Uma caixa para nos dar um olhar completo sobre a obra de Donna Summer

Uma caixa com 33 CD recupera na íntegra (com as capas originais) todos os discos de estúdio e álbuns ao vivo de Donna Summer, juntando ainda uma multidão de extras. Um retrato completo da história de uma voz que ajudou a dar vida global ao ‘disco’ nos anos 70 e que procurou trilhar caminhos pop a partir da década de 80. Texto: Nuno Galopim

Ficou na história como uma das grandes divas do disco sound e, de facto, devemos-lhe algumas criações fundamentais no processo de elevação a um patamar de grande visibilidade de um som que até ali caminhara em espaços relativamente fechados, porque habitados como porto seguro para algumas minorias na América da primeira metade dos anos 70. Mas a obra de Donna Summer não se esgota nos 45 rotações e nos respetivos álbuns que fizeram a diferença nos anos 70. Há que não esquecer os êxitos pop dos anos 80. E toda uma discografia que avançou no tempo, mesmo quando as atenções não lhe eram dadas na mesma escala de outrora. Antes de Madonna e Beyoncé foi não apenas uma figura marcante na relação da pop com a música de dança como uma voz capaz de levar de questões identitárias e sociais, debatendo por exemplo o papel da mulher na sociedade através de canções (She Works Hard For The Money é, aí, uma referência). Ao todo gravou 17 álbuns de estúdio, todos eles agora reunidos numa mesma caixa. Escutemo-los então, um a um, juntamente com os discos ao vivo que foi lançando, para obter um retrato mais fiel e completo do percurso da cantora.

         Nascida em Boston em 1948 começou a cantar na escola e passou por primeiras bandas antes de rumar a Nova Iorque com o sonho de trabalhar no palco de musicais. Acabou integrada no elenco de Hair que, em finais dos anos 60, rumou a Munique (Alemanha). E aí fixou residência e casou com o austríaco Helmuth Sommer. Gravou um primeiro primeiro single, ainda em 1968, com Aquarius, um dos hinos nascidos da banda sonora de Hair… Apresentava-se então como Donna Gaines (o seu nome real era, de facto LaDonna Adrian Gaines). Lançou mais alguns 45 rotações igualmente sem impacte maior. E a sorte mudou quando, numa altura em que trabalhava como modelo e era voz muitas vezes chamada a estúdio, conheceu os produtores Giorgio Moroder e Peter Bellotte. De um trabalho conjunto nasceu a ideia de um disco. E foi por um erro na gráfica que então emergiu o seu nome artístico. O “o” de Sommer deu lugar a um “u”. O disco foi assim assinado por Donna Summer. Pelo menos é assim que a mitologia evoca a história do seu nome.

O álbum de estreia de Donna Summer foi editado em 1974. Tem por título Lady Of The Night e revela ainda uma noção pouco nítida do que poderia ser um rumo para a sua carreira. Apesar de algum impacte de The Hostage, uma canção que sugeria o tom de um thriller policial, mas com sabor a musical de palco, o disco passou longe das atenções. Há ali um cockatil de ideias, que vão do tom teatral de Lady Of The Night à folk de Domino e, na verdade faz do álbum uma experiência mais próxima dos terrenos da canção ligeira (até mesmo eurovisiva) do que dos caminhos que, pouco depois, os seus discos acabariam por mostrar.

Os primeiros sinais de mudança emergiram no álbum seguinte. Editado em 1975 o álbum Love To Love You Baby revelou uma realidade com duas faces. O lado A apresentava, através do tema título, uma proposta desafiante com apenas uma canção de quase 17 minutos que preenchia toda essa face do disco. Animada por sinais captados entre o emergente disco e definindo um ambiente funk mais mellow do que intenso, a canção encontrava, todavia, o seu fulgor e poder de atração num espaço teatralizado pelas sugestões eróticas lançadas pela voz sussurrada de Donna Summer. O lado B traduzia, por sua vez, uma dispersão maior de ideias, desde canções sem um cunho demarcado (na linha do álbum de estreia, portanto), até um Need a Man Blues que aliava os sabores disco a primeiras relações com eletrónicas.

