Quando as canções dos Pet Shop Boys chegaram a um ecrã de cinema

Estreado em 1988, o filme de Jack Bond “It Couldn’t Happen Here” criou um arco narrativo e um conjunto de personagens em torno de canções dos dois primeiros álbuns dos Pet Shop Boys. O filme foi restaurado e está agora editado em Blu-Ray e DVD. Texto: Nuno Galopim

A música pop descobriu cedo o cinema… Na verdade, o rock’n’roll já o tinha feito nos anos 50… Mas chegados aos sessentas nomes como os de Cliff Richard, os Beatles ou os Monkees deixaram bem claro o poder que o grande ecrã podia exercer sobre a mitificação das suas imagens e, claro, a divulgação das suas canções. É certo que houve também músicos que experimentaram o cinema como espaço complementar, explorando mais aí os seus dotes performativos como atores. John Lennon fê-lo em How I Won The War de Richard Lester, David Bowie deu primeiros passos na sétima arte em The Man Who Fell To Earth de Nicholas Roeg, Sting vestiu a pele de um vilão no Dune de David Lynch… Nenhuma destas possibilidades estava contudo nos horizontes do trabalho dos Pet Shop Boys quando, a 12 de janeiro de 1987, o duo se sentou numa sala da PMI (a divisão dedicada ao vídeo da EMI) para pensar a eventualidade da criação de um vídeo long-form para acompanhar o seu segundo álbum, a editar esse ano. Seis anos depois do arranque da MTV o teledisco era já uma ferramenta fundamental na comunicação de novas canções. E depois do impacte de edições em cassete (VHS e Beta) de nomes como os de Michael Jackson ou Duran Duran, o circuito de vídeo vivia dias de aposta e prosperidade. Neil Tennant e Chris Lowe saíram da sala com o “sim” para criarem um vídeo-álbum. Meses depois, já em agosto, tiveram uma primeira reunião com o realizador Jack Bond, a quem propuseram a criação do trabalho… Por essa altura tinham já lançado o single It’s a Sin, com teledisco realizado por Derek Jarman (que iniciava ali um trabalho de colaboração regular com o grupo). E preparavam para dias depois o lançamento de What Have I Done To Deserve This, segundo single do novo álbum, um dueto com a veterana Dusty Springfield para cujo teledisco tinham chamado Eric Watson. Estava já apalavrada nova colaboração com Jarman para Rent e Actually, o álbum era apontado para ter edição em setembro. Era preciso arregaçar as mangas e avançar com o vídeo-álbum… Porém, e depois de algumas primeiras imagens filmadas em setembro, o projeto metamorfoseou-se. Em vez de um vídeo long-form o cinema seria agora o destino desta ideia… Foi preciso alargar os conceitos de forma a aceitar um arco narrativo, ampliar a caracterização de personagens, aprofundar ideias… E aos poucos, It Couldn’t Happen Here começou a acontecer.

         Concedendo liberdade criativa ao realizador Jack Bond e ao diretor artístico Jack Dillon, que assinaram o argumento, os Pet Shop Boys viam-se transformados em protagonistas de um bizarro road movie que começava numa localidade costeira britânica, fustifada pelo mau tempo, e avançava estrada fora até chegar a uma discoteca, algures em Londres… Críptica, surrealista, a narrativa e as imagens socorrem-se das canções como alicerces de quadros visualmente ricos (mas musicalmente sempre arrebatadores). Entre as canções (e a editora queria ver ali todos os êxitos, como explica o realizador num dos extras da nova edição) surgem não apenas os Pet Shop Boys como uma série de figuras que cruzam épocas (o presente e os dias da II Guerra Mundial) e que traduzem não só um sentido de sinais dos tempos como uma certa britishness. Neil e Chris seguem as personagens que eles mesmos tinham começado a criar algum tempo antes no teledisco de West End Girls. Neil é sóbrio, compenetrado, partilha pensamentos (que muitas vezes são leituras de letras das canções). Chris, que começamos por ver numa perquena estalagem, não diz um pio até meio do filme… Quem mais fala na verdade são as figuras bizarras que entram em cena. O vendedor de praia, o hóspede bem-humorado da estalagen “it’s only a laugh, no harm done”, o antigo padre que agora é serial killer… Há um boneco de ventríloquo e um aviador que debitam um discursos filosóficos (um deles sobre chávenas de chá)… Mas na verdade todo o tom surrealista das construções acaba por ser ora expressão ora contraponto das canções. E tudo acaba bem arrumado e sequenciado. Apesar de muitas vezes referido, o tom político do discurso do filme está mais na essência sociológica e vivencial que serviu de referência às canções, se bem que uma sequência com neonazisjunto a uma cabine telefónica possa sugerir leituras de uma realidade que habitava já então a sociedade britânica.

         Mais do que os significados, It Couldn’t Happen Here pode ser fruído como uma expressão plástica com subtextos surrealistas aos quais cada um pode reagir com mais ou menos vontade de os descodificar (confesso que não tentei nem está nos meus planos fazê-lo). A ideia do vídeo-álbum, ou seja, a do acompanhamento visual das canções (e estão aqui temas fulcrais dois dois primeiros álbuns assim como uma versão de Always On My Mind que tinham gravado recentemente), habita a medula da ideia, porém a diversidade dos quadros visuais, as personagens e eventuais ligações (que com atenção podemos encontrar entre figuras e episódios) traduzem o upgrade para cinema que a realização de Jack Bond defendeu e cuja direção de fotografia o restauro agora revelado no Blu-Ray torna bem evidente. Entre os trunfos de It Couldn’t Happen Here está ainda um trabalho de coreografia criado por Arlene Phillips, figura muito presente em telediscos de bandas inglesas dos anos 80 e que tem entre o seu currículo o trabalho em The Wild Boys, dos Duran Duran.

         O BFI deu este ano corpo à primeira edição do filme desde os tempos do VHS. E a resposta foi tal que a edição especial (com um Blu-Ray, um DVD e um livro de 50 páginas repleto de fotos e bons ensaios) esgotou num ápice. Uma segunda edição, standard, vem a caminho… Vale a pena pelo encontro com a cópia restaurada do filme. Mas é pena se o livro (bem melhor do que os extras) ficar excluído… Dos extras vale a pena notar a inclusão do teledisco de Always On My Mind, realizado por Jack Bond a partir de uma colagem de momentos do filme. O realizador voltaria ainda a trabalhar com os Pet Shop Boys no teledisco de Heart.

“It Couldn’t Happen Here”, de Jack Bond, está disponível numa edição em Blu-Ray e DVD pelo BFI.

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