O GiRA DiSCOS faz agora um ano… Mas o meu gosto pelos discos (e o que está à sua volta) já vem de longe

O GiRA DiSCOS faz um ano… E aqui faço uma viagem no tempo para notar como não foi difícil chegar nem ao tema nem ao nome deste espaço de comunicação digital que tem os discos no centro das atenções. Texto: Nuno Galopim

A Sister Ray deve ser a loja que mais vezes visitei em Londres (desde que abriu em 1989)

A aventura começou há um ano… Tinha vontade de dirigir o (bom) hábito diário de escrever um, dois ou três textos a cada manhã por um caminho de temática mais focada. E a ter de escolher um universo não foram precisos muitos segundos para lá chegar: os discos (e com eles as lojas, os colecionadores, as novas edições e as memórias)… Apesar de ter uma multidão de interesses (os livros, o cinema, a culinária, a história, a arqueologia, as viagens, a astronomia, a astronáutica… e é melhor ficar por aqui na enumeração) os discos são quem mais me acompanha desde bem pequeno.

Tinha eu três anos e gozava, em casa, de uma autorização para usar o gira-discos dos pais (daqueles que tinham ainda velocidades a 16 e 78 RPM, além dos mais convencionais 33 e 45). Não me fazia rogado e, ainda com uma micro-coleção de singles (sobretudo feita de canções infantis, histórias contadas e alguns momentos escutados na Eurovisão), comecei a dar uso ao gira-discos. E o que mais gozo dava era ouvir os discos dos pais, das gravações de obras de Beethoven, Bruckner, Stravinsky ou Carl Orff (e este era o meu preferido) às canções, sobretudo em língua francesa, de Brel, Barbara ou Bécaud… O meu pai fazia-me ainda gira-discos de cartão com caixas de camisas para poder “brincar” ainda mais à volta deste gosto pelos discos. Aos seis anos, na primavera de 1974, tive o meu primeiro gira-discos portátil. Não íamos de fim de semana a Sintra ou de férias ao Algarve (ou outro lugar) sem que o gira-discos (e uma caixa de cartão cheia de singles e EP) nos acompanhasse…

Eu, o meu irmão e o meu primeiro gira-discos, em março de 1974

Um pouco mais tarde, tinha eu 12 anos, comecei a comprar discos com mais regularidade. E “aldrabava” as contas do ‘budget’ para o almoço na escola comendo ali algo mais barato. O que poupava, mais a semanada, dava para um single por semana. Custavam, então 120 escudos. Se fizesse dieta por três semanas comprava um LP, que custava 360 escudos… E assim lá começaram a entrar em casa os Buggles, a Lene Lovich, os Madness, logo depois os Duran Duran, os Depeche Mode, os Human League, o Bowie, os Kraftwerk… E com a coleção a aumentar, estando então o Hi-Fi da família na sala, a decisão foi a de que o levasse para o quarto. Evitava passar os serões de headphones nas orelhas enquanto os meus pais e o meu irmão viam qualquer coisa na televisão.

Com um gira-discos bom no quarto, a coisa ganhou outro fôlego. A rádio revelava novidades e recordava memórias. As revistas e jornais de música tornaram-se um hábito semanal. Ia buscá-los à tabacaria Adamastor, ao fundo da Rua do Carmo, em rotinas que se repetiam aos sábados de manhã. Saía de casa (no Príncipe Real) e descia até ao Chiado, visitando as lojas de discos que ali havia. As dos armazéns Novo Figurino e Jerónimo Martins. Depois a Valentim de Carvalho e a Sassetti na Rua Nova do Almada. As lojas de discos nos armazéns do Chiado e Grandella. E ainda a Melodia e a Discoteca do Carmo, na rua do Carmo… Depois era descer, ir buscar os jornais e revistas para preparar colheitas futuras (algumas também feitas na Compasso, em Campo de Ourique, onde ia se havia furos entre as aulas no Pedro Nunes, onde andava). O incêndio do Chiado, em 1988, mudou os passeios passeios para outros destinos. A Discoteca Motor nos Restauradores, onde ia desde 1985, passou a ser um epicentro, até porque tinha importações que ali chegavam todas as semanas, não apenas de LP mas também de máxis… E nos dias do “boom” da club culture depois de 1987, o máxi passou a ter um lugar de maior relevância na minha coleção (hoje, confesso, voltei a dar prioridade ao meu formato “colecionável” preferido: o disco de sete polegadas).

