Dez discos que definiram o meu gosto – Joana Gama

Cada disco pode contar várias histórias. E quem quiser mais do que ficar olhar para as capas pode agora ler aqui… Dez discos… e as respetivas histórias. E assim nasce o gosto de cada um. E hoje quem partilha aqui os seus dez discos e as respetivas memórias é a Joana Gama.

Foto: Vitorino Coragem

Mais do que pensar em “discos que definiram o meu gosto musical”, porque não sei o peso de cada um nessa ideia de “gosto musical”, ao fazer esta selecção pensei em que discos que entraram na minha vida e que, por razões diferentes, talvez mais emocionais que musicais, acabaram por ficar. 

Ornatos Violeta “O Monstro precisa de amigos”

(1999)

Quando o disco saiu eu tinha 16 anos e, como muitas adolescentes, vibrei com aquela música e aquelas letras. Passei muito tempo sem ouvir o disco mas há uns anos recuperei-o e , ainda hoje, de vez em quando, o oiço bem alto no carro, enquanto canto as letras, que ainda sei de cor.

Música de Franz Liszt interpretada por Lazar Berman “Années de pèlerinage” 

(1992)

Este disco foi fundamental na minha vida porque, para além da música e interpretação serem belíssimas, simbolizou para mim a possibilidade de diálogo entre a música e outras formas de arte. Fiquei fascinada ao saber que Liszt se tinha inspirado em quadros de pintores italianos, livros ou monumentos para compor algumas das peças deste ciclo. Na altura em que conheci este disco era aluna do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian em Braga e fui procurar as fontes primárias, o que simboliza o início de um interesse que me acompanha nos dias de hoje e que muito tem inspirado o meu trabalho.

Arnold Schoenberg pela Orquestra Filarmónica de Berlim “Verklärte Nacht”

(1985)

Consigo decorar alguma música mas em geral a minha memória não é muito boa. Não sei quem me falou deste disco, nem há quantos anos o tenho (há mais de 15, certamente) – considero-o uma preciosidade. A meu ver, em Verklärte Nacht  / Noite Transfigurada, Arnold Schoenberg chega a um ponto de expressividade e emoção que eram impossíveis de superar, nem sequer igualar, talvez por isso tenha decidido enveredar por outro estilo de composição. Também esta peça é inspirada num aspecto extra musical, neste caso um belíssimo poema de Richard Dehmel com o mesmo nome.

Dietrich Fischer-Dieskau & Gerald Moore “Die Schöne Müllerin” 

(1972)

Para mim, este ciclo, no timbre inconfundível de Dietrich Fischer-Dieskau, acompanhado por Gerald Moore, é um pequeno milagre.

Joanna MacGregor “Play” 

(2001)

Quando estudei na Royal Academy of Music em Londres soube que havia uma professora de piano lá na escola que tinha gostos musicais mais ecléticos que a norma. Tratava-se da pianista Joanna MacGregor que, com este seu álbum Play, com uma capa que parecia de um disco Pop, e com uma escolha de obras de ia de William Byrd a György Ligeti, passando por Astor Piazzolla, me mostrou esta possibilidade subversiva no seio da música clássica. Nessa altura (2001) eu ainda estava convencida que me ia focar no repertório canónico e não sonhava que a minha vida seria o que é…

Sakamoto e Alva Noto “Vrioon” Ryuichi

(2002)

Na altura em que ainda se copiava CDs, um amigo uma ofereceu-me este disco com direito a “bolacha” e capa feitas manualmente por ele. É um disco que adoro, que oiço de vez em quando, e que me abriu os horizontes para o formato de piano e electrónica (que viria a ser determinante uns anos depois a propósito da minha colaboração com o Luís Fernandes) e para o mundo de Sakamoto, um artista que admiro profundamente e cujos discos (nomeadamente 1996, Casa e Async) me acompanham.

Ali Farka Touré e Toumani Diabaté “In the Heart of the Moon”

(2005)

Apresentaram-me este disco quando saiu e volto a ele muitas vezes. Gosto da ideia de comunhão destes dois discretos gigantes e do ambiente plácido do disco. 

Federico Mompou “Complete Piano Works”

(2004)

Foi em 2008 que este disco me foi apresentado como “não sendo a interpretação mais perfeita, mas a mais especial”. Ao ouvir os quatro discos que a caixa contém, concordei em absoluto e desde então já a ofereci inúmeras vezes a amigos. Demasiado tímido para se assumir como pianista, Mompou dedicou-se à composição e é comovente pensar que gravou a sua obra completa em 1974, aos 81 anos. 

Bernardo Sassetti Trio “Motion”

(2010)

Comprei este disco numa feira no CCB, na edição dos Dias da Música onde toquei Satie em público pela primeira vez. Foi uma disco ao qual me afeiçoei e que já ouvi vezes sem conta. Estou certa que as três primeiras músicas vão tornar-se um clássico entre os pianistas, agora que as partituras estão a ser editadas pelo mpmp. Gosto do lado meio delirante do alinhamento e chamou-me a atenção a versão do trio da Canço VI de Federico Mompou, cuja versão original eu viria a tocar anos mais tarde.

Caetano Moreno Zeca Tom “Ofertório (ao vivo)”

(2018)

Este foi o disco que mais ouvi no verão passado, com a sorte de ter podido assistir a um concerto deles no Teatro Micaelense em Julho de 2019. É um disco muito bonito que me toca pela questão familiar, claro (um pai e os três filhos em palco, desta forma), mas também pelo alinhamento: naquelas letras e naquelas músicas está presente muita vida…

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