Os seis melhores álbuns nacionais dos seis primeiros meses de 2020

Seis álbuns nacionais que se destacaram entre a produção discográfica editada nos primeiros seis meses de 2020. Esta é uma escolha pessoal, como de resto é hábito nestas coisas das listas de discos… Seleção: Nuno Galopim

Entrámos no segundo semestre de 2020… E iniciámos ontem um panorama através do que de melhor (e aqui o gosto é quem mais fala, naturalmente) fui escutando ao longo dos seis primeiros meses de 2020. Como critério de base para a seleção escolhi discos sobre os quais se foi falando aqui no GiRA DiSCOS. Discos eventualmente lançados neste semestre mas ainda não abordados aqui podem ficar para a próxima colheita.

Ontem foram destacadas as edições internacionais de discos novos. Hoje é a vez dos discos que nasceram deste lado da fronteira (amanhã passaremos pelas edições nascidas da gestão de arquivos). Aqui fica então a seleção, apresentada por ordem alfabética dos artistas.

Dino D’Santiago “Kriola”

Dialogar, misturar, cruzar, explorar, alargar, incluir, respeitar, sorrir… Todos estes verbos habitam a música (e a personalidade) de Dino d’Santiago figura que, sobretudo depois do impacte do brilhante Mundu Nôbu (2018) ganhou um merecido espaço de protagonismo na cena musical portuguesa e um lugar de reconhecida visibilidade na construção de laços que são expressão artística de toda uma demanda pessoal e da construção de um pensamento que é também histórico, social e político (afinal não é isso a cultura?). Sem pré-aviso, um novo disco chegou-nos há poucos dias. Chama-se Kriola e traduz, uma vez mais, toda aquela multidão de ações acima enumeradas. E junta novas caminhadas a uma viagem que, ainda recentemente, tinha conhecido mais uma importante contribuição no igualmente consequente (e soalheiro) Sotavento.

         Antes do mais vale a pena lembrar que a viagem não começou em Mundo Nôbo. Editado cinco anos antes, Eva (álbum no qual participava o veterano Paulo Flores) lançava já sinais de curiosidade para um músico nascido no Algarve mas com horizontes mais vastos no seu olhar. As memórias e experiências herdadas dos pais agitavam uma puslão de descoberta identitária (sua e comunitária). Mas é com Mundu Nôbo que Dino d’Santiago encontra os parceiros certos para a demanda que tinha em mente. E com eles mergulhou numa mais profunda caminhada feita de ousadias, juntando referências (que cruzam tempos e lugares) e estabelecendo pontes entre tradições e afirmações de contemporaneidade. O novo mundo de que falava é aquele que somos: o da mistura. De cores. De línguas, dialetos e sotaques. De instrumentos. De geografias. De identidades. E é em busca de novas formas dessa mistura, que no fundo traduz uma expressão atual do sentido multicultural da cidade em que hoje mora (Lisboa), e de que Mundu Nôbo era fruto, que Dino d’Santiago continua a viagem. Em busca de novas expressões dessa mistura. No fundo, em busca do crioulo.  

         Se em Sotavento as paisagens apelavam a uma genética cabo-verdiana, em Kriola estamos num território que tanto pode ter uma das ilhas do arquipélago ou a linha de Sintra como ponto de partida. O espaço físico lança as possibilidades. Mas as culturas são realidade com outras fronteiras. E a música aqui transcende-as uma vez mais. Há em Kriola ecos que nos remetem para referências da Ilha de Santiago, em Cabo Verde, assim como a Lisboa, Londres, Lagos (na Nigéria) ou Luanda (Angola). No fundo, cozinhando em estúdio uma “cachupa instrumental”, como disse já o próprio Dino, sublinhando que, “desta vez, viajou do batuku ao ozonto, da coladera ao grime, sempre com o tempero final dado pelo funaná que descansa no arriscar de um tarraxo.” Branko, Pedro e Kalaf Epalanga são novamente epicentros em diálogos de colaboração que juntam uma vez mais Dino d’Santiago a Seiji, Nosa Apollo, Toty Sa’Med, Djodje Almeida, Toni Economides. Mas este mundo é feito de encontros e descobertas. É um mundo de portas abertas e desta vez ali chegaram também Julinho KSD (que partilha o protagonismo vocal em Kriolo) e Vado MKA.

