José Moças

Colecionador e editor discográfico (é sua editora Tradisom), José Moças alia o entusiasmo de ser melómano ao trabalho de todos os dias. Hoje apresenta-nos a sua coleção na qual, uma vez mais, o trabalho se dilui com o gosto pela música e pelos discos.

Qual foi o primeiro disco que compraste?

Bom, já lá vão muitos anos, mas penso que se não foi o primeiro foi um dos primeiros, o EP “A Lenda de El-Rei D. Sebastião, editado em 1967, tinha eu 15 anos. Foi nessa altura que comecei a despertar para a música, para os Beatles.

E o mais recente…

O mais recente chegou hoje e foi por isso que comecei a escrever. Foi uma compra que fiz, na sequência de umas pesquisas que tenho estado a fazer sobre as gravações de música cabo-verdiana das primeiras décadas do século XX. O CD inclui um tema interpretado pelo grupo “Abrew’s Portuguese Instrumental Trio” (que na verdade era composto por cidadãos nascidos em Cabo Verde, mas na altura considerados portugueses), que tocam “Cabo Verdeanos Peça Nove”.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

A principal coleção da minha editora Tradisom são os discos de 78 rotações, mas apenas os portugueses. Durante muitos anos fui comprando tudo o que encontrava, mesmo que fossem repetidos, pois havia sempre a possibilidade de encontrarmos exemplares em melhores condições do que aqueles que já possuíamos. Actualmente já deixei esse vício, adquirindo apenas um ou outro que não tenha na minha coleção, mas que simultaneamente seja de uma editora mais invulgar ou das duas primeiras décadas.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Neste momento não tenho nenhum em especial.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

Trata-se do álbum homónimo dos Fotheringay com a Sandy Denny e os elementos dos Fairpoint Convention, já que tinha emprestado esse LP a alguém quer nunca o devolveu há muitos anos. Nunca mais o tinha encontrado em perfeito estado, o que aconteceu há um mês atrás. Apesar de o ter em CD, tal como o Fotheringay 2, queria o LP original de 1970!

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Para um colecionador como eu não tinha nenhum limite estabelecido, ainda que seja racional e cauteloso nas loucuras! Mas já fiz algumas, Por exemplo para completar a coleção dos discos de serapilheira do Michel Giaciometti dos Arquivos Sonoros Portugueses paguei 500 euros pelo que me faltava!

Lojas de eleição em Portugal… 

Sou mais comprador online nos sítios da especialidade. Uma das outras coleções que a Tradisom foi adquirindo ao longo das últimas décadas, além da que já referi dos discos de 78 rotações, são os discos de vinil da Amália Rodrigues. Com a ajuda do meu grande amigo e especialista ma discografia da Amália, Ramiro Guinazu – com quem quem editei o livro Amália no Mundo, que nos conta a história dos discos editados em todo o mundo da grande intérprete portuguesa – fui adquirindo dezenas e dezenas de discos, alguns deles muito raros e que este ano irão ser apresentados numa exposição intitulada igualmente Amália no Mundo, se entretanto a situação que vivemos o permitir.

Ter uma editora abre outro tipo de oportunidades de contacto nacional e até mesmo internacional a um colecionador?

Sem dúvida. Conheci muitos outros colecionadores, o principal dos quais o tal Bruce Bastin, dono da importante coleção que veio para Portugal e que teve uma das editoras mais prestigiadas do mundo na divulgação de gravações do início do século, já que tinha mais de 100.000 discos na sua sede, que tive a oportunidade de visitar da primeira vez que o conheci. Mas há outros, especialmente no Brasil.

Como te manténs informado sobre discos que te possam interessar como colecionador?

Há sempre troca de informações, pois mantemo-nos em permanente contacto, em especial o grupo a que pertenço em Portugal. Não somos muitos, mas acredito temos entre nós uma grande parte do que foi editado em Portugal, no que se refere às primeiras cinco décadas do séc. XX.

Que formatos tens representados na coleção? 

Digamos que é a Tradisom que tem suportado financeiramente as coleções que vou adquirindo.

São três as mais importantes:

1. A principal é a dos discos de 78 rotações, só portugueses, composta por cerca de 6500 discos.

2. A segunda é de LPs e CDs de música tradicional de todo o mundo. Serão uns 500 LP e cerca de 3000 CDs, que abrangem todos os continentes, com especial destaque para a Europa e a Ásia.

3. A dos LPs e EPs de Amália Rodrigues, que serão cerca de 500 no total.

Os artistas de quem mais discos tens?

Há vários nomes de que tenho tudo (penso eu) e posso citar Chieftains, Vangelis Papathanassiou, também os discos dele com Jon Anderson, José Afonso, Fausto Bordalo Dias, para citar os mais importantes.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Há uma editora norte-americana que conheci há alguns anos e que faz edições absolutamente fantásticas, na área das gravações históricas do início do séc. XX e que deixam água na boca sempre que recebo uma. Trata-se da DTD, ou seja DUST TO DIGITAL. O nome diz tudo e em 2019 ganharam o Grammy para Melhor Álbum Histórico, cuja cerimónia podem ver aqui.

Uma capa preferida

Difícil a escolha, mas opto por uma edição minha, porque adoro as ilustrações do Pedro Sousa Pereira, meu companheiro de muitos anos, com quem certamente ainda farei muitas edições.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Não é uma escolha fácil, mas se calhar qualquer um da Mari Boine Persen, talvez pouco conhecida do grande público, não só pela difícil linguagem musical que utiliza, nas suas canções, mas também pelo dialecto sami que privilegia nas suas interpretações. Mas proponho o seu Goaskinviellja (Eagle Brother) de 1993.

Como tens arrumados os discos?

A coleção de discos de 78 rotações (quase 7000 e só portugueses) está devidamente organizada e sistematizada em excel. A dos discos de vinil da Amália (mais de 500) também está toda catalogada. O resto está em armários, mas sem catalogação possível, por mera falta de tempo!

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Não existe um nome nessas condições, mas sempre que descubro alguém que desconhecia completamente e que me entusiasma à primeira audição, procuro adquirir a maioria da sua discografia, ouvindo primeiro no Spotify!

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Nunca me aconteceu, tenho um ouvido treinado deste os tempos do Coro da Juventude e dificilmente mudo de opinião com o tempo.

Ter uma editora abre outro tipo de oportunidades a um colecionador?

 Completamente, porque em determinadas situações, e isso tem sido frequente comigo, sou muitas vezes “obrigado” a fazer pesquisas e a adquirir imensos discos de um determinado “género” “ou artista” para estruturar uma ideia.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história?

Ainda vivia em Macau, terá sido em 1990/91, quando em viagem de férias para Portugal, fiz stop em Londres para fazer as minhas habituais compras musicais na HMV. Deparei-me com um disco intitulado “Fados from Portugal” 1919/31. Nem sequer sabia que havia gravações dessa altura, nem conhecia nada de fado. Surpresa total, adorei o disco e quando regressei a Macau contactei o editor chamado Bruce Bastin. E foi assim que começou a odisseia de trazer para Portugal aquele   conjunto de discos de 78 rotações, propriedade do mesmo cidadão inglês, que acabou por revelar muita informação desconhecida até então, de enorme utilidade para a Candidatura do Fado a Património Imaterial da Unesco.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Sem nenhuma hesitação FOTHERINGAY!

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