Um reencontro com os primeiros passos de PJ Harvey

Uma série de reedições e novos lançamentos de arquivo de PJ Harvey começa por nos levar aos dias em que se estreou, sob grande aclamação, com o álbum “Dry”. O disco, lançado em 1992, é reeditado ao mesmo que surge um álbum com maquetes desse período. Texto: Nuno Galopim

Há estreias que começam de forma certa no momento certo e sob a aclamação certa… Assim foi com PJ Harvey. Ela, Polly Jean Harvey, tinha nascido e crescido em ambiente rural. Os pais gostavam de música, tinham discos de Dylan, Zappa ou John Lee Hooker, entre outros, e gostavam de dar guarida aos músicos que passavam pela região. A música tornou-se cedo uma arma contra alguma instabilidade emocional e a relativa falta de escapes do mundo ao seu redor. Teve um saxofone aos 11 anos, pouco depois uma guitarra, tocou em bandas locais e fez versões dos Cure e Dylan e integrou pequenos grupos de música folk… Todos eses estímulos talvez tenham ajudado a moldar uma personalidade que começou a ser notada mais longe de casa quando, aos 21 anos, e numa altura em que estudava numa escola de arte e design em Dorset, a sua música chegou a outros ouvidos. Editado em 1991 pela Too Pure, o EP de estreia Dress cativou a atenção de John Peel. E este, por sua vez, alertou a imprensa musical. PJ Harvey na verdade era então um trio, que a Polly Jean juntava ainda o baixista Ian Olliver e o baterista Rob Ellis. E quando Polly Jean surgiu como a força motriz do trio, já a sua história de vida se tinha cruzado com o futuro colaborador John Parish e com ele (e a sua banda Automatic Dlamini) feito uma digressão europeia em 1989, tendo colaborado no álbum Here Catch, Shouted His Father.

            A consciência da importância do labor em colaboração foi assim conduzida rumo à expressão de uma voz criativa. E entre o fulgor de quem dá primeiros passos em seu nome e a segurança que dois anos de vida entre a estrada e os estúdios lhe tinham dado, PJ Harvey estreia-se em álbum em 1992 com Dry, disco que não deixou ninguém indiferente e que acabou por surgir destacado em várias listas de “melhores do ano”, tal foi o tufão de entusiasmo que soprou sobretudo nas páginas da imprensa musical.

            É um disco minimalista nos recursos, mas vibrante e musculado nas ideias e nos sons. Carnal, mas sempre contido, valorizando a voz e as palavras em canções que não escondiam heranças que tanto tinham assimilado ecos da urgência do punk com genéticas mais profundas que chegavam dos velhos blues. As canções levantavam temárticas de género, olhando o corpo, o desejo, por vezes com inesperadas auluões bíblicas. Sublinhava ideias, vincando identidade. À intensidade das palavras (e da música) juntava depois, em palco, uma constrastante pose segura e contida. A força estava na mensagem.

            Gravado em sessões num estúdio londrino em finais de 1991, Dry teve como cartão de apresentação, em fevereiro de 1992, o single Sheela-Na-Gig. O álbum chegou em março, juntando dois temas do EP de 1991 e uma coleção de inéditos que tinham já passado pelos palcos no ano anterior e que revelavam horizontes não fechados para uma linguagem rock sem gosto por adornos de exuberância maior. Focada e intensa a música de PJ Harvey fez-se notar. E desde logo dava conta que uma autora maior estava ali a nascer.

            As canções de Dry assinalam agora o primeiro episódio de uma série de reencontros com a obra de PJ Harvey. A ideia é a de reeditar, um a um, os seus discos de estúdio, juntando ao mesmo tempo, como uma proposta companheira, a edição de um discos de maquetes diretamente ligadas ao álbum em questão. Assim se explica que estejam novamente nos escaparates das novidades não apenas o velho álbum Dry, mas também o novo Dry – Demos, conjunto que nos permite contemplar retratos destas canções em etapas anteriores às que as moldaram depois em estúdio. Se um minimalismo intencional conduzia já as versões finais, aqui as canções ão despidas à essência de uma relação da voz com as cordas de uma guitarra acústica, em alguns casos acolhendo a eletricidade. Mais do que um mergulho nas entranhas de um processo criativo (aí era necessário um dispositivo narrativo com mais exemplos intermédios), esta coleção de maqutes destaca sobretudo a solidez da composição. Um feito notável para quem dava então os seus primeiros passos.

“Dry” e “Dry – Demos”, de PJ Harvey, estão disponíveis em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Universal

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