Editado em 1976, A Love Trilogy refletia já a tomada de consciência de que o disco devia ser um caminho prioritário para afirmação da identidade (e visibilidade) de Donna Summer. A extensão invulgarmente longa de Love To Love You Baby (que prenunciava um pragmatismo ao serviço da pista de dança que brevemente ganharia forma nos máxi-singles) teve por sequela Try Me, I Know We Can Make It que, com praticamente 18 minutos de duração, ocupava uma vez mais toda uma das faces do LP. Donna Summer, que no álbum anterior surgira como co-autora (juntamente com Moroder e Bellotte) do tema-título que entretanto dera que falar, surgia ali creditada em todas as faixas, estabelecendo assim uma etapa de mais profunda parceria criativa. Try Me, I Know We Can Make It assume claramente uma matriz disco “clássica”, destacando o sabor dos arranjos para uma secção de cordas (ao jeito da genética que o precede), conciliando contudo o mapa de sons com uma presença, ainda discreta, de sintetizadores (via Moroder) que, mesmo de forma ainda distante do protagonismo que em breve entraria em cena, já se manifestam (como de resto o tinham feito em Need a Man Blues). Na contracapa surge a ideia de uma presença de uma “Munich Machine” como parceira principal da voz, o que acentua uma noção de precisão maquinal, diferente, portanto, da que pouco depois ficaria fixada na história com o conceito “die mensch-maschine” (o homem-máquina) defendido pelos Kraftwerk. A face B do disco abre com um prelúdio que nos faz desaguar diretamente em Could It Be Magic, canção que (como algumas dos Abba do seu tempo) abre pontes entre as formas da pop e o disco. Sem surpresa Could It Be Magic foi lançado como single, ao invés do bem mais contagiante Wasted, usado apenas como lado B de um edit de Try Me, I Know We Can Make It (com pouco mais de 4 minutos) que foi lançado num outro 45 rotações.

Segundo álbum editado em 1976, e uma vez mais assinado pela mesma equipa criativa, Four Seasons of Love apresentava uma proposta concetual que traduzia uma história de amor ao longo das quatro estações do ano. O disco, de resto, era originalmente acompanhado por um calendário (com fotos de Donna Summer alusivas às estações do ano). O alinhamento vive quase todo ele nos territórios do disco (salvo no momento mais melancólico de Winter Melody) mas evita, como nos dois álbuns anteriores, apresentar um tema que domine toda uma face do vinil. Os quatro temas (mais uma reprise de Spring Affair que fecha o lado B) são todos eles extensos e sugerem uma vez mais um pragmatismo para pista de dança. Todas as faixas estão unidas, sem pausas entre si, o que vinca a noção de narrativa continuada. Apesar do maior fulgor de Summer Affair e do apelo (mais inovador) de mais marcadas sugestões de travo electro de Aumtumn Changes, as opções na hora de escolher os singles apontaram precisamente às duas outras estações do ano…

Um novo álbum conceptual, reunindo uma vez mais o trio criativo Moroder / Bellote / Summer, ganhou forma em 1977 em I Remember Yesterday. O disco propõe, no lado A, uma série de “viagens” no tempo nas quais, mantendo firme as linguagens do disco, se promovem encontros com sugestões que evocam as décadas de 40 (o tema-título do álbum), 50 (Love’s Unkind) e 60 (Back In Love Again, a piscar o olho ao universo pop das Supremes). Por sua vez o lado B abre com uma série de canções pop com alma disco, frisando o presente. E, depois de uma balada, Can’t We Just Sit Down (And Talk It Over), a faixa de encerramento lança uma visão de futuro. E aqui nasce o episódio maior de todo o alinhamento e que de resto corresponde a uma canção cuja história acaba por transcender a narrativa concetual que a enquadrava. Trata-se de I Feel Love, canção na qual a voz Donna Summer mergulha numa visão inovadora do disco, definida por um protagonismo das eletrónicas. A canção tornar-se ia não apenas um dos maiores clássicos da cantora mas também uma das referências de raiz de toda a história da pop eletrónica. Brian Eno, ao escutá-la, terá então afirmado que o futuro da música pop estava ali. E pelos vistos não se enganou.

