Para não esquecer um mito (que quase parece urbano) de uma voz da nossa música popular

Entre festas e bailaricos, sobretudo no norte do país, tendo deixado cassetes como legado maior, José Pinhal está a ser entusiasmar uma nova geração de músicos. Essa redescoberta está no tutano de uma curta que passa hoje no Indie Lisboa. Texto: Nuno Galopim

Por muitas que sejam as histórias já contadas, há sempre espaço para a surpresa quando se mergulha no vasto universo de caminhos que a música tem corrido neste retângulo no mais ocidental extremo da Europa. E A Vida Dura Muito Pouco, curta de Dinis Leal Machado que hoje passa no Indie Lisboa representa, precisamente, uma proposta de descoberta. Ou, talvez melhor, de redescoberta.

            O filme, de 23 minutos, tem a expressão Celebrando a Obra de José Pinhal como segunda parte do seu título. E muitos dirão: quem? Estreado em single em 1979 com Infância, um single editado pela portuense GAF (a mesma que lançaria no ano seguinte o álbum de estreia dos Roxigénio), José Pinhal, de Santa Cruz do Bispo, que tinha acabado de se sagrar vencedor do 1º Festival da Canção do Norte, ganhava então um espaço de alguma visibilidade sobretudo nas regiões do norte do país. Cantava em festas, em boîtes, e ao longo da década de 80 chegou a editar (pela Nova Força) três cassetes (todas elas referenciadas na plataforma Discogs).

            Mais do que propor um discurso sobre o que pode ou não ser “foleiro” ou até mesmo uma abordagem musicológica ou sociológica à figura e ao universo em que o cantor, com qualidades de mito urbano, se movimentou (referências que o filme não deixa, contudo, de abordar, permitindo-nos até mesmo entrar no espaço das pequenas editoras locais de então), A Vida Dura Muito Pouco – Celebrando a Obra de José Pinhal é acima de tudo uma prova de vida de uma obra que não ficou esquecida nas cassetes dos anos 80. De colecionadores de música popular a músicos (como Luís Severo), o filme nota como uma obra que nasceu distante dos maiores focos de atenção (pelo género, pela geografia, pelo circuito em que se desenhou) pode, afinal, vencer a erosão do esquecimento. E, sobretudo, através do grupo de tributo José Pinhal Post-Mortem Experience, as canções daquele que aqui ganha (claramente) uma outra exposição, as canções cruzam o tempo e voltam a soar… Em outras festas, para outros públicos.

            Perguntam-me: então é assim tão marcante a obra de José Pinhal? A figura, a sua mitificação (que passa por um trágico desaparecimento) e a patine que a passagem do tempo lança sobre as memórias, talvez falem aqui mais alto do que as próprias canções, se bem que através das palavras e sons acabem por estar aqui traços da fisionomia de uma cultura popular não urbana de então. Mais emocional que racional (e nada contra que assim seja, note-se) esta redescoberta, mais do que chamar-nos apenas atenção para José Pinhal, pode ser mais consequente se nos levar a uma mais abrangente recuperação (para arquivo e não só) de um Portugal musical que, mesmo distante dos êxitos pop(ulares) ou das vanguardas aclamadas de então, merece ser inventariado, conhecido, fixado. E, aos músicos e públicos de outras gerações, caberá, depois, o papel de eventualmente lhes dar novas vidas. Tal como, aqui, vemos com as canções (e a própria memória) de José Pinhal. E isso, mais do que um encantamento fugaz (como o são tantos na era da cultura digital) será a grande contribuição que este belo filme nos pode dar. Se é foleiro ou não, estou-me nas tintas.

A Vida Dura Muito Pouco – Celebrando a Obra de José Pinhal”, de Dinis Leal Machado, passa hoje, pelas 19.00 na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, integrado na secção Indie Music do Indie Lisboa. Na mesma sessão passa “Ricardo”, de Luís Sobreiro, outro filme desta mesma secção do festival.

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