              Se Mundu Nôbo traduzia uma “nova” Lisboa e Sotavento escutou novas possibilidades para genéticas nascidas em Cabo Verde, Kriola abre mais ainda os braços ao mundo global. Faz notar que somos isto. Nós, os que estamos aqui. Mas também todos os demais. Este é o nosso tempo. Este é o nosso mundo. O facto (inesperado) de o disco, que foi gravado em viagens entre Lisboa e Londres nos últimos meses, ter chegado num momento em que muitos de nós vivemos confinados às nossas casas, acaba por nos trazer um olhar de vistas largas para que, mesmo fechados, possamos sentir a pulsação do mundo. – N.G.

“Kriola”, de Dino d’Santiago, está disponível nas plataformas digitais numa edição da Sony Music

O título no fundo sugere o que aqui podemos encontrar… texturas e linhas. Sob um clima subtil de encantamento e desafio, procurando avançar e saboreando as descobertas ao mesmo tempo, Textures & Lines é um mundo feito de diálogos, caminhadas e cruzamentos entre sons acústicos e amplificados, entre sonoridades que brotam ora de instrumentos (com o piano em maior evidência ou as percussões) como resultam de construções e manipulações feitas com eletrónicas. Texturas e linhas, pois… E mesmo sob uma atmosfera claramente exploratória, a contemplação que agora nos é sugerida em disco é tudo menos distante e hermética. Pelo contrário, seduz, convida. Mergulha-nos… E quando damos por nós estamos envolvidos entre as texturas e a seguir as linhas que se vão desenhando pela nossa frente. As quatro composições que aqui escutamos, bem diferentes entre si, ultrapassam as noções de género e as ideias de limites que por vezes alguns gostam de impor aos universos para melhor os catalogar e arrumar. O disco é mais uma importante contribuição para a construção de novos espaços numa terra (potencialmente bem fértil, como aqui se escuta) algures na linha da frente da invenção da música contemporânea e, apesar de não corresponder necessariamente aos rumos definidos desde finais dos anos 70 pelos paisagistas da música ambiental, não deixa contudo de partilhar com eles a noção de uma música que gosta de tatear o espaço e de o visitar antes de o habitar. Um dos mais cativantes discos de música eletrónica criados e lançados nos últimos tempos entre nós, Textures & Lines é um bom motivo para reencontrar (ou descobrir) os nomes por detrás desta aventura: o Drumming – Grupo de Percussão, Joana Gama e Luís Fernandes.

Passam já seis anos sobre a edição de Quest, o disco de 2014 (editado pela Shhpuma) que fixava os primeiros diálogos entre Joana Gama e Luís Fernandes, ambos naturais em Braga. Ela, pianista, com um doutoramento defendido em Évora em 2017 (“Estudos Interpretativos sobre música portuguesa contemporânea para piano: o caso particular da música evocativa de elementos culturais portugueses” era o tema da tese), tem vindo a assinar uma obra em várias frentes, quer a solo quer em colaborações, juntando aos discos e palcos os universos do cinema, da dança, do teatro e da fotografia. Ele é doutorado pela Universidade do Porto e, como músico, foi fundador dos peixe:avião, e integrou projetos como os La La La Ressonance ou Palmer Eldritch. Explora sobretudo os universos das eletrónicas e entre os seus trabalhos há colaborações com nomes como os de Lloyd Cole (na música) ou João Pedro Rodrigues (no cinema). A música para cinema, para vídeo e instalações ocupam, de resto, parte importante das suas atenções. Juntos, Joana Gama e Luís Fernandes têm vindo a desenvolver uma obra que, depois de Quest, envolveu já discos como Harmonies (no qual participou Ricardo Jacinto) ou At The Still Point of Turning World (com a Orquestra de Guimarães).