Em finais de 1977 Donna Summer colocou nas lojas de discos mais uma novidade. Desta vez era Once Upon a Time, um álbum duplo no qual, todavia, se mantinham algumas características em comum face aos seus discos mais recentes: a equipa criativa era uma vez mais a mesma (ainda com os estúdios em Munique como sede de todos os trabalhos), o disco era a linguagem transversal a todo o alinhamento e a vontade em contar uma história através de canções mantinha-se firme (definindo assim mais um álbum concetual). A narrativa escolhia desta vez como protagonista uma rapariga que passava os seus dias num mundo de sonhos e cuja história de vida a transportará através uma trama com os ingredientes na linha de uma Cinderela. Curiosamente, e apesar de editado apenas três meses depois de I Feel Love, o álbum valoriza pouco a abordagem mais eletrónica desse single-chave na carreira da cantora. Os descendentes mais diretos de I Feel Love estão na face B do disco 1 e escutam-se em Now I Need You, Working The Midnight Shift e Queen For a Day. As duas primeiras (sobretudo a segunda) teria sido um belo sucessor de I Feel Love a 45 rotações. Curiosamente as escolhas de singles apontaram a faixas que não as desta face mais eletrónica do álbum.

O primeiro álbum ao vivo de Donna Summer chegou no verão de 1978. Com o título Live and More o disco juntava por um lado uma gravação de palco e um medley em estúdio (o “more” do título). O registo de palco, que ocupa os três primeiros lados deste álbum duplo, foi captado no mítico Universal Amphitheater em junho de 1978. O alinhamento é dominado por temas disco, mas abre espaço a incursões por outros universos, incluindo não apenas os êxitos que a cantora acumulara desde 1975 como também abordagens a cancioneiros mais clássicos, revisitado, por exemplo, The Man I Love, de Gershwin, num medley. Outro medley, esse gravado em estúdio, ocupa o lado D do álbum e tem como peça central a versão disco que Donna Summer fez da balada de 1968 McArthur Park, originalmente interpretada por Jimmy Webb.

Bad Girls, lançado em abril de 1979, marcou uma série de momentos de mudança na obra de Donna Summer. Por um lado foi o seu primeiro álbum de estúdio num tempo em que o disco sound se afirmara claramente como expressão de grande popularidade em domínio mainstream (fruto aí do impacte do filme Febre de Sábado à Noite e de vários discos de grande sucesso lançados em 1978). Por outro assinalava a mudança de operações de Munique (onde até então o trio criativo Moroder / Bellotte / Summer tinha trabalhado) para Los Angeles. Os três estão, contudo, novamente no comando das operações. Mas há várias novas contribuições trazidas para alargar o espectro de possibilidades para a música, inclusivamente na escrita das canções. Entre os novos nomes em cena estão, por exemplo, os de Harold Faltermeyer e Keith Forsey (que co-assinam com Pete Bellotte o tema Hot Stuff). Atentos às movimentações no presente, Donna Summer e os dois produtores apresentam em Bad Girls um álbum duplo no qual cada uma das quatro faces sugere um caminho distinto. O lado A, que incluía o tema título e Hot Stuff (os dois êxitos maiores aqui nascidos) assinalavam uma assimilação tanto de lições vindas do R&B como de uma nova angulosidade pop/rock que marcava o presente na emergente new wave. Segue-se uma face mais próxima das formas clássicas do disco, uma terceira com baladas, cabendo ao lado D a exploração dos caminhos mais eletrónicos abertos em 1977 por I Feel Love. Resultado desta estratégia de alargamento de horizontes, o álbum deu a Donna Summer o seu maior momento de sucesso até à data, atingindo o número um na tabela da Billboard.

