A ambiciosa aventura ‘sci-fi’ dos Duran Duran ajuda a contar a história da criação de imagens na era do vídeo

Lançado em 1985 em cassete VHS, o filme “Arena – an Absurd Notion”, de Russel Mulcahy pode não ser uma obra prima do cinema. Mas é um exemplo de como a criação de imagens procurava desafios de grande investimento na era da afirmação do vídeo. Texto: Nuno Galopim

Apesar de algumas experiências anteriores, é na alvorada da década de 80 que a criação de pequenos filmes surge como uma ferramenta prioritária para a promoção de cada novo disco e comunicação alargada da imagem do respetivo artista. Se o aparecimento da MTV e de espaços para exibição de telediscos abrem uma frente de possibilidades, entre as consequências diretas da nova criação de imagens está o aparecimento de oferta de mercado num novo formato: a cassete vídeo. Entre as primeiras edições musicais destinadas ao mercado de vídeo começam por surgir coleções de telediscos usados para promover os singles e, sem surpresa, gravações de concertos ao vivo… Há porém quem deseje ir mais longe. Os Duran Duran investem na criação de telediscos não apenas para os singles mas também para canções dos seus dois primeiros álbuns, e o vídeo a que chamam simplesmente Duran Duran (editado em 1983) deixa claro o potencial que ali havia para explorar. Os Eutrythmics optam por um modelo que junta igualmente mais do que apenas os telediscos quando lançam o vídeo Sweet Dreams (também em 1983). Mas pouco depois vemos Michael Jackson a fazer de Thriller mais do que apenas um teledisco… Era um pequeno filme de ficção… E é neste clima que surge a ideia de fazer do registo da digressão Sing Blue Silver dos Duran Duran (que decorreu de finais de 1983 à primavera de 1984) mais do que apenas um filme-concerto. Na verdade, houve várias ideias nascidas do mesmo esforço de captação de imagens. Acompanhados por câmaras por todo o lado, os Duran Duran viram esse momento da sua vida fixado no documentário (e livro) Sing Blue Silver. No horizonte para finais de 1984 estava a edição de um álbum ao vivo (a que chamaram Arena) e até um jogo de tabuleiro (Into The Arena). Ao mesmo tempo avançava uma ideia mais ambiciosa. Os concertos em Oakland (EUA) em abril tinham sido filmados, acabando por gerar o especial de televisão As The Lights Go Down… Algumas dessas imagens, às quais se juntariam outras de maior fôlego, ambição (e orçamento menos ligeiro), seriam depois usadas num projeto de filme. Que, ao contrário do que era a lógica dos filmes com músicos pop dos tempos dos Beatles ou Cliff Richard, não seria destinado às salas de cinema… mas ao circuito de vídeo.

         Chamaram então Russel Mulcahy, o realizador australiano que com eles tinha já criado Planet Earth (1981), My Own Way (1981), as imagens icónicas captadas nas viagens “tropicais” entre Antígua e o Sri Lanka que tinham gerado os telediscos de Hungry Like The Wolf, Save a Prayer ou Rio e, depois, Is There Something I Should Know e Union of The Snake, em 1983. A ideia era a de fazer do filme-concerto parte de uma trama que encontrava a sua razão de ser num reencontro com a personagem do filme Barbarella (de Roger Vadim) que tinha gerado o nome da banda. Banido pelas suas ações na trama de Barbarella, Durand Durand, inventor do raio positrónico, regressava à Terra, sendo aí confrontado com a existência de alguém que lhe usa o nome… E resolve então fazer o possível para lhes dar… uma lição.

         Chamaram Milo O’Shea, o ator que vestira a pele de Durand Durand em Barbarella e, num ambiente sci-fi sinistro, vemo-lo a chegar à Terra, a encontrar uma banda com o seu nome a tocar e, canção após canção, tenta encontrar modos de sabotar os músicos. O filme, Arena – an Absurd Notion apresenta uma ideia de filme-concerto com trama a unir as canções, muitas delas apresentadas cruzando as imagens captadas em Oakland com outras entretanto captadas para se sobrepor ao mundo real. Aí entra uma ideia que surgiu do facto de a digressão ter sido das primeiras a usar um ecrã de vídeo sobre o palco. Assim, além das tentativas de ataque de Durand (e seus operacionais) e das imagens de palco, há “inserts” que acontecem num plano virtual, o do mundo do vídeo, que ali surge como um espaço para além da realidade.

         O melhor do filme corresponde ao momento em que se escuta The Wild Boys, correspondendo a sequência a uma versão longa do teledisco (usando como banda sonora a remistura do máxi-single). E aqui temos um exemplo de grande investimento ao serviço de um teledisco, juntando um importante trabalho de cenografia, coreografia e criação de guarda-roupa que a realização usa para dar corpo a uma canção. Os cinco elementos do grupo são apresentados como figuras em perigo num mundo sombrio e desencantado. Houvesse GIFs na altura e a imagem de Simon Le Bon atado às pás de um moinho teria andado por aí…

         Trinta e seis anos depois, sem um trabalho de restauro maior (houve apenas uma transcrição para DVD), o filme não esconde marcas de tempo. Contudo é esse talvez o seu maior valor numa perspetiva a partir do nosso presente. Convenhamos que As The Lights Go Down servia bem o documento de palco desta digressão. E mesmo sem uma trama a suportar as imagens, o cruzamento de um concerto com a visão de um realizador (David Lynch) em Duran Duran Unstaged é cinematograficamente mais interessante.  Arena – an Absurd Notion (editado em cassete VHS em 1985) é uma memória que traduz contudo o que o sucesso (ou seja a possibilidade de ter um bom orçamento) e o desejo de explorar novas possibilidades para as imagens ao serviço da música podiam gerar em meados dos anos 80… Três anos depois os U2 mostravam, com Rattle & Hum que o cinema, afinal, ainda tinham espaço para a música… Arena – an Absurd Notion não conheceu, contudo, nenhuma outra concorrência na mesma ordem de ambição. Vale a pena, por isso mesmo, ficar com este filme como uma referência para a história das imagens daquele tempo. Tal como o ficaram alguns filmes da génese da cultura rock’n’roll. Podem não ser momentos de cinefilia gourmet… Mas ajudam a contar o que foram momentos de relacionamento da música com a criação de imagens.

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