A criação de Textures & Lines partiu na verdade de um desafio lançado pelo Drumming – Grupo de Percussão (do Porto) a Joana Gama e a Luís Fernandes. A música agora fixada em disco é contudo parte de um todo que se completa, em atuações ao vivo, com a junção de imagens criadas em vídeo, em tempo real, por Pedro Maia. Havia concertos marcados, entretanto cancelados… A seu tempo as linhas de tempo do disco e dos palcos acabarão por se reencontrar, como esta música sugere. Para já, escutemo-la. E preparem-se para boas descobertas. – N.G.

“Textures & Lines”, do Drumming GP, Joana Gama e Luís Fernandes, está disponível em CD e nas plataformas digitais numa edição da Holuzam

Mancines “II”

Não sei o que se passou mas muitas vezes sinto que a palavra “pop” se transformou para muitos (não para mim) numa espécie de “palavrão”. Há uns anos, estava eu a passar música no Fontoria, e uma rapariga pede-me: “passa pop!”… Nada contra, claro. Mas a perplexidade instalou-se porque naquele momento eu passava o Go West dos Pet Shop Boys… Bom, pop mais pop não há! Mas a situação expressa a forma como, por vezes, se instalam equívocos (o trabalho que tive há dias a tentar explicar a um jovem jornalista a dimensão “maior” que a palavra pop implica, tentando afastá-lo do constrangimento, ou confinamento como agora se diz, a que a sua geração reduzira a noção do que é pop…). Há quem pense que, hoje em dia, a pop corresponde apenas (ou sobretudo) ao terrenos de uma Lady Gaga ou Ariana Grande. São figuras da pop, naturalmente. Mas tão pop, embora diferente pop, é a que os Pet Shop Boys, Depeche Mode ou Duran Duran continuam a fazer. Ou a que faziam os Japan em Tin Drum ou Momus em Hairstyles of The Devil. A que nos davam os Kraftwerk em The Man Machine. Ou a que saía dos discos de uma Françoise Hardy ou Sandie Shaw nos anos 60… Fechar pop a uma cerca estética de época e forma é miopia que vale a pena  ultrapassar a bem de poder “ver” as coisas com mais olhos (e ouvidos) do que manias. Pop é um conceito maior, recheado de diversidade. Cruza os tempos. Muitas vezes pode até andar de braço dado com formas do rock, da soul, da música eletrónica ou hip hop (como o fizeram por exemplo os PM Dawn ou mais recentemente Lil’ Nas X). Pois é… Pop é um espaço vasto… Depois, os mais dados às nomenclaturas e a arrumar as ideias como o fazia o velho Lineu, até podem criar sub-géneros ditados por abordagens estéticas, épocas ou geografias. Mas, e para não esticar demais a coisa, olhemos a pop como um mundo de possibilidades que cruza os tempos e abarca muitos caminhos…

Tudo isto para sublinhar que um dos mais deliciosos discos pop que nasceram entre nós nos últimos tempos vem assinado pelos Mancines. O grupo, com berço coimbrão, traduz na verdade heranças de referências maiores da história da cidade, desde os Belle Chase Hotel (autores de alguma da pop mais gourmet que escutámos por cá em finais dos noventas), aos Tédio Boys, passando pelos Wray Gunn, Azembla’s Quartet ou D30. Aqui se juntam Raquel Ralha, Pedro Renato, Toni Fortuna e Gonçalo Rui. E, com eles, formas, épocas, referências. As canções sugerem uma vasta assimilação de heranças (que vão desde a música para cinema aos terrenos clássicos da canção pop, com pistas que passam por várias tradições europeias), juntam a elegância e o poder sedutor das grandes melodias, e celebram mesmo a história pop nacional ao recriar Fado, um clássico dos Heróis do Mar… Olha, lá está, mais uma referência maior da canção pop… Passar pop? Sim, passemos (ou escutemos) II. É um disco para juntar a La Toilette des Etoiles dos Belle Chase Hotel, Altar dos The Gift, Lustro dos Clã, Onde O Tempo Faz a Curva dos Rádio Macau, Desalmadamente de Lena d’Água, Le Jeu dos Balla ou o álbum dos Humanos, entre outros mais, na galeria de grandes momentos pop made in Portugal editados em disco desde o ano 2000. – N.G.