Se Bad Girls tinha representado uma separação física face a Munique, onde até então Donna Summer tinha criado a sua obra em estúdio, na verdade só em The Wanderer se sentiram mais evidentes os sinais de rutura face ao que tinha sido o seu percurso, sobretudo desde Love To Love You Baby. Giorgio Moroder e Peter Bellotte continuaram a assegurar a produção mas, tal como no disco de 1979, a escrita das canções passou por mais autores. O álbum foi o primeiro que Donna Summer lançou depois da ressaca “contra” o disco lançada por setores mais conservadores, com as manifs “disco sucks” e afins (mal sabiam que o disco tem sete vidas, como os gatos, e que regressaria algum tempo depois…). Esse contexto, uma crise mística pessoal (que se reflete em I Believe in Jesus) que a cantora então enfrentou e a saída da Casablanca Records (assinando novo acordo com a Geffen) somaram argumentos que se manifestaram numa mudança do rumo da música para terrenos mais angulosamente pop/rock, seguindo de resto sugestões já lançadas na face A de Bad Girls. O momento pop sugerido pela new wave fazia-se assim sentir e a “diva” maior do disco surgia num ambiente diferente. Mas em nada este álbum está à altura dos momentos que vivera nos discos anteriores. E apesar do impacte do tema-título e do sucesso ainda relativo de Cold Love, a coisa estava a esmorecer… Era preciso mudar mais qualquer coisa.

Os resultados mais discretos do que o esperado obtidos pelo álbum de 1980 levaram David Geffen a questionar a infalibilidade da equipa de produção que tinha até ali trabalhado com Donna Summer. A cantora chegou a gravar um novo disco com Moroder e Belotte, mas Geffen guardou-o na gaveta (de onde sairia apenas muitos anos mais tarde). E em lugar do novo disco com a mesma equipa, Donna Summer deu por si novamente em estúdio, desta vez na companhia de Quincy Jones. O produtor, que por essa altura, trabalhava igualmente no sucessor de Off the Wall com Michael Jackson, juntou um olhar pop instrumental e tecnologicamente apurado às canções. Na escrita surgiam, além de si, nomes de vulto, entre os quais Bruce Springsteen, que assinara Protection expressamente para Donna Summer, a dada altura tendo sido levantada a hipótese de um dueto, que depois não se concretizou (na verdade foi o single que menos bem correu dos quatro extraídos do álbum). Além de Love Is In Control (Finger Is On The Trigger), canção pop com tempero electro, que correspondeu ao maior êxito nascido do alinhamento do álbum, o disco ao qual se chamou simplesmente Donna Summer, editado em julho de 1982 (uns meses antes de Thriller, portanto), teve ainda um momento marcante na versão de State of Independence, um tema originalmente revelado no álbum de 1981 da dupla que então juntava Jan Anderson e Vangelis.

O caso que decretou o afastamento da Casablanca Records e uma nova vida editorial na Geffen teve complicações. Faltava entregar um disco à editora da qual se afastava e, em 1983, Donna Summer cumpriu a obrigação. O álbum acabou por surgir pela Mercury (da mesma companhia) e deu à editora (e à cantora) motivos para não dar o esforço como perdido. She Works Hard For The Money, tema-título do álbum, revelou não apenas ser um dos maiores êxitos de Donna Summer depois da sua etapa como diva do disco sound, como inscreveu na sua obra uma canção com uma carga de intervenção política e social capaz de levar a um patamar pop mainstream um discurso sobre a mulher e o trabalho. Apesar de o álbum envolver ainda uma parceria com os Musical Youth em Unconditional Love (que gerou mais um caso de sucesso), a memória presente de She Works Hard For The Money é a de um disco onde se opta definitivamente por um perfil de estrela pop mas que, salvo nestes dois singles dele extraídos, na verdade pouco de realmente marcante acrescenta à obra de Donna Summer. Há marcas de identidade de uma pop mainstream dos anos 80 (Stop Work and Listen), assim como uma exploração de terrenos R&B em Woman… Mas em nada se repete aqui o impacte de outros discos.

