Duran Duran “Liberty” (1990)

Editado a 20 de agosto de 1990 “Liberty” traduz um tempo de desorientação maior para os Duran Duran. Mesmo assim foi berço para duas belas canções (“Serious” e “My Antartica”), pelo que apesar de alguns momentos menores, justifica um reencontro. Texto: Nuno Galopim

Com resultados aquém do que outrora haviam conhecido, Big Thing (1988) representou o último álbum que os Duran Duran editaram nos anos 80 e o segundo criado em trio, após os afastamentos de Roger Taylor e Andy Taylor. Em 1989, para encerrar oficialmente a década que os revelara discograficamente e a cuja história ficaram associados como uma das suas referências maiores, editaram um primeiro best of ao qual chamaram Decade e do qual o mais interessante foi mesmo a capa magistralmente concebida por Stephen Sprouse. Ao contrário do que se tornaria depois uma prática habitual, a compilação não trazia inéditos. E até Burging The Ground, um inesperado single, criado a partir de colagans de elementos de canções editadas entre 1981 e 1988, ficou estranhamente fora do alinhamento de Decade  (que deixava também de fora os singles Careless Memories, My Own Way, New Moon on Monday, Meet El Presidente e Do You Believe in Shame?).

Depois de terminada a digressão inspirada por Big Thing (que vinha já do ano anterior), em maio de 1989 o grupo reuniu-se num celeiro na região de Sussex para ensaiar e compor novas canções. A grande novidade era a integração como membros da banda de dois músicos norte-americanos que haviam colaborado regularmente com o grupo nos últimos tempos. O guitarrista Warren Cuccurullo tocava com os Duran Duran desde as sessões de Notorious e tinha já andado na estrada desde a Strange Behaviour Tour que se seguiu ao lançamento do álbum. O baterista Sterling Campbell, que participara nas sessões de Big Thing e estivera em palco na Big Live Thing Tour e na imediatamente seguinte Electric Theatre Tour, sentava-se oficialmente no banco do baterista. Reunidos em estúdio algumas semanas depois, chamaram para o lugar de produtor o experiente Chris Kimsey, figura mais ligada ao rock e com trabalho mais notável assinado junto dos Rolling Stones… Algo estava a mudar… E quem estranhara a guitarra mais intensa de Warren Cuccurullo em Lake Shore Drive, no final de Big Thing, encontraria depois, neste álbum a que chamaram Liberty, e que editaram em agosto de 1990, os ecos diretos desses caminhos.

As guitarras, mais intensas que nunca, emergem como uma marca de identidade em temas como First Impressions ou Read My Lips, mantendo-se, contudo nesta última, assim como em Hothead, num espaço de diálogo entre a alta tensão elétrica e um trabalho rítmico herdado de matrizes R&B que, de certa forma, representam uma continuação do que havia emergido nos Power Station cinco anos antes. A face mais próxima de encantamentos que recuam a uma velha admiração por rumos R&B (de que Notorious ou Skin Trade haviam sido grandes manifestações), manifestava-se no tema-título.

Há depois canções que não fizeram de todo história, como o foram Can You Deal With It? ou Venice Drowning, casos maiores que manifestam a desorientação que o disco, como um todo, acabaria por retratar. Já All Along The Water ou Downtown são exemplos de um trabalho de reflexão deixado a meio, podendo ambas ter beneficiado com mais prolongada reflexão. Vale a pena notar que, anos volvidos sobre a edição do álbum, não faltaram referências, por elementos do grupo, ao que consideram ter sido não apenas uma etapa demasiado rápida de escrita, mas também uma produção que moldou algumas das canções àquem de potencialidades que as maquetes (e algumas emergiram em bootlegs) poderiam sugerir. Desconcentração, pressa, uma banda desfocada e, sobretudo, uma falta de pensamento sobre que caminho a tomar resultou num disco que assinala um dos episódios menos felizes da obra dos Duran Duran. A experiência ensinou-os a acautelar a existência de um mais sólido corpo de canções na etapa de composição antes de assumir a passagem à gravação. E salvo o momento igualmente frágil (mas por motivos distintos) vivido em Pop Trash (dez anos depois de Liberty), nunca mais um álbum de originais dos Duran Duran descarrilou.

Quer isto dizer que tudo em Liberty é mau? Nem por isso… O tema-título, mesmo não sendo tão nutritivo como as peças pop embebidas em atmosferas funk dos tempos de Notorious, está longe de habitar entre o lote das piores canções do grupo. Downtown parece ser herdeiro das experiências mais encorpadas dos Arcadia e, mesmo com sabor a coisa inacabada, deixa no ar promessas que podiam ter levado a canção a melhores destinos (sob outras decisões da produção). O single de avanço Violence of Summer (Love’s Taking Over), mesmo sendo um dos mais incaracterísticos da obra dos Duran Duran, tem a presença (invulgar) do piano como força protagonista nas teclas procura caminhos mais próximos de heranças rock e, ao mesmo tempo, eventuais flirts com o contemporâneo apelo dançável da italo house. Não deixa contudo de ser um momento em que a produção desvalorizou, erradamente, uma das marcas fundamentais da essência dos Duran Duran: as texturas para sintetizadores que são parte da assinatura de Nick Rhodes. Violence of Summer (Love’s Taking Over) é, talvez, o mais fraco de todos os singles do grupo.

Há, contudo, em Liberty espaço para dois momentos dignos de figurarem numa evocação do melhor da obra do grupo. Um deles é Serious, bem escolhido como segundo single, embora tenha sido vitimado pela má receção que o álbum entretanto gerara. A canção, de certa forma, representa a ponte possível que três anos depois os levaria a um novo disco de recorte pop mais clássico: o “wedding album”. O outro é My Antartica, uma canção na linha herdeira das experiências dos Arcadia e da face melancólica de Big Thing, representando o instante em que o álbum sai do torpor de enganos, lembrando aos músicos que não são mais nem menos do que os Duran Duran e não uma banda rock americana a entrar por caminhos com eletricidade a jorros que, decididamente, não era o seu.

Liberty foi, mesmo assim, um valente tiro ao lado e só o eco ainda vivo das memórias dos discos anteriores e uma base de fãs fiel (que ainda hoje subsiste) garantiu ao disco a pouca visibilidade que conheceu. O álbum não gerou uma digressão. Numa das entrevistas da época chegaram mesmo a sugerir que precisavam de um segundo novo álbum para ter assim um outro repertório para os concertos, e que passariam a tocar os velhos temas apenas nos encores. A ressaca da etapa de sucesso global que os animara, sobretudo de 1981 a 1986, atingia o seu ponto mais crítico. Mas souberam recuperar e, a tempo de reagir, deram pelos equívocos… Tanto que, quando regressaram em 1993, já sem Sterling Campbell (que se afastou em 1991), mesmo com novos valores em vista e cientes de que o estatuto vivido nos anos 80 se tinha dissipado, voltaram a retomar uma noção de elegância pop herdada dos Roxy Music. Mas há 30 anos, em Liberty, viveram um tropeção.

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