“II”, dos Mancines, está disponível em CD e nas plataformas digitais numa edição da Lux Records.

Pedro “Da Linha”

A Damaia pode parecer muito longe de uma ideia romantizada de Lisboa, a Lisboa que se circunscreve apenas às viagens do elétrico 28 ou às esplanadas nos bairros históricos, onde se possam comer pastéis de nata quentes com vista para o Tejo. Mas, se a viagem correr como planeada, sem atrasos ou qualquer outra circunstância que cause mora, o comboio consegue unir em apenas 11 minutos a histórica estação do Rossio à estação da Damaia. E foi nesta Lisboa, a da periferia, que se acolheram os retornados das ex-colónias – fruto do processo de descolonização pós 25 de abril –, acompanhados, nos anos seguintes, por uma vaga de migração de Angola e Moçambique, da Guiné, São Tomé e Príncipe ou Cabo Verde. Aqui, para lá das somas óbvias de diferentes latitudes, também se fizeram contas à diversidade de vivências e de culturas. E mesclaram-se ritmos e géneros, inscreveram-se novas formas de fazer música e de a dançar, dialogaram a kizomba, o kuduro, a morna, o funaná.

No virar do século, os Buraka Som Sistema foram percursores em incorporar, na música de dança, uma esta visão sociológica menos consensual da cidade: o seu primeiro EP, From Buraka to the World, como o nome sugere, foi impulsionador em mostrar esta nova ideia de lusofonia que por cá se depurava. Uma Lisboa que congrega (e não separa) o seu lado africanizado e irreverente, tendo o kuduro como epicentro criativo. Durante dez anos, Branko, Riot, Kalaf, Conductor e, mais tarde, Blaya cresceram, solidificaram o seu som e confirmaram-se internacionalmente. No verão de 2016, a dissolução do projeto (pelo menos momentaneamente) aconteceu no Globaile, festival com curadoria dos próprios e, desde aí, definiram caminhos individuais.

Pode afirmar-se, com certeza, que PEDRO é um dos herdeiros, não só do legado musical dos Buraka Som Sistema, mas desta visão da cidade de Lisboa – que, como nos canta Dino d’Santiago, do qual é coprodutor, com Branko, é uma “Nova Lisboa”. Frisou em entrevista ao GiRA DiSCOS: ”Acho que tudo isto que estamos a viver musicalmente em Lisboa e também no resto do país é o resultado de todo um caminho que foi feito anteriormente (muito graças a Buraka Som Sistema) que permite que novos artistas como eu e o Pedro Mafama consigamos criar a nossa música e que essa faça sentido em toda esta história que aos poucos estamos a criar”.

Pedro Maurício começou a fazer música assinando as suas produções como Kking Kong. Mas não foi necessário subir ao topo do Empire State Building para ser descoberto por João Barbosa (Branko). E aconteceu por via da plataforma SoundCloud. Branko primeiro convida-o para tocar ao vivo nas Hard Ass Sessions no Lux Frágil e, posteriormente, para juntar-se à editora Enchufada (fundada por Branko e que editou todos os discos de Buraka Som Sistema). Em 2017, deixa para trás o nome Kking Kong e passa a assinar como PEDRO, não tendo parado desde aí: coproduziu com Branko os singles Contigo, de Carlão, Nova Lisboa, de Dino D’Santiago e MPTS. Faz nascer, na transição entre 2017 e 2018, o seu EP Damaia 2.0, mostrando como as formas mais convencionais do kuduro podem ser musculadas com detalhes de música eletrónica, exponenciando o seu lado eletrizante e viril.

Damaia 2.0 é uma homenagem. Nascido e criado na Damaia, sendo “este um fator decisivo porque toda a mistura cultural que existe na zona e ao longo da Linha de Sintra acabou por influenciar o meu crescimento enquanto pessoa e que, por sua vez, acabou por influenciar também a forma como abordo vários estilos de música e como a produzo. Quando cresces numa área onde tanto ouves techno em casa, como funaná e semba na rua, como música pop na escola, acabas por, de forma inconsciente, imaginar cenas bem porreiras e vais querer tentar criá-las”, como nos conta.