O sucesso de She Works Hard For The Money (que representou o momento de maior êxito de Donna Summer nos anos 80) abriu caminho a uma nova parceria sob a produção de Michael Omartian. Cat Without Claws (1984) é assim uma continuação direta das ideias seguidas no disco anterior, mantendo a vontade e, explorar os espaços da canção pop com uma presença evidente de instrumentação eletrónica (procurando um lugar entre o electro e o funk), abrindo duas frestas à apresentação de baladas, uma delas num registo em sintonia com as linhas mestras da produção (Maybe It’s Over), a outra experimentando um registo mais aborrecido e tradicional (Forgive Me), acabando por conceder a Donna Summer um Grammy na categoria de Best Inspirational Performance, que assim venceu em dois anos consecutivos (no ano anterior tinha já ganho esta mesma categoria com o infinitamente mais interessante He’s A Rebel).

Apesar do fulgor com que dera os primeiros passos nos anos 80, da criação de um hino com She Works Hard For The Money e de ter conseguido estabelecer um novo percurso na canção pop (fazendo da etapa disco uma memória a evocar apenas em atuações e compilações), o percurso de Donna Summer foi resvalando para patamares de progressivo afastamento das atenções à medida que a década avançava. O segundo álbum gravado com Michael Omartien tinha apostando numa solução de continuidade face ao primeiro, mas alguma indiferença começava a instalar-se. A editora apostou numa nova mudança da equipa criativa, entregando a produção a Harold Faltermeyer que, entretanto, ganhara popularidade através das bandas sonoras de filmes de grande bilheteira como Beverly Hills Cop ou Top Gun. O som em All Systems Go avança, de facto, pelos caminhos de uma produção dominada por novos sintetizadores e por opções limpas, talvez demasiado polidas, que caracterizam de certa forma os caminhos que definiam alguns êxitos pop na segunda metade dos anos 80. O “gosto” apontado ao Top 40 das estações FM teria contudo maior impacte através de uma canção acrescentada ao alinhamento já na reta final da produção quando, notando não haver ali potenciais grandes êxitos, a editora chamou outros produtores (Brenda Russel e Richard Perry) para trabalhar Dinner With Greshwin, canção pop com travo funk na verdade não muito distante de caminhos que Madonna então seguia. Apesar de longe dos êxitos de outrora, esta canção, lançada como single de avanço do álbum, deu a Donna Summer o seu segundo maior sucesso na segunda metade dos anos 80… E, de certa forma, apontou caminho às opções que seriam tomadas logo a seguir.

O último álbum gravado por Donna Summer na década de 80 ligou-a a uma equipa de produção que vinha já a somar êxitos desde 1984, primeiro com nomes como os de Hazel Dean, Dead or Alive, um pouco mais à frente as Bananarama e, mais tarde, Kylie Minogue, Rick Astley ou a dupla Mel & Kim, entre outros mais. A “fábrica” de êxitos pop tinha uma identidade evidente, sobrepondo-se muitas vezes à dos próprios artistas. E por isso Another Place & Time não se afasta muito dos caminhos dos discos que no final dos anos 80 nasciam sob a orientação do trio Stock, Aitken e Waterman. O álbum respira mais confiança e sentido de orientação do que as produções para gosto FM mais incaracterísticas que se tinham seguido a She Works Hard For The Money. E com This Time I Know It’s For Real Donna Summer chegou mesmo a inscrever na sua discografia um dos singles de maior sucesso nos anos 80. Porém, além da prestação vocal, tudo aqui não é mais do que uma expressão das formas e ferramentas usadas pela equipa de produção em tantos outros discos que então colocavam no mercado. O facto de ter resultado comercialmente chegou a alimentar a possibilidade de um segundo álbum com os mesmos produtores. Mas Donna Summer acabou por não regressar ao Reino Unido para gravar e este disco ficou assim como episódio único na sua discografia. Na dos três produtores, convenhamos, está longe de ser uma obra de referência.