Em finais dos 80 e nos 90 a Motor (e depois Bimotor) assegurava parte do “vício”. E depois havia, nas Amoreiras (o shopping mais perto de casa) uma oferta incrível. Além de uma Bimotor havia ali a One Off (com um televisor que passava telediscos do Music Box), uma Valentim de Carvalho (com clube de vídeo no piso superior) e uma Strauss… Se fosse aos lados da Avenida de Roma tinha a Discoteca Roma, a Sinfonia e outra Valentim de Carvalho. Lembro-me de uma loja grande ali para Arroios/Intendente (Feira do Disco?)… Até na Praia das Maçãs encontrei uma loja de discos…

Não passava sem passar pela Contraverso (no Bairro Alto), talvez a loja com a seleção de discos mais apetitosa de Lisboa a dada altura. Ia regularmente a Cascais para comer gelados no Santini (sim ainda não havia em Lisboa), ver os livros da Galileu e os CD numa pequena loja especializada em clássica que havia na Rua Direita. Mais perto de casa tinha a igualmente irresistível VGM no Príncipe Real, onde trabalhava o Orlando Leite que coordenava as páginas de música no Independente e um dia pediu ao catraio que ali ia comprar Philip Glass, Steve Reich, John Adams, e afins, que escrevesse um texto para ver o que dava… Pois, deu o que deu.

A segunda metade dos 80s corresponde ao início das idas regulares a Londres e Paris, de onde invariavelmente voltava carregado de vinil (e VHS e revistas e livros e tralha q.b.). Passei uma temporada em Filadélfia em 1987 e de lá vim com duas caixas cheias de discos (claro)… E quando em 1989 comecei a trabalhar em rádio e nos jornais, a coleção de discos era já mais do que apenas um hobbie. Era, agora, também, matéria prima para poder trabalhar… E assim tem sido desde então.

Em 1994, com 27 anos, a arrumar discos e revistas… Com o tempo a luta contra o espaço intensificou-se.

Tudo isto para contar como, há um ano, com vontade em criar um espaço regular para publicar textos meus, os discos, os gira-discos, as lojas e o gosto por colecionar, falaram inevitavelmente mais alto. Não foi difícil chegar nem ao nome do site nem aos conteúdos que ali queria juntar. Além da atividade regular de acompanhamento de novos lançamentos e reedições, o GiRA DiSCOS começou a reunir conversas com colecionadores, perfis de lojas e foi juntando dicas para quem gosta de discos e de os juntar. Uma secção de discografias permitiu já criar uma boa listagem (com alguma informação e opinião) sobre a obra completa em disco de Simone de Oliveira. Em construção estão agora as discografias de Amália Rodrigues, de José Mário Branco e dos Kraftwerk. Assinalando os 40 anos da 4AD e os 30 da Red + Hot Organization comecei a revisitar, um a um, os discos que foram lançando. Há uns meses abri um espaço para, assinalando os 50 anos dos Kraftwerk, registar memórias de pioneiros da música eletrónica.

Agora a entrar num ano 2, o GiRA DiSCOS vai continuar pelos mesmos caminhos. Os álbuns de world music dos 80s e 90s (e tantos comprei nesses dias e nestas férias voltei a tirá-los das prateleiras) vão também ganhar aqui um espaço… E com o tempo mais ideias, revelações e recordações.

Como a escrita vive de quem a faz para quem a lê, deixo um muito obrigado aos que, regular ou ocasionalmente, têm passado por aqui. Se não queremos ser lidos fazemos diários que fechamos em gavetas (nah, não teria nunca paciência para isso). O GiRA DiSCOS nasce do gosto em escrever. Mas quer comunicar. E por isso tem o leitor como parte não menos importante de toda esta corrente de comunicação com discos no centro das atenções.

Com o meu primeiro single (oferecido pelos pais em 1971)

3 pensamentos

  1. Parabens

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    Saliento
    Contraverso – anos 90
    Flur – a Meca desde há 10 anos
    Jazz Messenger (Lx Factory ) – desde inicio do COVID (para Jazz e Clássica)
    Tristeza – a morte da Discoteca Roma, Mega Store da Virgin e muitas Valentim de carvalho
    Continua
    João Sousa

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