Ultravox “Vienna” (1980)

Depois das más notícias na reta final dos anos 70 – que passaram pela saída do vocalista e o fim de um acordo editorial – os Ultravox ganharam novo fôlego com a entrada em cena de Midge Ure. Editado a 11 de julho de 1980 “Vienna” mostrou serviço… Texto: Nuno Galopim

Formados em meados dos anos 70, procuravam espaços diferentes do que então a revolução punk lançava. Trabalharam com Brian Eno num primeiro álbum (Ultravox! editado em 1976), com Steve Lillywhite no primeiro e segundo, encontrando na faixa final desse HaHaHa (1977) –Hiroxima Mon Amour – um espaço de diálgo entre as guitarras e as (emergentes) electrónicas, talhand um rumo que exploraram mais profundamente em Systems of Romance (1978), que gravam sob produção de Conny Plank, figura referencial do krautrock (com passagem por nomes como os Cluster ou Can).

A falta de resultados fez com que a editora colocasse um ponto final no seu relacionamento. Auto-financiaram uma digressão americana, mas depois do último concerto cada qual seguiu o seu caminho. É então que acontece a saída do vocalista (John Foxx, que encetaria carreira a solo, editando um primeiro álbum em nome próprio em 1980) e do guitarrista (Robin Simon ocupara o lugar nos tempos de Systems of Romance, deixando o resto do grupo – Billy Currie (teclas), Chris Cross (baixo) e Warren Cann (bateria) – sem um futuro nítido pela sua frente. E assim, em inícios de 1979, uma tabuleta de fim de linha parecia levantar-se frente aos Ultravox. Robert Simon juntou-se pouco depois aos Magazine. O teclista Billy Curry foi trabalhar com Gary Numan, o baterista Warren Caan com Zaine Griff e em sessões dos Buggles e o baixista Chris Cross associa-se a vários projectos, um dos quais os Visage (ideia de Steve Strange e Rusty Egan, figuras da noite londrina que então teciam as visões do que em breve seria a vaga new romantic). É aí que conhece Midge Ure, cantor e guitarrista que havia já passado pelos Silk e Rich Kids e que, na época, tocava também com os Thin Lizzy… Ure, um admirador da obra do grupo (em particular do álbum Systems of Romance), revela então ser a força que reagrupa os Ultravox, com Currie, Cann e Cross.

         Agora em quarteto e com um caminho focado (que surge em natural descendência do álbum de 1978) os Ultravox retomam o contacto com Conny Plank, aprofundando o trabalho de ligação de heranças pop/rock às potencialidades melódicas e cénicas (chamavam-lhe “atmosféricas”) dos sintelizadores. O contexto de época, a imagem que adotam e a eventual ligação aos Visage acaba por associá-los ao espaço new romantic, sendo que talvez tenham representado nessa etapa, juntamente dos os Duran Duran, a frente com mais ambições arty do “movimento”, procurando um terreno ocasionalmente mais experimental (sem nunca sair das fronteiras da pop) do que contemporâneos como os Spandau Ballet ou Classix Nouveaux, que formavam então, juntamente com os Visage, o núcleo mais visível do movimento.

Vienna, primeiro álbum de uma nova etapa na vida dos Ultravox (que manteriam esta formação até 1987, havendo mais tarde uma reunião) revela a já citada emergente atenção pelos sintetizadores, mas não nega um igual protagonismo a um melodismo new wave para guitarras. E canções como All Stood Still ou New Europeans são claro exemplo deste diálogo. A proximidade com os Visage (que não deixam de ser um caldeirão de referências estéticas nesse momento) nota-se em Passing Strangers. Sleepwalk, animado pelas eletrónicas, foi um natural (e bem escolhido) single de apresentação. Mas foi sem surpresa a ponte entre ecos classicistas e um futurismo em modo cold wave, que se escutava no tema-título, que deu ao álbum o passaporte para se transformar num êxito, alicerçando então um trabalho que teria continuação direta no álbum Rage in Eden (1981) e depois alargaria horizontes a outras demandas nos seguintes Quartet (1982), Lament (1984) e U-Vox (1986). A ligação a Conny Plank e ao evidente interesse pelo krautrock nota-se em momentos menos mediatizados do disco como o são o “frio” Mr. X (que teve inclusivamente uma versão em alemão como Herr X) ou o instrumental Astradyne que abre o alinhamento.

Quarenta anos depois Vienna não só é um dos discos de referência dos Ultravox (talvez dispute com Rage In Eden o lugar de álbum mais representativo da obra do grupo) como ganhou estatuto como um clássico do seu tempo. O que era o mundo numa viragem de década, talhado num confronto entre o desejo de um futuro diferente (e melhor) que não era garantido, mas ao menos sonhado, e um presente tenso e sombrio, tem aqui um dos seus grandes retratos.

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