Apesar dos resultados obtidos pela colaboração com a equipa Stock, Aitken e Waterman, Donna Summer escolheu um caminho diferente para aquele que foi o seu primeiro álbum nos anos 90. Com Keith Diamond na produção, partilhando com ele (e por vezes outros mais) a escrita das canções, o álbum apontou azimutes a um espaço mais próximo do que então se começava a designar por “urban”. No fundo cruzavam-se aqui caminhos herdados do R&B e do funk, vincando estruturas rítmicas que pareciam querer reencontrar mais o fulgor da pista de dança do que o espaço das playlists de rádio. Apesar de o alinhamento cruzar temas upbeat, baladas e momentos mid tempo, e de exibir uma produção tecnicamente competente, o disco é desinspirado espelha um progressivo desnorte na condução do rumo na carreira de Donna Summer. O título Mistaken Identity pode deixar, agora que o tempo passou, uma resposta ao “equívoco” que se estava a desenhar. Os dias de consequente soma de boas ideias (no fundo a segunda metade dos anos 70 e o início dos 80) era coisa cada vez mais distante.

Em 1994 Donna Summer convocou uma vez mais o produtor Michael Omartian, desta vez para criar um álbum de Natal, afinal uma tradição antiga no universo das grandes vozes da canção americana. Christmas Spirit segue a tradição, vincando a personalidade da voz através de um alinhamento que cruza abordagens a alguns dos mais clássicos standards da quadra, junta versões e até canções inéditas expressamente compostas para este disco. A abordagem instrumental varia entre os campos mais “tradicionais” (com arranjos orquestrais) de alguns standards, e caminhos mais próximos de linguagens de produção usadas em baladas nos discos mais recentes de Donna Summer. Apesar de tecnicamente competente o disco foi, contudo, um esforço artística e comercialmente inconsequente.

E agora uma breve viagem no tempo… Havia um disco que tinha ficado na gaveta, certo?… Então aí vai. Depois de The Wanderer (1980) Donna Summer estava de volta a estúdio com a sua equipa habitual. A gravação de um novo álbum apontava então a mais um disco duplo… Mas quando David Geffen passou pelo estúdio e escutou o que estava a ali a nascer não ficou entusiasmado… Na verdade mandou arquivar as gravações, sentindo que Donna Summer deveria deixar de trabalhar com Giorgio Moroder e Peter Bellotte. Juntou-a então a Quincy Jones, com quem a cantora gravaria um álbum em 1982. Quanto às sessões nas quais trabalhara com Giorgio Moroder, Peter Bellotte e Harold Faltermeyer, essas foram ficando na gaveta, apesar de algumas faixas terem surgido pontualmente, como sucedeu com Romeo, que em 1983 conquistava um lugar na banda sonora de Flashdance. Outras canções acabaram entregues a outras vozes, entre as quais a de Frida (dos Abba), que recriou To Turn To Stone no álbum a solo que gravou em 1983. Com o tempo começaram a surgir bootlegs com o “álbum perdido” de Donna Summer. Até que, em 1996, e com o título I’m a Rainbow, o disco conheceu edição oficial em disco. A primeira conclusão que se pode tirar ao escutar o alinhamento é que, mesmo estando num patamar que não era o mesmo do que gerara os discos históricos que Donna Summer nos anos 70, I’m a Rainbow é, no conjunto, a melhor coleção de canções que a cantora juntou num álbum desde então. Espelho de uma abertura de horizontes a várias possibilidades, desde a pop eletrónica, como se escuta nos deliciosos People Talk ou A Runner With The Pack, ao electro funk (Brooklyn), incluindo uma versão (um bocado azeiteira) de Don’t Cry For Me Argentina e algumas baladas na linha das que vinha a gravar, I’m a Rainbow está bem longe de ser um álbum menor de Donna Summer. Romeo teria dado um single de sabor clássico. E está ainda aqui o saborosamente açucarado Melanie, que representou a última canção escrita por Moroder para a cantora.

