Nuno Galopim

Pois um dia teria de calhar a mim… Tinha pensado em falar dos meus discos por alturas do aniversário do GiRA DiSCOS. Pois aqui está um breve mergulho na coleção que, na verdade, está na base de muitos dos textos deste site.

O primeiro disco comprado

Comecei por ter acesso aos discos dos meus pais. Havia ali sobretudo música clássica (Beethoven, Stravinsky, Bruckner, Carl Orff, este último aquele de que mais gostava) e francesa (Brel, Bécaud ou Barbara)… Tinha três anos quando comecei a “brincar” com o gira-discos e os discos dos pais (sim e deixei algumas “marcas” de utilização, vulgo riscos, em vários LP e singles). Tomei-lhe o gosto e comecei a pedir-lhes discos em ocasiões especiais: aniversário, Natal e na altura da Eurovisão… Em 1971 pedi que me comprassem o single com a canção do Luxemburgo na Eurovisão, o Pomme Pomme Pomme, da Monique Melsen. Logo depois também me ofereceram o da Severine (Mónaco) que tinha ganho o concurso nesse ano. Na pequena coleção que ia nascendo, apenas com ofertas (claro), havia histórias e canções infantis. O Joana Come a Papa do José Barata Moura foi um dos primeiros discos que tive… E assim a coisa foi evoluindo nos anos 70, sempre com discos oferecidos nas épocas do ano que acima referi… Até que chegou o ano letivo de 1979/80. Entrei no liceu Pedro Nunes, tinha 12 anos e comecei a receber uma semanada. O contacto com os colegas trouxe outras músicas. Havia quem gostasse dos Dire Straits, que eu achava uma seca. Também não me entendi com os AC/CD, outro dos gostos em voga. Os que ouviam new wave e ecos do punk já me entusiasmavam mais… Mas as eletrónicas (emergentes) eram as que cativavam mais a atenção. E a pop, claro. Havia uma canção quer parecia até querer dizer-nos algo sobre o futuro que aí vinha… Video Killed The Radio Star, dois Buggles. E num “furo” entre aulas fui à Compasso (em Campo de Ourique) e, com as poupanças da semanada e as sobras do orçamento dos almoços, comprei o single… Custou 120 escudos. Nesse primeiro ano no Pedro Nunes comprei singles dos Lene Lovich (Angels), Kate Bush (Babooska), Martha & The Muffins (Echo Beach), OMD (Enola Gay), Vapors (Turning Japanese), Blondie (Call Me), Madness (My Girl), Rolling Stones (She’s So Cold)… E o primeiro LP chegou também por esses dias… o Flex de Lene Lovich. Comprar um LP implicava uma dieta de três semanas a não gastar dinheiro em singles (custavam 360 escudos). O segundo e terceiro LPs, ainda esse ano, foram o The Age of Plastic dos Buggles e o habitualmente chamado Melt, de Peter Gabriel. E nesse mesmo ano “confisquei” aos pais o Voulez Vous dos Abba e o disco vermelho dos Beatles (mal sabia ainda que do azul iria gostar muito mais).

E o mais recente…

Foram algumas edições especiais do Record Store Day: os dois álbuns de David Bowie, o disco ao vivo de Steve Jansen, Richard Barbieri e Mick Karn, a reedição do Chants of India de Ravi Shankar, o EP com a sessão que os New Order gravaram para John Peel em 1982, uma reedição de uma compilação japonesa dos Pale Saints, o álbum Exotic Moog de Martin Denny e o Cascades 2020 dos Future Sound of London. Ainda tenho de tratar de comprar um dos picture discs dos Cure… E ainda não arranjei a edição em vinil rosa do A Diamond in the Mind dos Duran Duran… Ao mesmo tempo, mas em compras (regulares) online, continuo a juntar discos de Amália que ainda não tenho (e aqui tenho muito trabalho pela frente), tenho comprado vários de Wendy Carlos e estou agora a tentar completar a coleção de 45 rotações dos Style Council, Yello, Kate Bush e Talk Talk (faço as buscas, por etapas, focadas em artistas). Estou esta semana à espera que cheguem a casa os novos LP dos Yello e Erasure (já encomendados)… Este mês comprei ainda o mais recente Cucina Povera e a reedição do álbum dos Ceramic Hallo diretamente no Bandcamp. Sim, o panorama é sempre este exagero (e esta dispersão de nomes e géneros)…

O que procuro juntar na coleção?

