The Drums “Summertime” (2009)

O final da primeira década do século XXI assistiu a um desejo de reencontro com o universo “pop” que o surf tinha levado ao panorama da música popular norte-americana nos anos 60. Desta vez porém a Califórnia não era mais uma condição quase necessária para uma banda vestir a pele do surf rock… As heranças chegavam sobretudo pelo melodismo luminoso e quente e pelo som das guitarras e pareciam animar sobretudo novas bandas nascidas em terreno indie. E então nomes  como os Best Coast ou Girls (ambos correspondendo a bandas californianas) viram outros a entrar em cena… E entre os não californianos que mergulharam, de prancha, no mapa indie de 2009 estavam os The Drums.

Quase 50 anos depois dos primeiros hinos dos Beach Boys, de Dick Dale ou da dupla Jan & Dean, mostravam como o apelo do surf ainda pode ser cenário e protagonista de uma aventura rock’n’roll. A neles grande diferença, mais que os anos que separam a coisa, é o facto de serem uma banda de Brooklyn (há praia em Coney Island, mas não é bem o equivalente à beira das águas do Atlântico do paraíso surfista das praias em volta de Los Angeles ou outros destinos da costa californiana)… Apresentavam-se ao som de Let’s Go Surfing, que revelevam acompanhado por um teledisco rodado de noite, numa praia… A canção integrava o EP Summertime (recentemente reeditado em vinil) que assim mostrava mais do que apenas uma canção na hora das apresentações.

Falei por esses dias com Jonathan Pierce, o vocalista do grupo, que me contou assim uma história que na verdade já envolvia uma banda anterior (os Elkland), uma aventura indie com apetites mais voltados para os sintetizadores que então o juntara a Jacob Graham, amigos desde a infância. É Jonathan quem continua: “Conhecemo-nos quando tinhamos aí uns 12 anos e ficámos logo amigos. E por vezes as pessoas nem acreditam quando dizemos o que foi que reparámos então que tinhamos em comum… os Kraftwerk! Gostávamos também de John Foxx e desses discos… Éramos entusiastas de sintetizadores analógicos. O meu pai tinha-me dado um sequenciador …. Encontrámo-nos e nenhum de nós conseguia acreditar que havia outra pessoa com aqueles gostos que cada um de nós tinha! E cedo dissémos que um dia haveríamos de ter uma banda juntos… Os anos passaram, reencontrámo-nos e resolvemos fazer uma nova banda, a que chamámos The Drums para criar canções que queríamos fazer novas influências… Mudei-me então de Nova Iorque para a Florida, instalei-me no apartamento do Jacob. E foi ali mesmo que gravámos as primeiras canções. Podíamos ter passado algum tempo a refletir o que era ser cool, saber o que era a coisa mais à frente… Mas não quisémos ir atrás de qualquer coisa só porque era novidade. Ou apenas porque é velho… A grande questão para nós, quando decidimos o que íamos fazeer, foi ser fiéis a nós mesmos. As letras são mesmo elementares, sei que não estou a dizer nada demais… Mas sei que estou a ser honesto comigo mesmo.”

Assim foi e as apresentações fizeram-se com um EP que fala do verão e uma canção em particular que aborda o universo do surf. Isto apesar de nenhum deles o praticar… “As ligações acho que as encontrámos mais com uma ideia do que seria a América dos anos 50 e com os ambientes dessa era”, explicou, justificando que o surf pode dar um dos retratos possíveis da América dos anos 50 e 60: “Eu queria que cada uma das nossas canções transportasse essa ideia de retrato. A esse poder fotográfico… E como em qualquer fotografia, começamos por olhar e escapar. Acho que as grandes canções pop o que fazem é isso mesmo: o de sugerir um escape”. Sobre o vídeo, de orçamento bem contido, ainda acrescentou: “Nunca gastámos muito dinheiro a fazer nenhum vídeo. E quando fizemos este estávamos mesmo sem dinheiro absolutamente nenhum! Foi divertido de fazer… Mas não esperávamos que a coisa levantasse voo tão depressa. Não era esse o nosso plano. Queriamos mesmo escrever canções. E o que veio depois foi aceite por nós mesmos”.

Pelas canções dos The Drums passavam ainda, nesta altura, sinais de uma vivência indie formada a escutar discos marcantes na fundação da identidade “alternativa” de inícios dos oitentas, que ali se cruzavam como marcas de redescoberta de azimutes solarengos dos sessentas. O seu olhar sobre o surf rock surge assim nesta etapa do seu cardápio de referências.

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