O filme musical de culto que nasceu nas sessões da meia noite

Originalmente estreado num palco de teatro em 1973, o musical que bebia os climas e visões tanto do glam rock como da ficção científica dos anos 30 a 60 chegou ao cinema em 1975 com o título “The Rocky Horror Picture Show”. Hoje é um clássico. Texto: Nuno Galopim

A história começa num momento difícil. No inverno de 1970, num momento em que estava sem trabalho, o ator inglês Richard O’Brien começou a ocupar os dias frios com a escrita de uma ideia para teatro que partia de uma assimilação de ideias de um universo de que era particular admirador: o cinema de ficção científica (de muito baixo orçamento) que tinha surgido entre os anos 30 e 60. A narrativa envolvia a figura de um cientista cross dresser que se preparava para revelar a sua nova criação. Algo no departamento Frankenstein, mas com melhores acabamentos. O palco chamou-o, entretanto, para uma produção de Hair e, depios, para Jesus Christ Superstar. E só em 1973, com canções com letra e música da sua autoria, chegou a cena esta sua visão, então sob o título The Rocky Hoorror Show, que teve assim a sua primeira vida no West End londrino. Mal imaginava que, em 2020, o espetáculo se mantivesse em palco com variadas novas produções e elencos, com as mais recentes apresentações levadas a cena este ano na África do Sul… O produtor Jonathan King, que estava na plateia na segunda noite da produção londrina original, ofereceu-se para gravar a banda sonora, que logo surgiu em disco na sua própria editora. E do impacte do palco e das canções (que, entretanto, atravessam o atlântico até palcos em Los Angeles e Nova Iorque), em pouco tempo chegou o desfio para uma outra vida para estas personagens e canções: o cinema.

            Na verdade Richard O’Brien tinha já enviado um guião inacabado ao realizador Jim Sharman. E em sintonia, ambos avançaram para uma adaptação direta das ideias levadas a cena no palco. A exuberância visual, que devia muito a ecos diretos do glam rock (que explorara questões como a androginia e as sexualidades de maneira nunca antes vista na cultura pop mainstream), vincava marcas de identidade na adaptação ao cinema. Não haveria filtro. E a ousadia, a cor e a luminosidade da música poderiam criar um momento diferente na história do cinema musical, somando novas pistas numa revolução de costumes que começara já a pisar os palcos mas ainda não chegara com o mesmo fulgor aos ecrãs (Hair, o filme, data apenas de 1979) . E assim foi.

            Com alguns ajustes face ao que se via em palco, o filme, que usa Charles Gray (o vilão de Diamonds Are Forever da série 007) como narrador, conta-nos a estranha passagem de um casal recém-casado (Susan Sarandon e Barry Bostwick) por uma estranha mansão na qual são recebidos por um mordomo corcunda (Riff Raff, nada mais nada menos que o autor Richard O’Brien), sob as ordens do estranho cientista Dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), o epicentro das atenções.

O instante da entrada do casal na mansão, ao som de Time Warp, é um dos momentos da versão para cinema que deixa claro o que se pode ali acrescentar ao que era na origem um musical de palco. O filme avança numa sucessão de quadros com evidentes vitaminas de paródia aos universos sci-fi revisitados, e não deixa de vincar a sua identidade de “musical” quer na dança que acompanha Time Warp ou no momento em que Eddie, interpretado por Meat Loaf, irrompe pelo laboratório de Frank-N-Furter para, de saxofone na mão, deixar claro que é dentro de um universo então designado como ópera rock que estamos a caminhar.

            Apesar de ser hoje um clássico, com festas recorrentes com singalong e plateias vestidas como as suas personagens preferidas, e de na verdade nunca ter saído dos ecrãs, a vida nas salas de cinema de Rocky Horror Picture Show não teve um começo fácil. Resultou no Reino Unido, mas do outro lado do Atlântico só numa sala de Los Angeles cativou plateias. E assim foi até que, em 1976, foi experimentada a sua exibição em sessões da meia noite… E aí nasceu o culto que perdura.

E agora três canções:

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.