O seu primeiro longa-duração chegou há poucos dias: um conjunto verdadeiramente eclético, uma demonstração clara do porquê de, forma mais ou menos tímida, se ter tornado um dos mais interessantes produtores portugueses. Da Linha é kuduro, claro, mas com a capacidade de reclamar influências e lugares do atlas, expandindo-se até ao reggaeton em Para Ti, na vibrante faixa Stuck on You, cantada pelo ganês Brytes, ou entrando em diálogo com a musicalidade profundamente mesclada de Pedro Mafama, como escutamos em Terra Treme. O Brasil não é esquecido: PEDRO convida o duo brasileiro de produtores DKVPZ em Toques, num exercício de partilha de referências, que se diluem num instrumental acalentado e musculado.

A diversidade, como nos conta, “é essencial no sentido em que é sempre importante teres várias conexões com vários pontos do mundo e com as pessoas desses estilos musicais, dessas culturas. Achei mega cool ter um tema com o Xcelência por exemplo, que é um artista de Porto Rico baseado em Los Angeles e que canta exclusivamente reggaeton ou ter um tema com o Pedro Mafama e ambos criarmos algo que não é logo à partida algo que faríamos sozinhos. Acho que é muito importante teres várias línguas e culturas no meu disco e na música que produzo (…)”

E é na capacidade de produzir diversidade que PEDRO encontra seu o cunho autoral: quando avançamos em Da Linha, nada nos soa semelhante ao que escutámos em faixas anteriores. Calores, a segunda de dez faixas, é exuberância instrumental, detalhada e orgânica, demarcando-se de produções mais furiosas escutadas em Damaia 2.0. Faz-se acompanhar, como habitual, por Branko para criar, em Takré, uma eletrónica voluptuosa e sensual. PEDRO, em Da Linha, vem mostrar-nos que há mais linhas que nos unem do que aquelas que nos separam. Há apenas que ter coragem em ultrapassá-las! – G.C.

“Da Linha”, de Pedro, está disponível em LP e nas plataformas digitais, numa edição da Enchufada

Pop Dell’Arte “Transgressio Global”

Não aceitar as regras que são impostas, transgredir os limites… todos os limites… A ideia é antiga, mas foi materializada numa canção que começou por ganhar voz em 2015 e agora, numa nova versão, integra a carne daquele que é o melhor álbum de sempre na obra dos Pop Dell’Arte. Mas para que dizer “o melhor” não gere equívocos nem leituras toca-e-foge, nada como contextualizar a coisa… E para isso é preciso viajar no tempo… No fundo, partilhando algo em comum com as ideias que escutamos neste novo Transgressio Global.

Em meados dos anos 80 Lisboa vivia um tempo de desafio e de busca de novas ideias. Era expressão das consequências de uma normalização da vida política e consequentes manifestações na vida cultural, passada uma década sobre e revolução de 74 e a liberdade que devolveu ao ar que respiramos. Na música (em concreto os espaços da popular e de algumas expressões exploratórias “de vanguarda”l, como então se dizia), o Rock Rendez Vous afirmava-se como importante palco na linha das atenções de novas bandas que queriam ser apenas iguais a si mesmas e diferentes de todas as outras. O recentemente lançado semanário Blitz dava conta do que ia acontecendo. E o programa Som da Frente de António Sérgio (na Rádio Comercial) fazia ouvir não apenas a música que estimulava os novos criadores nacionais como as propostas que aqui iam emergindo. Os Pop Dell’Arte não foram os únicos a surgir neste clima de efervescente desafio à criatividade. Mas pelo modo como juntaram referências – de Warhol a Fassbinder, sem esquecer importantes movimentos da aurora do século XX – e souberam olhar sempre para além da linha do horizonte das formas e regras instituídas, não só lançaram bases para um corpo artístico ímpar como, pela longevidade (e já lá vão 35 anos), sublinharam a conquista de um lugar de relevo na história da música portuguesa.

