem tão fundamentais quanto o ar que respiramos. Se a presente tarefa passasse por escolher “álbuns de vida”, talvez ficássemos por aqui até à viragem da próxima década. Escolher os discos que moldaram o meu olhar musical, porém, é quase como fazer uma retrospectiva daquilo que foi a minha vida até agora. Muitos destes, claramente, não entrariam na tal lista dos “melhores” mas, sem todos estes, os tais “melhores” nunca teriam tido, sequer, hipótese de serem descobertos.

Duran Duran “Duran Duran”

(1981)

Não, não fazia ideia do que era a synth-pop nem a new wave nem tão pouco que havia canções que eram pensadas e criadas tendo como propósito o movimento dos corpos. Porém, ter uma irmã mais velha traz muitas vantagens. Ao mesmo tempo que eu me deliciava com o single da “Abelha Maia”, entoado por aquela que viríamos, mais tarde, a conhecer como Ágata, a minha irmã e as amigas passavam as tardes a ouvir Duran Duran ou Spandau Ballet. As minhas brincadeiras com bonecas ganhavam, assim, uma banda sonora diferente que me fez, mais tarde, reconhecer a importância dos sintetizadores na pop e no rock.

Make It Big – Wham!

(1984)

Houve quem vaticinasse a morte da estrela da rádio por causa dos telediscos – mas, se não fossem os telediscos, nunca teria conhecido os Wham!. Isto porque, da mesma forma que a minha irmã me “obrigava” a ouvir os seus discos, também era dona da televisão quando por lá passavam os programas dedicados à música. Foi num desses programas que ouvi, pela primeira vez, os Wham!, cujo álbum seria o primeiro que pediria aos meus pais. É bem possível que o George Michael tenha sido a minha primeira paixão mas é, igualmente, verdade que “Careless Whisper” foi a primeira canção “em estrangeiro” que soube cantar de cor.

José Afonso “Galinhas do Mato”

(1985)

Há memórias de infância que nunca se irão apagar – como as romarias familiares, dentro do 42, que ligava o Bairro da Madredeus à Tapada da Ajuda. Ia nas cavalitas do meu pai para ser apresentada ao conceito de música ao vivo, às sementes do que viria, mais tarde, a conhecer como “festival”. Não que a Festa do Avante seja um festival: porém, era a música que nos levava até lá. A mesma música que ouvia no gira-discos lá de casa, com as escolhas dos meus pais a oscilarem entre Carlos do Carmo ou Adriano Correia de Oliveira. Lembro-me quando “Galinhas do Mato” chegou. Provavelmente, sem esse disco, jamais teria tido vontade de descobrir o que tinha sido a canção de intervenção – “Galinhas do Mato” foi o último álbum de Zeca Afonso mas foi a porta que me abriu para nomes como Sérgio Godinho, José Mário Branco ou, até, Jorge Palma.

Madonna “True Blue”

(1986)

O horror e o choque: nunca me hei-de esquecer da primeira vez que ouvi falar de Madonna. “Like A Virgin”, quando surgiu, estava longe de ser compreendido pela mente de uma criança mas a ideia de “Papa Don’t Preach”, tão clara no seu teledisco, não deixava margem para dúvidas. Foi por aí que descobri que aquela rapariga que já tinha dançado esparramada numa gôndola tinha um novo disco, cujo primeiro single me fazia ter vontade de dançar, de pegar na escova do cabelo e cantar em frente ao espelho. “True Blue” foi o segundo disco que pedi aos meus pais, o meu primeiro contacto verdadeiro com Madonna e o primeiro sintoma de um amor e uma relação que perdura até aos dias de hoje.

Xutos & Pontapés “Circo de Feras”

(1987)

“Circo de Feras” não me chega às mãos aquando da sua edição – antes é “descoberto” quando “Sétimo Single” toma Portugal de assalto, graças à “Casinha”. Quem eram, afinal, estes rapazes? Lembro-me que a nossa vizinha do lado tinha aquela edição magnífica, em metal, de “Cairo”, dos Táxi, e também recordo a polémica que “Patchouli”, do Grupo de Baile, tinha provocado, mas havia algo diferente nos Xutos & Pontapés. Eles tanto tinham a carga pronta e metida nos “Contentores” quanto se entregavam ao amor da canção que baptizava o seu grande cartão de visita. Sem “Circo de Feras” nunca teria tido vontade de descobrir o rock feito em Portugal e em português. Mais uma vez, uma relação de amor, que se mantém até hoje e que acabou por moldar não só a minha vida como o meu trabalho.

