David Fonseca aproveita o verão para mergulhar entre o seu arquivo… e regressa com um disco

David Fonseca apresenta hoje “Lost and Found – B Sides and Rarities” um disco (para já apenas disponível em formato digital) no qual reune uma série de gravações de um vasto arquivo pessoal que poderá ainda gerar mais surpresas no futuro. Texto: Nuno Galopim

Os arquivos estão cheios de tesouros. Muitas vezes só os descobrimos depois de os artistas nos terem deixado… Está a ser assim com Prince, com Bowie, com Amália… E a coisa não é exclusivo da música, já que assim aconteceu com Fernando Pessoa, de resto… É por isso duplamente saboroso quando a partilha do que estava guardado acontece a tempo de dar “vida” de facto a essas gravações. É o que está a acontecer com a Bootleg Series de Bob Dylan. Foi o que aconteceu quando descobrimos o que havia nos baús dos Prefab Sprout… De concertos ao vivo a maquetes, de ensaios em busca da forma final das canções a inéditos que ali por vezes ficam guardados pelas mais variadas razões (mas sem ordem para chegar a disco), há nos arquivos tesouros que nos permitem conhecer melhor as obras, os processos criativos, até mesmo demandas que acabaram por ficar inacabadas ou mesmo abandonadas…

David Fonseca apresenta hoje um disco com material que tinha guardado no seu arquivo. Há aqui um pouco de tudo (tanto em inglês como em português)… E sobretudo para nós, que o acompanhamos, a constatação de que, apesar de não terem integrado o alinhamento dos seus álbuns, há aqui canções tão boas quanto as que oficialmente já fixou em disco. Editado num ano peculiar na história de todos nós (e não apenas da música), Lost and Found – B Sides and Rarities acaba por traduzir também sinais dos tempos. Não será um compasso de espera, mas antes um momento para respirar e saborear algo que, se para os admiradores mais atentos ao músico eram já móveis lá de casa, para muitos outros traz o sabor da descoberta. E atenção que há aqui canções num patamar de acabamento de exigência idêntica à quem um álbum “de estúdio” habitualmente pede. Lost and Found – B Sides and Rarities é para saborear… E depois não só esperar por eventual edição em suporte físico e, porque não, uma vida ao vivo para estas canções… Ficamos à espera de mais mergulhos neste arquivo… E que bom seria que outros músicos e bandas aqui do burgo seguissem agora este exemplo.

Para apresentar o disco troquei umas palavras com o David Fonseca. Aqui fica o registo dessa conversa.

Além dos lados B, que raridades são estas que agora nos apresentas? E porque achaste que este seria o momento ideal para juntar estes temas num só disco?

Desde 2009 que produzimos discos para a comunidade do Amazing Cats Club, um clube de fãs à antiga. Alguns destes temas passaram por esses discos e não estavam disponíveis em mais lado nenhum. Outros são temas soltos que apenas apareceram em vídeos de YouTube ou edições extra de discos já há muito esgotadas. Nunca fui um músico de retrospectivas, nem sequer um “best of” tenho na minha discografia, mas atraiu-me a ideia de fazer algo de novo com algo que nunca tinha estado na esfera mais pública. E como vivemos estes tempos incertos, de uma certa pausa imposta, compreendi-o como uma oportunidade para lançar um olhar para trás e para o que tinha ficado esquecido na poeira.

O que guardas em arquivo? Sessões em estúdio, ensaios, maquetes, gravações ao vivo? Versões?

O meu arquivo é enorme e tem um pouco de tudo. A vantagem de gravar de forma cada vez mais caseira aumentou o volume de canções, experiências, possibilidades. Tudo o que descreves na pergunta está presente no meu arquivo e muito mais. Versões, há um mar delas, é quase um passatempo meu. No entanto, eu olho para esse arquivo com alguma desconfiança. Há uma razão para muito deste material nunca ter visto a luz do dia, provavelmente grande parte dele não se qualifica para tal. No entanto, nunca mergulhei nele com esse intuito, nem eu sei bem o que estará por lá. 

A coleção de versões não natalícias que tens apresentado nos CDs da Castle of The Amazing Cats justificaria um disco como este?

Talvez, são muitas as canções que já abordei e quem sabe se um dia não me dedico a uma edição dessas. Mas que para tal não tenha de acontecer uma pandemia. De pandemias estamos todos fartos.

No tempo das bobines havia até takes alternativos que nos permitiam (re)descobrir o processo criativo das próprias canções. No presente em que as gravações digitais tendem a fixar apenas a versão final, achas que esse tipo de memória de arquivo pode ficar apenas como um “tesouro” dos discos gravados nesses tempos? Ou há ainda takes alternativos?…

Quase não tenho takes alternativos. Talvez nos primeiro discos eles possam existir, no tempo dos Silence 4 ainda chegámos a gravar em fita. Mas hoje isso raramente acontece. E raramente tocamos simultaneamente como uma banda em estúdio. Acho que a última vez que gravei assim foi em 2005 com o disco “Our Hearts Will Beat As One” e numa ou outra ocasião, mas é cada vez mais raro.

És consumidor destas reedições com extras e inéditos que têm saído com alguma regularidade nos últimos anos. Que artistas têm gerado edições de arquivo mais interessantes, a teu ver?

Acho que acompanhei mais fervorosamente as reedições de bandas que seguia mais atentamente. Adorei ouvir as maquetes simplistas de Black Francis com as canções dos Pixies; os diversos takes dos Beach Boys e Beatles para chegarem à canção; os temas extra dos This Mortal Coil; as versões acústicas dos Prefab Sprout entre outras.

Esta é apenas uma edição digital. Satisfaz-te que assim resolva a sua identidade ou sentes a necessidade de, sendo possível, dar-lhe depois uma materialidade em suporte físico?

Por mim, todos os discos teriam suporte físico. Acho que é a segunda vez que faço um disco apenas em formato digital, mas prefiro que existam no mundo real, talvez por lhes conferir algum espaço no planeta, na prateleira, nas mãos de quem o ouve. Há uma ligação física que tem uma influência na forma como também se ouve a música.

O que tens feito nestes tempos de pandemia e como imaginas o teu futuro próximo?

Tenho feito muita música e tenho-me dedicado a outras áreas artísticas que me interessam. Vou acompanhando o que se vai fazendo no cinema e na televisão (cada vez a roubar mais espaço ao cinema com propostas verdadeiramente interessantes) e leio sempre que posso. Proximamente imagino-me a fazer mais música mas também a dedicar mais tempo a projectos que foram ficando para trás no tempo e que agora tenho alguma liberdade para fazer. E espero voltar aos palcos brevemente, claro.

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