O percurso dos Pop Dell’Arte envolveu processos (sempre atentos e inteligentes) de atenção por referências que não se esgotavam na música ao seu redor. Ideias, épocas, geografias, eram transgredidas em favor de novas criações. Experimentaram a arte do corte e da colagem, até mesmo o ready made. Cruzaram escolas de pensamento com manifestações de formas musicais que o tempo foi vendo emergir. Bissextos no calendário da apresentação de novos discos, o certo é que a cada um juntavam algo novo e sempre desafiante. Seja a 45 rotações, como quando nos deram a escutar Querelle, Sonhos Pop ou Illogik Plastic nos anos 80, ou no formato de álbum, num percurso iniciado em Free Pop, de 1987, que é um dos mais importantes discos da história da nossa música pop(ular). Seguiram-se Ready Made (1993), Sex Symbol (1995) e, após uma longa pausa (durante a qual surgiu o EP So Goodnight, a que João Peste chamava um “epá”, como quem diz “é pá, estamos cá”!), em 2010 apresentaram Contra Mundum. Todos diferentes entre si. Mas todos alicerçados em princípios comuns, firmes na arte de desafiar, de procurar uma voz própria, de expressar individualidade através da partilha (e assimulação ou citação) de experiências formadoras. Transgredindo os limites. Todos os limites…

Evocar este caminho é, no fundo, levantar uma série de características que, num tempo novo, com outros elementos em jogo, fazem de Transgressio Global um disco que é diferente dos anteriores, mas ao mesmo tempo um espaço ao qual naturalmente confluem modos de pensar e agir que há muito definiram uma identidade. Bem gravado e produzido (e o primor técnico é de apontar), com um conjunto impressionante de 21 temas na versão em CD (e vale apenas escutar o “extra” Drinking Wine in the Aventine, que ultrapassou o limite de tempo do suporte físico e por isso está apenas disponível na versão digital), Transgressio Global não esconde, ao fim de meia dúzia de compassos, que é dos Pop Dell’Arte a música que estamos a escutar. Porém, mesmo marcada por essa demarcada personalidade e por vezes visitada por formas que nos transportam a outras etapas da sua vida, esta música é absolutamente nova, indiscutivelmente do aqui e do agora. Ou seja, este disco não seria possível há 35 anos.

Transgressio Global é, no fundo, expressão de veterania. E veterania não é palavrão. É coisa que sabemos elogiar num Scott Walker ou David Bowie tardios, num David Byrne, Steve Reich, Bob Dylan ou num Nick Cave do presente, pelo que com o mesmo sentido de respeito pela solidez e dimensão da obra e pela constatação de criatividade ativa, podemos reconhecer também aqui essa noção de veterania. A “frescura” que depois trespassa e alimenta a veterania é aqui a forma de viver, observar e comentar o contexto em que a esta nova música emerge, como se escuta por exemplo em The King Of Europe ou Anominous, duas das canções literalmente mais políticas da obra dos Pop Dell’Arte ou nota em Style is The Answer (to Almost Everything), que reflete sobre como muitas das expressões artísticas atuais já conheceram maiores ousadias, notando como a moda continua, contudo, a transgredir. Lá está… a transgressão… E essa é sempre a medula viva do que se escuta aqui.

A ideia de veterania (e é curioso notar como há álbuns de veterania que representam momentos de criatividade bem aproveitada, desde Blackstar de Bowie a um The Raven de Lou Reed, um Ghosteen de Nick Cave ou Blemish de David Sylvian) traduz-se aqui na forma como o novo disco dos Pop Dell’ Arte parte de uma síntese de visões e explorações de criações anteriores, que o grupo assimila e integra na carne do processo criativo na hora de novas demandas, no processo de busca pela matéria prima para as novas transgressões. Os Pop Dell’Arte trouxeram sempre pedaços de outras artes e ecos de criadores à construção da sua música. Berlioz, Fassbinder, o 2001 de Kubrick (deliciosamente transgredido em 2002)… A ideia de uma música que é expressão de desafio, irreverência, que traduz inquietude, sonho, visão e liberdade, não desapareceu. Pelo contrário, ganhou ainda maior fulgor e autoconfiança. E chama desta vez palavras de Sophia, de Camões ou, recuando mais ainda no tempo, do romano Gaio Valério Catulo (autor de uma obra com presença marcante do erotismo e que, por exemplo, Carl Orff abordou na cantata Catulli Carmina) ou de Ovídio. Arvo Pärt e Foucault são citados momentos de colagens. De Apollo a Orfeu, passando por Vitor Jara (numa versão de El Derecho de Vivir em Paz), o alinhamento, que começa por nos colocar em Creta, transportando-nos até um encontro entre o Minotauro e Picasso em Lisboa, em 2084, é uma vigem pelo tempo e pelo espaço. Há momentos que procuram pontos de vista que não são os nossos (os de hoje e de aqui), como será disso exemplo o já citado Drinking Wine in the Aventine. Mas mesmo num jogo que cruza épocas e lugares, que coloca a cultura greco-romana num espaço comum com a arte da colagem, este é um disco que fala de nós. De política(s), de identidade(s), de referências, de sonhos. Fala do nosso presente (da utopia de um futuro melhor), ciente do lugar onde vivemos.