A minha coleção principal é a de discos de sete polegadas (singles e EPs). Coleciono artistas que admiro (portugueses e não só) e tenho algumas coleções temáticas que transcendem os formatos (uma delas a dos discos da Red + Hot Organization, outra a Eurovisão, e aqui tenho grande parte dos singles e depois CD singles desde 1956 e muitas compilações). Em LP (vinil) compro essencialmente discos dos artistas de que mais gosto, consoante me aparecem pela frente (sejam novidades, reedições ou discos em segunda mão). Já comprei mais CD, mas hoje esse é sobretudo um formato ao qual recorro quando há boas caixas antológicas, edições especiais, compilações. Também tenho uma boa coleção de bandas sonoras… Nos últimos anos tenho aproveitado cada projeto que faço em televisão para completar as discografias dos artistas que tenho abordado. Assim, por exemplo, ao fazer a série Vejam Bem, na RTP, ampliei bastante (e muitas vezes chegando ao patamar do “ter quase tudo”) as discografias de Simone de Oliveira, José Mário Branco, José Cid, Jorge Palma, Lena d’Água, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Pedro Abrunhosa, Marco Paulo e UHF. Este ano, ao fazer o Eu, Amália, dei por mim à procura do que de Amália me faltava (e ainda falta bastante… basta folhear o livro do meu amigo Ramiro Guiñazú e notar que ainda sou iniciado neste departamento). Estou com outras discografias em curso… Se calhar com novos programas em vista… stay tuned

Um disco pelo qual esteja à procura há já algum tempo.

O disco que talvez mais procure hoje em dia é o duplo LP Algumas Canções do Meu Caminho (1992) de Simone de Oliveira. É o que me falta para acabar a sua discografia. O álbum Crystal Palace, o primeiro de Jean Michel Jarre, está igualmente na wishlist, assim como o single Khoutek – Kommetenmelodie (1973) dos Kraftwerk. Ainda hei de conseguir o Anyone Out There dos Duran Duran (single brasileiro) com capa… Estes três estão a preços incomportáveis no Discogs… Mas vale a pena saber esperar… (ver resposta seguinte).

Um disco pelo qual esperei anos até que finalmente o encontrei.

Andei anos atrás do Hymnen de Karlheinz Stockhausen até que arranjei um exemplar NM a um preço decente. Tenho o 2LP editado pela Deutsche Grammophon e também a versão em 4CD da Stockhausen Verlag (que acrescenta outra abordagem a esta mesma peça fucral na história da música eletrónica). O mesmo aconteceu com a ópera Akhnathen (versão em vinil) do Philip Glass, que levou tempo a aparecer num bom exemplar em vinil (o CD tinha-o já desde 1987). Há uns dois meses encontrei (finalmente) o single El Diablo dos Arcadia, completando assim a sua discografia… É um sete polegadas promocional apenas editado em Espanha em 1986… Já o perseguia há uns anos…

Limite de preço para comprar um disco… Existe?

O maior “investimento” que fiz foi com o EON, uma caixa com livro e discos (vinil e CD) do Jean Michel Jarre. 300 euros… O single dos Arcadia também não foi barato… Mas geralmente não sou dado a muitas compras caras… Estas são raras exceções e não a regra.

Lojas de eleição em Portugal…

Em Lisboa vou acima de tudo à Louie Loiue, Carbono e Discoleção (desde os tempos do Hotel Amazónia). Mas também gosto muito da Flur, Tabatô, Groovie Records e PeekaBoo. Ainda não fui à Jazz Messengers nem à Neat Records… Ambas na agenda do “a tratar brevemente”… Ainda no ano passado passei umas belas tardes na Discoteca Festival, antes de fechar… No Porto sou sobretudo cliente habitual da Matéria Prima, Tubitek e Louie Louie, mas passo pelas outras lojas da cidade quando lá vou. Em Coimbra, naturalmente, a Lucky Lux.

E lá fora?…

A cidade que mais vezes visitei foi Londres (desde os anos 80 já são mais de cem viagens)… E desde 1989 passo sempre pela Sister Ray (que, é verdade, já viu melhores dias). Ali em frente a velha Reckless Records continua a ter surpresas e bons preços. Se tenho tempo vou a Botting Hill Gate, à Vinyl Exchange (que era bem melhor quando tinha três lojas separadas, uma delas só para clássica e uma outra com incrível oferta de singles… agora está tudo sob um mesmo telhado). Das lojas mais recentes faço sempre questão de passar pela Sounds of The Universe, a If Music e a Rough Trade – East. E dava um jeitão que a Honest Jon’s fosse ali mais no centro… Em Viena (Áustria) encontrei a Teuchtler Schallplattenhandlung, que é das melhores lojas em que estive, com uma das melhores seleções de clássica em vinil de que me lembro. Entre as melhores recomendações de viagens recentes juntava a City Records em Amesterdão e a Best Records em Munique. Nestas duas últimas valeu não foi apenas a oferta em discos, mas a boa conversa com os donos das lojas (e isso é determinante numa loja de discos).