U2 “The Joshua Tree”

(1987)

O que é que uma portuguesa, de férias no Rio de Janeiro, traz como recordação? Um álbum de um grupo irlandês, claro! Pode parecer improvável mas é no Brasil que oiço falar, pela primeira vez, dos U2 e é numa loja de discos carioca que acabo por pedir aos meus pais que me comprem o mais recente álbum dessa tal banda. Esse disco era “The Joshua Tree”, um dos registos charneira do quarteto de Dublin. Não foi importante, apenas, pelas (magníficas) canções que carrega ou pela intensidade revelada num grupo que tinha, efectivamente, algo a dizer ao mundo. Foi, também, graças a “The Joshua Tree” que descobri Brian Eno. É possível que, sem Eno, não tivesse chegado tão rapidamente a David Bowie, por exemplo. Sem “The Joshua Tree”, de certeza, nunca teria tido tanta curiosidade em fazer a 101 – a estrada na Califórnia onde, com um pequeno desvio, se pode mergulhar no deserto onde a tal “árvore” pode ser vislumbrada.

The Cult “Electric”

(1987)

Claramente, na sua fase mais dourada, este será o álbum que menos aprecio na discografia dos Cult. O que é que ele faz nesta lista, então? Simples – ainda que seja necessária alguma atenção. É graças a “Electric” – espécie de ovelha “negra” numa banda que sempre foi marcada pela guitarra brilhante de Billy Duffy mas guiada pelo lado espiritual de Ian Astbury – que conheço os Cult. Ao viajar no seu lote de discos anteriores, surge-me o incrível “Love” e, com ele, revela-se, em mim, uma apetência para todo um novo género que me viria a conquistar e a acompanhar. Confesso: é aqui que passo a pertencer à facção gótica, com tudo o que daí viria a advir. O preto torna-se o melhor amigo da minha roupa e nomes como Nick Cave ou Joy Division assumem-se como peças fundamentais na minha existência.

Portishead “Dummy”

(1994)

(1994 foi o ano mais importante na definição do meu gosto musical parte 1)

Para quem era gótico, foi “fácil” chegar ao trip-hop – e, dentro do trip-hop, os movimentos dos Portishead eram bem mais atraentes do que o impacto dos Massive Attach. “Dummy” era, quase, o gótico interpretado por computadores (ou foi isso que senti da primeira vez que o escutei). Era, também, a voz de Beth Gibbons, a experiência de um novo género que, ao mesmo tempo, parecia tão familiar. Depois do mergulho no grunge, dos anos anteriores, era refrescante sentir que os sintetizadores podiam regressar ao meu olhar e compreender que as “máquinas” podiam ser tão impactantes quanto as mais desvairadas guitarras. 

Nine Inch Nails “The Downward Spiral”

(1994)

(1994 foi o ano mais importante na definição do meu gosto musical parte 2)

Mas, se se fala em “máquinas”, é impossível não pensar numa outra descoberta: o rock industrial. Talvez nunca tivesse chegado aos Nine Inch Nails se não tivesse passado pelo tal grunge do arranque dos 90s ou se o punk não tivesse, também, sido uma paixão. Só que, com “The Downward Spiral”, a certeza que tive foi que um magnífico mundo estava a surgir frente aos meus olhos. Foi fácil o corpo deixar-se cativar pelos seus ritmos violentos da mesma forma que a mente se deixava contagiar pela mensagem de total incompreensão, de fúria, de revolução. “The Downward Spiral” é o disco mais “repetido” no meu lote de vinis (compro todas as edições que encontro, até uma australiana) e é onde está aquela que é, para mim, uma das melhores canções de amor alguma vez escritas.

Jeff Buckley “Grace”

(1994)

(1994 foi o ano mais importante na definição do meu gosto musical parte 3)

No espectro totalmente oposto ao lado trabalhado dos Portishead ou “sujo” dos Nine Inch Nails, eis que surge a voz delicada de Jeff Buckley. Serão, porventura, três formas distintas de abordar uma mesma realidade – a das dores do crescimento, do lado torturado da vida adulta, do sofrimento de quem não sabe, exactamente, qual o caminho que quer seguir. 1994 parece, quase, feito de uma santíssima trindade musical, onde Jeff Buckley ocupa o lado do espírito santo (e não, não é por ter, em “Grace”, “Hallelujah” ou “Corpus Christi Carol”). “Grace” é daqueles álbuns que, a cada nova audição, parece revelar sempre algo novo. Para mim, em 1994, provou que era possível fazer muito com “pouco”. Por improvável que possa parecer, é por causa de “Grace” que ganho vontade de descobrir outros cantautores. Jeff Buckley não me apresentou, apenas, Leonard Cohen: foi, também, Bob Dylan ou Joni Mitchell. “Grace”, no meu olhar, pensar e sentir, é, ainda hoje, um dos melhores álbuns da história da música.

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