Em finais dos anos 90 Donna Summer chamou uma equipa do canal VH-1 ao Hammerstein Ballroom, em Nova Iorque, para aí ser registado um concerto ao vivo. Com um alinhamento ‘best of’, recuperando grandes êxitos dos anos 70 e 80, o concerto (filmado para televisão) deu origem a um álbum ao vivo Live and More Encore, editado em 1999 com o sabor de um “greatest hits” em ambiente de festa. As duas novidades do alinhamento são os temas Love Is The Healer e uma versão de Time To Say Goodbye (que tinha já sido um êxito com Andrea Bocelli e Sarah Brightman), agora em versão carrinhos de choques com o título I Will Go With You (Con Te Partiro). Azeite muito mau, sim…

Depois de um hiato, Donna Summer regressou aos discos em 2008 com o álbum Crayons, no qual procurou reatar o tipo de relacionamento com a canção pop com evidente gosto em ter por perto a pista de dança. Através de uma nova equipa de produção e de vários autores Donna Summer concebeu um dos discos com maior diversidade de caminhos de toda a sua discografia, chamando às canções formas musicais, instrumentos e soluções de produção claramente em sintonia com o presente. A diversidade aqui expressa parecia indiciar uma montra de possibilidades das quais poderiam surgir opções mais focadas em discos seguintes. Da pop de travo contemporâneo de Stamp You Feet (que abre o alinhamento) ao piscar de olho aos terrenos de uma Beyoncé na canção que dá título ao álbum (em dueto com Ziggy Marley), da inevitável passagem pelo espaço da balada (em Stand on My Feet ou Me Myself Again) ao breve flirt brasileiro em Drivin’ Down Brasil, Crayons mostrava a proposta mais cheia de (boas) ideias da obra de Donna Summer em muitos anos. Apesar do impacte no momento do lançamento, o disco acabou por não ter consequências maiores. Mas serviu de ponto final luminoso e otimista à obra de uma voz que não imaginava então que, quatro anos depois, já não estaria entre nós.

E assim se conta esta longa viagem… Mas a caixa que fixa todas estas memórias guarda ainda algumas surpresas…

Além de toda esta série de álbuns, a caixa Encore inclui a compilação de êxitos On The Radio (originalmente lançada em 1979 e que incluía dois inéditos, um deles a canção que dava título ao disco), e novas compilações, uma com os temas surgidos em singles, outra com os máxis originais e ainda uma mais com remisturas, havendo ainda uma seleção de raridades. O booklet, com as dimensões de um LP conta, nas suas 40 páginas, com um novo ensaio de Christian John Wikane e um prefácio de Peter Bellotte, o velho parceiro nos tempos das colaborações com Giorgio Moroder.

“Encore”, de Donna Summer, é uma caixa de 33 CD disponível em edição da Driven By The Music. Também recentemente foi editado “A Hot Summer Night”, duplo DVD com o filme-concerto captado a 6 de agosto de 1983 no Pacific Amphitheatre em Costa Mesa, Califórnia, perante uma plateia de 18 mil. O concerto fazia parte da ‘Hard For The Money’ Tour’. 

Para completar esta viagem aqui fica uma pequena seleção de dez canções de Donna Summer que não foram singles mas que mostram como pode haver (re)descobertas a fazer entre a sua obra:

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