Deee-Lite “World Clique” (1990)

Editado a 7 de agosto de 1990, faz hoje 30 anos, o álbum de estreia dos Deee Lite propunha uma visão para a canção pop que abria portas e janelas ao prazer de uma festa caleidoscópica onde hip hop, jazz, house e funk estavam entre os convidados. Texto: Nuno Galopim

A redescoberta do psicadelismo como referência criativa entre finais dos anos 80 e inícios dos 90 não se esgotou na forma como bandas como os Stone Roses ou Inspiral Carpets reencontraram e assimilaram ecos de formas então com vinte anos de vida ou no modo como o hip hop da chamada daisy age repensou novas formas de entender velhas ideias. A noção de uma pop caleidoscópica, o prazer no tratamento de formas e cores e um certo estado de encantamento libertador (que moram entre possíveis heranças do psicadelismo) encontrou igualmente interessante expressão na música que um trio então desenhou em Nova Iorque, repensando a canção pop e a música de dança, juntando referências e mundos, desde logo a pensar num modelo de comunicação na alvorada da idade global. Pelo menos assim o deixam claro quando abrem World Clique, o álbum que editam em 1990, com a frase “From the Global Village, in the age of communication”… Chamavam-se Deee-Lite e eram logo em si como um microcosmos dessa mesma aldeia global unida pela forma como a comunicação então permitia o cruzamento e troca de experiências e linguagens.

Ela, Lady Miss Kier (na verdade Kierin M. Kirby), era natural do Ohio. Towa Tei (de nome real Dong-hwa Chung) tinha origens coreanas e chegara de Tóquio, no Japão. E o músico e produtor Super DJ Dmitri (Dmitry Brill, vinha de Kiev, na Ucrânia). Kierin e Dmitry tinham-se conhecido ainda nos anos 80 e do gosto pelo funk e outras formas ligadas à música de dança partilhado por ambos nascera uma vontade em fazer música. E assim nasceu um duo. A compra de um sampler em 1987 definiu um rumo para uma ética de trabalho que, de resto, acabaria referida na própria pequena empresa que ambos então formam: a Sampladelic. Atuam em discotecas e clubes, apresentando sobretudo DJ sets, cabendo a Kierin a criação dos flyers e da imagem com que se apresentam. Towa Tei, que os começa a seguir como admirador, acaba um dia por falar com eles, deixando-lhes uma cassete com criações suas. As afinidades e complementaridades entre os três abriu caminho para o nascimento do trio. Deee-Lite assim se chamariam.

Tal como vestiam sob teto comum um berço multi-nacional, também a música dos Deee-Lite juntava em solo comum toda uma soma de experiências e gostos, passando do funk, de assimilações da cultura hip hop e do trabalho com corte e colagem de samples e electrónicas com uma noção primordial de atenção pela forma da canção que vincava uma prioridade que assim nunca deixava de ser coisa pop.

O mundo descobriu-os ao som de Groove Is In The Heart, um verdadeiro hino ao hedonismo dançante que, fruto da revolução que a club culture havia vivido depois da explosão house de 1987 chegara aos patamares da comunicação global e assim se fez um êxito à escala mundial. Na verdade, os Deee-Lite nunca repetiram o impacte desse single de estreia, havendo por isso motivos que expliquem porque muitas vezes há quem os arrume na categoria dos one hit wonders (isto apesar de terem somado vários êxitos na tabela de música de dança nos EUA). A classificação como one hit wonders peca, assim, focar apenas os feitos de mercado, esquecendo quão marcante e visionário (e até mesmo comercialmente bem-sucedido) foi o álbum World Clique onde Groove Is In The Heart está longe de ser um oásis entre acontecimentos secundários. Pelo contrário, o alinhamento é de impressionante solidez, revelando temas como What is Love? (que expressa pelas electrónicas um sentido hipnótico e narcotizado de certa forma capaz de estabelecer ecos com heranças do psicadelismo e que antecipa os apetites electro que o tempo guardava para mais adiante), Good Beat (perfeita assimilação de uma matriz house na alma de uma canção pop) ou Smile On (cruzamento de funk e hip hop sob alma jazzy), entre uma mão cheia de outros instantes que, juntos, criam uma visão cool e festiva que assim acolhia a chegada de uma nova década.

O álbum junta entre os colaboradores nomes míticos como os de Bootsy Collins, Fred Wesley ou Maceo Parker e figuras emergentes como Q-Tip (dos A Tribe Called Quest)… Deu forma e cor à música. E por alguns meses o mundo soou assim. Uma lógica, talvez errada, de opção por uma continuidade estética sem sobressaltos, apesar de propor uma agenda política mais evidente, fez do sucessor Infinity Within um passo menos visível… Algo que o aparente desinvestimento da própria editora pareceu sublinhar… Towa Tei, avesso à vida na estrada, tinha-se já afastado dos concertos nos tempos de World Clique, optando por se concentrar na preparação de elementos para o segundo álbum… A divergência de ideias seria mais evidente contudo quando começaram a trabalhar o terceiro disco, a meio do qual Towa Tei acaba mesmo por se afastar. Editado em 1994 Dewdrops In The Garden ainda expressava sobretudo a personalidade da voz de Lady Miss Kier, mas a música tinha migrado em busca de outros caminhos então mais em voga na club scene. E o cocktail colorido de pop, funk, house e jazz que havia animado World Clique era já uma memória distante.

O fim dos Deee-Lite foi decidido durante a criação do álbum, tendo, contudo os dois fundadores da ideia mantido a agenda priomocional e de palco que se seguiu ao seu lançamento. Por essa altura Towa Tei abria horizontes a uma carreira discográfica a solo. Lady Miss Kier e Dmitry seguiram caminhos separados, tendo-se ambos mantido ligados à club culture, ela aliando a DJ sets (que a levaram já a grandes festivais) um trabalho paralelo nas esferas da moda e das imagens, aproveitando ainda a visibilidade mediática para abraçar causas e lutas políticas e sociais progressistas.

O florescimento da cultura jazz hip hop e a descoberta do rock alternativo pela MTV desviaram as atenções para lá do espaço que os Deee-Lite tinham talhado na aurora dos anos 90. E o que parecia um oráculo das coisas que aí vinham acabou como banda sonora progressivamente esquecida do verão de 1990, não sendo habitual deles encontrar mais referências posteriores do que as que evocam, já com travo de nostalgia, o single Groove Is In The Heart. Contudo, 30 anos depois, o reencontrar algumas destas canções pode trazer boas surpresas, reavivando memórias ou permitindo descobertas. World Clique foi um dos melhores discos dos inícios dos noventas e merece ser mais que um “disco pe(r)dido)”…

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