Todos sentimos a falta do Zé Pedro

Depois da estreia no DocLisboa, chega agora às salas de cinema o documentário “Zé Pedro Rock’N’Roll”, que procura desenhar um retrato que vai muito para lá da dimensão do músico que todos conhecíamos. Há muita saudade entre estas memórias. Texto: Nuno Galopim

Não me lembro de o ver senão com um sorriso que convidava sempre a conversar. E não havia encontro que começasse ou acabasse sem um grande abraço. Falávamos sempre sobre discos… E curiosamente mais dos discos dos outros do que daqueles que ele fazia… O Zé Pedro gostava de falar da música que ouvia. E não foi por acaso que o jornalismo escrito e o trabalho de divulgação em rádio passaram também pelos seus dias na Terra. Mas na hora de fazer a sua música e de pensar estratégias para a apresentar era obstinado ou até mesmo teimoso, como dizem os velhos companheiros dos Xutos & Pontapés. Era focado, sabia para onde queria e onde podia chegar… De resto foi ele quem, muito antes de o país cantar as canções da banda, disse ao baterista Kalú que um dia os Xutos & Pontapés fariam a primeira parte dos Rolling Stones (e assim foi).

O seu desaparecimento, demasiado cedo, em 2017, deixou um vazio que ainda não se rendeu ao silêncio. Diogo Varela Silva conheceu-o há já largos anos e apresenta em Zé Pedro Rock’Roll (documentário que teve estreia na edição de 2019 do DocLisboa) uma série de momentos que deixam claro porque o silêncio não avançou. O filme não é uma história dos Xutos, se bem que a história dos Xutos o atravesse de fio a pavio. Socorrendo-se de fotografias e filmes de família, imagens de arquivo e uma série de contribuições daqueles com ele viveram e trabalharam, o filme desenha um retrato de alguém que não era apenas um ícone do rock português. Era o Zé Pedro. E quando tratamos alguém assim pelo nome próprio (como o fazemos com Amália), e logo a menção sugere familiaridade e boas memórias, é porque, mais do que um ícone, era alguém que fazia também (e ainda faz) parte de nós.

Todos sentimos falta do Zé Pedro, digo no título… E por isso creio que todos nos identificaremos com as memórias e imagens que passam por aqui. A propósito da chegada às salas de cinema de Zé Pedro Rock’N’Roll, troquei umas palavras com o realizador Diogo Varela Silva…

Já conhecias o Zé Pedro… Como se conheceram, como conviveram e o que te levou a fazer este filme sobre ele?

Conheci o Zé Pedro quando ele começou a namorar com a minha tia Mizé. Nessa altura ele veio viver com ela para casa da minha avó (Celeste Rodrigues), onde vivíamos todos. A primeira morada dos Xutos, para contractos, era a da nossa casa. Aí o Zé Pedro, passou a ser o tio Zepas. A relação deles acabou, mas sempre ficámos muito próximos, ficou para sempre o tio Zepas. O Zé Pedro, foi um dos meus melhores amigos, teve uma importância muito grande na minha vida, graças a ele, e ao olhar atento dele, houve muita asneira que não fiz. Este filme serviu-me como uma base para melhor arrumar a sua falta, a perda de um grande amigo. Foi um processo para uma aprendizagem de melhor gerir a falta que ele me faz.

O que descobriste do Zé que não conhecesses ainda ao fazer este filme?

Na verdade, nada, a única coisa que percebi é que não está nada fácil gerir a saudade.

Os filmes, as fotos e as memórias de família são aqui uma peça fundamental para alargar o retrato para além do músico. Já havia uma memória escrita por uma das irmãs… Mas como lidaram todos eles com este projeto?

Todos eles foram muito importantes para este filme, todas as famílias do Zé Pedro foram importantes, dos irmãos e sobrinhos Santos Reis, à Cristina, sua mulher, ou aos Xutos. Todos foram parte muito importante, pela abertura e ajuda que deram, e especialmente pela partilha dos arquivos que cada um tinha. Não foi, como poderás calcular, um processo fácil. ter que mexer nos arquivos, trás à memória muitas lembranças e desarruma-nos as emoções, mexe connosco e com as saudades que cada um tem. O filme conseguiu aqui alguns inéditos, coisas de infância que estavam filmadas em super 8 e que eu recuperei, digitalizei para o filme.

Há uma construção de diálogos de memórias de arquivo com as novas entrevistas. Por onde começaste? Com a recolha de arquivos ou com a de novos depoimentos?

Fiz um trabalho exaustivo de recolha de arquivo, muito antes de começar a filmar. quando filmámos, já tinha estruturado por onde queria ir, muito com base nos arquivos que tinha conseguido arranjar.

Era importante mostrar mais do que o trabalho nos Xutos & Pontapés. E é isso o que o filme faz… O lado de colecionador do Zé Pedro e o gosto que tinha em falar dos discos dos outros eram uma característica importante da sua personalidade?

Claro que eram, essa é grande parte da razão, pela qual o Zé Pedro era o que era. Muito antes de ser músico e talvez até acima de ser músico ele era um melónamo. O Zepas estava sempre a par de tudo o que aparecia, as novas bandas, os novos sons, tudo o que tivesse a ver com a cena musical. Muitas das bandas que se tornaram famosas, eu ouvi pela primeira vez por intermédio dele.

Sente-se em todos um desconforto ainda quando falam do seu desaparecimento… Crês que a perda era ainda uma dor não resolvida, sobretudo entre os antigos companheiros de banda?

Sinto que era e é.  O Zé Pedro era uma peça fundamental na vida de todos nós.  

O que faz um ícone? E porque podemos dizer que o Zé Pedro era um?

Não acredito que haja uma receita concreta para isso, acho que é um enorme conjunto de factores que se sintonizam para que isso aconteça. No caso do Zé Pedro, acho que em grande parte se deve à boa onda e carisma que dele emanava, à sua capacidade de nunca ter deixado de ser ele próprio um fã e á sua enorme humildade. Não conheço ninguém que não simpatizasse com ele.

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