Jean Michel Jarre não costuma ter palavras na sua música… Mas agora juntou 380 páginas de memórias e reflexões num livro

A história de um ‘side-car’ comprado na digressão chinesa de 1981 ou a passagem pelo estúdio de Pierre Schaeffer são recordações de um livro de Jean Michel Jarre que quer ser mais do que apenas um retrato da história da sua música. Texto: Nuno Galopim

Contar histórias de uma vida através de uma série de objetos que consigo se cruzaram ao longo dos anos… Este foi o caminho que Jean Michel Jarre encontrou para fazer de Mélancolique Rodéo um livro que não corresponde exatamente à noção de uma autobiografia narrativamente ancorada apenas numa sucessão cronológica de factos recordados, mas antes uma coleção de memórias e reflexões que, tal como as peças de um painel de azulejos, no fim revelam uma imagem.

Os objetos são 39. E entre eles tanto encontramos um copo de vidro como uma mala de crocodilo… Intrigantes escolhas talvez, mas cada uma guarda memórias… Há também o seu primeiro gira-discos ou um velho gravador de bobinas. E um side-car (que comprou na China) ou a sua célebre “harpa laser”. Ou até a sua cozinha (onde gravou o histórico Oxygène) ou a mão de John Cage. E a mão deste último está aqui porque um dia, estava a mãe grávida do pequeno Jean Michel, quando se cruzou com John Cage e este, colocando a mão na barriga, perguntou: “está aqui um músico”?

Entre o plano pessoal e o profissional as memórias e reflexões lançam histórias que a leitura depois arruma. A ausência do pai é notada. E são lembrados tempos em que a pintura esteve, par a par com a música, na linha do que poderia ser o horizonte de futuro de um ainda muito jovem Jean Michel.

Confesso que me interessou mais o percurso na música. E aqui há memórias da passagem pelo estúdio de Pierre Schaeffer (e ali mesmo reflexões sobre o trabalho na música, algumas das quais o jovem estudante sentiu que devia contrariar), assim como algumas recordações de primeiros tempos de ligação à Dreyfus, trabalhando sobre a música dos outros…

Do seu percurso musical há álbuns mais detalhadamente abordados do que outros, mas na verdade é a criação dos grandes concertos que aqui motiva a escrita mais parágrafos. A primeira mega-produção em Paris, a 14 de julho de 1979 na Praça da Concórdia tem o sabor da descoberta de algo novo (mas que sublinha toda uma história pessoal de relacionamento com as imagens e uma sede de aventura e desafio).  E se a operação chinesa em 1981 revela sinais de um valente choque de culturas, já o concerto em Houston em 1986, imediatamente após o acidente do Challenger (a bordo seguia um saxofonista que iria entrar em direto do espaço) sublinha a incessante vontade em procurar transcender fronteiras.

Naturalmente não é esquecido o “episódio” Music For Supermarkets – o disco do qual se fez apenas um exemplar e que foi leiloado tal como aconteceria com uma obra de um pintor. Nem faltam referências a Zoolook (um álbum que muitos têm ainda por redescobrir) ou ao disco criado como homenagem ao comandante Cousteau… Mas, ao cabo das cerca de 380 páginas (que incluem uma playlist de canções e uma lista de sintetizadores “para geeks”), fica a sensação de que, a este Mélancolique Rodéo faltam mais (e mais alargados) segmentos dedicados à descoberta dos sons, à própria história da música eletrónica, à criação um a um de todos os discos… Nas entrevistas que habitualmente concede (e Jean Michel Jarre é sempre um excelente entrevistado) fica claro que ele mesmo deverá ser a voz para contar essas outras histórias… Mélancolique Rodéo é uma experiência de escrita mais autoral, pelo que Jean Michel Jarre quis aqui seguir por outros caminhos menos… jornalísticos. Nada contra. E há no livro belos momentos de descoberta da figura que está por detrás desta música. Mas o peso histórico da obra de Jarre pede que a este volume se possa, mais dia, menos dia, juntar um outro. Talvez com a ajuda de alguém mais habituado a contar histórias, e sem um programa autoral (do visado) a desenhar as regras do jogo narrativo.

“Mélancolique Rodéo”, de Jean Michel Jarre, é um volume de 384 páginas editado pela Robert Leffont

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