E feiras de discos?

Vou sempre. Não resisto. E vou mais do que uma vez… A primeira visita para o “lá terá de ser”… A segunda e a terceira para correr tudo de fio a pavio… Nunca fui a nenhuma feira internacional. Mas a possibilidade do excesso de bagagem no regresso é um cenário que um dia terá de ser equacionado…

Como estar informado sobre discos que possam interessar como colecionador?

Além das revistas para colecionadores – Record Collector (UK) e Goldmine (US) – sou leitor regular da Mojo (sim, deve ser da idade) e Electronic Sound (esta é a que está mais perto do que mais gosto de ouvir). Em função dos conteúdos de cada edição logo decido se compro a Wire ou a Uncut, entre outras. Gosto também da Record. O site Super Deluxe Edition é bom para acompanhar as reedições e caixas… Também frequento sites de lojas e de editoras para ver o que anda por aí… Mas ainda gosto de acumular papel em casa, é verdade…

Que formatos estão representados na coleção?

De vinil há muitos 7 polegadas (singles e EP), máxis e LP… A dose de CD, por conta de anos de trabalho, é, mesmo assim, ainda maior. Tenho algumas cassetes e discos de 78 rotações (sim tenho um gramofone para os escutar). E apenas um cartucho (da banda sonora de A Laranja Mecânica), que serve para dizer que, pelo menos, tenho um…

Os artistas de quem mais discos tenho…

Philip Glass e David Bowie estão em clara vantagem aqui. Depois há muito Duran Duran, David Sylvian (inclui Japan), Depeche Mode, Pet Shop Boys, Madonna, Kraftwerk, Human League, Marc Almond (inclui Soft Cell), Prince, Beatles, Nick Cave, Bob Dylan, Blur, Sufjan Stevens, Joni Mitchell, Jacques Brel, Frank Sinatra, Stevie Wonder, Caetano Veloso, Chico Buarque, Amália Rodrigues, José Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco… Na clássica há ainda boas representações de Stockhausen, John Adams, Steve Reich, Carl Orff, Henze, Messiaen e gravações de obras de Brahms, Sibelius, Bruckner e Mahler. No jazz Miles Davis e Nina Simone são quem mais ordena…

Editoras cujos discos comprei mesmo sem conhecer os artistas…

Coleciono vinil da 4AD (incluindo a fase AXIS, da qual tenho os quatro singles)… Estou a completar a coleção à medida que passam 40 anos sobre os títulos editados… Aderi sempre com entusiasmo a edições da Talkin’ Loud, ECM e Mute Records… E geralmente com boas surpresas. Em tempos também seguia atentamente a Crammed e a Nonesuch.

Uma capa preferida.

O Actually, álbum de 1987 dos Pet Shop Boys. Um bocejo deve ser a imagem menos recomendada por quem imagina o potencial de sedução da iconografia da pop… Mas o bocejo de Neil Tennant mostra aqui o que muitos, por vezes, não parecem saber reconhecer nos Pet Shop Boys: uma inteligente irreverência. Na lista das melhores capas teria também o Screamadelica dos Primal Scream. E ainda o Secrets of The Beehive do David Sylvian. E lá perto o Words With The Shaman e o Tin Drum dos Japan…

Uma disco do qual normalmente ninguém gosta e que tenho como tesouro.

Cresci a ouvir a pop (muita dela eletrónica) nos 80s e a ler valentes sovas de porrada aos discos de que mais gostava na imprensa local. Fiquei por isso vacinado bem cedo quanto aos embates com os gostos dos outros. Gosto quando cada um faz o seu gosto… Não sou adepto nem das unanimidades (porque só podem ser forçadas) nem das polícias do gosto. E estou-me nas tintas para os “hipsterismos” do momento, os sabores da saison, e declarações de almas que se movem em função do “é de bem ouvir isto” ou dizer bem ou mal daquilo, porque é… tendência ou é cool ou lá o que seja… Pode alguém ser quem não é… já dizia o Sérgio Godinho. E por tudo isto não acredito também em “guilty pleasures”. Porquê “guilty”? Acho, por exemplo, que o The Visitors (1981) dos Abba é um álbum pop incrível. E quem não gostar é como nos restaurantes: há carne ou peixe e ainda opção vegetariana. Bom mesmo é partilhar o entusiasmo pelos discos. Umas vezes em sintonia de gostos, outras em oposição… E como a música se transmite no ar em ondas sinusoidais, a coisa até faz sentido.