Transgressio Global é um disco que só podia ser feito pelos Pop Dell’Arte. Mas que só hoje os Pop Dell’Arte poderiam fazer. Nos antípodas do conformismo, aprenderam cedo a falar a linguagem da transgressão. Nunca a deixaram de usar. Mas hoje dominam os léxicos. E em Transgressio Global dão-nos o seu melhor álbum. Pode não exercer culturalmente o mesmo poder sísmico que Free Pop lançou sobre os edifícios da criação pop portuguesa em finais dos anos 80. Mas não deixa de ser o seu melhor disco. Resistir, já dizia o grande José Mário Branco, é vencer!

“Transgressio Global” está disponível em CD e nas plataformas digitais numa edição da Sony Music (a versão física é acompanhada, tal como em tempos o foi o CD de Sex Symbol, por uma coleção de autocolantes).

Três Tristes Tigres “Mínima Luz”

Há coisas que, de facto, fazem sentido… E depois de ouvir (e ler) as explicações da Ana Deus e do Alexandre Soares, tudo faz sentido… Vamos por partes. Da memória que temos sob o nome Três Tristes Tigres guardamos episódios marcantes (e sempre recomendáveis) do melhor que a música pop/rock mais inquieta e desafiante nos deu a escutar entre nós.

A obra é (ou antes, era até aqui) relativamente curta, mas os álbuns Guia Espiritual (1996) e Comum (1998) dificilmente ficariam de fora de uma lista com o que de melhor se fez entre nós nos anos 90. Mas chega de elogios ao passado, que é do presente que se fala. Quis o percurso dos dois músicos (e ambos têm um antes e um depois por caminhos seus) que se fizesse um silêncio. Houve depois um reencontro, e com Osso Vaidoso retomaram o gosto de explorar sons e palavras, embora num outro contexto estético. O tempo ditou outras vontades. E damos por nós em 2020 com um álbum que os volta a juntar. E num espaço que, de certa forma, é a encruzilhada onde se encontram as experiências que traziam tanto das memórias mais antigas como Três Tristes Tigres como as que mais recentemente tinham dado a carne ao Osso Vaidoso… A isto juntaram quem são hoje e o que procuram mais adiante… Assim nasce esta Mínima Luz. E faz sentido que assinem o disco como Três Tristes Tigres…

O caminho interrompido depois de Comum é aqui retomado num novo contexto, num novo tempo, mas com personagens comuns e um mesmo gosto por não se conformarem com o que antes já estava feito. Mínima Luz junta ecos da carnalidade elétrica e minimalista do Osso Vaidoso à vastidão de possibilidades que sempre caracterizou Três Tristes Tigres. E estando nesse território, naturalmente, voltam a ter peso as palavras de Regina Guimarães, que habita esta aventura desde a sua estreia, em Partes Sensíveis (em 1993). Pop exploratória? Sim, pode ser uma forma de a definirmos. Não como fruto do acaso. Mas como resultado de uma inquietude artística que procura, molda, encontra e desenvolve novas ideias. Nunca conformados. Nunca iguais. Ou seja, estamos em terreno Três Tristes Tigres. Tudo faz sentido…

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