Como estão arrumados os discos?

Sempre por ordem alfabética dentro dos géneros. Tenho zonas individualizadas para pop/rock, clássica, música portuguesa, jazz, eletrónica, soul e funk, música francesa, música brasileira, world music, hip hop, compilações (aqui com zonas distintas para tributos e séries temáticas). Esta é a arrumação nos CD, que é igualmente parecida no vinil. Dentro de cada artista os discos estão cronologicamente ordenados. As maiores discografias em 45 RPM estão em caixas, aqui tanto focando os artistas de quem procuro chegar às integrais. Eurovisão é também coleção arrumada em caixas.

Um artista que ainda por explorar…

Não será surpresa referir aqui Frank Zappa. É um mundo vasto e pede tempo. Tenho apenas uma dezena de discos… Falta-me conhecer muito… Recentemente decidi mergulhar mais a fundo no krautrock (e estou a gostar)… Talvez o Zappa venha a seguir…

Um disco de que antes não gostasse e agora está entre os preferidos.

Levei anos a embirrar com o Bob Dylan até que decidi escutá-lo… Hoje mora entre as minhas referências. Gosto particularmente do Modern Times, que foi o disco com o qual fiz o clique. O mesmo aconteceu com os Pink Floyd. Birra tremenda, que também passou… Achava que só a fase do Syd Barrett é que interessava… Manias… Hoje escuto o Atom Heart Mother e acho-o incrível… É bom mudar de opinião, sobretudo quando se aprende a gostar de algo que antes sabia mal (é como as couves de Bruxelas… aprende-se a gostar). Mais chato é o contrário… Perder entusiasmo… E isso comigo aconteceu com os Sigur Rós. Não tenho mesmo paciência para os escutar hoje em dia… E há uns 20 anos lá estava na primeira fila dos concertos… É assim… vamos mudando. Só os robots não mudam (a menos que sejam reprogramados).

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Aqui fica um exemplo…

Estava já na faculdade a estudar geologia quando a Teresa Azevedo, uma professora do departamento (mas que curiosamente nunca me deu aulas), me emprestou um disco. Bom vale a pena dizer aqui que conhecia os professores quase todos desde catraio (afinal eram colegas do meu pai). Sabendo que eu gostava de música, a Teresa emprestou-me Songs From Liquid Days, um ciclo de canções no qual Philip Glass colaborava com nomes como os de David Byrne, Laurie Anderson, Suzanne Vega ou Paul Simon… Como se não bastasse, naquela noite a RTP2 apresentou o episódio dedicado a Philip Glass de uma série sobre compositores americanos realizada por Peter Greenaway… Coincidências incríveis, não? Se de tarde tinha ficado encantado com Songs From Liquid Days (que ainda hoje é o meu disco favorito), de noite descobri desafios maiores com excertos de Glassworks e da ópera Einstein on The Beach… Havia aqui perto de casa, no Príncipe Real, uma loja de discos chamada VGM… Foi lá que comecei a comprar discos de Philip Glass. Mas também de Steve Reich, Terry Riley, John Adams, Wim Mertens, Michael Nyman… Essa música passou a ser a que mais me motivava a querer saber ainda mais… E, no fundo, aquele dia ao som de Philip Glass esteve na origem da mudança de rumo profissional que evitou que fosse um geólogo à espera do ordenado para ir comprar discos.

Um disco menos conhecido que recomendo…

A resposta tem a ver com discos que estive a ouvir nas férias. Dei por mim a caminhar entre os álbuns de world music e de encontros entre músicas e culturas que comprei nos anos 80 e 90. Já não escutava alguns há muito e deixo aqui três sugestões: Atish da indiana Najma, Odes da grega Irene Papas (com Vangelis como colaborador) e o encontro de Nusrat Fateh Ali Khan com Michael Brook em Night Song… Amanhã daria três sugestões completamente diferentes…

2 pensamentos

  1. Eu às vezes penso nisto. Não sendo propriamente um coleccionador, tenho uma vasto conjunto de discos. Um dia, se não tiver herdeiro para este meu gosto musical, o que fazer deles? Não me importava de os doar a uma instituição que deles cuidassem e fizessem bom uso.
    Penso que esta questão se porá a muitos dos apaixonados/exagerados como eu.
    Poderá a Fonoteca Municipal de Lisboa ser uma solução?
    Abraço,
    Pedro Ivo

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