Pode ser uma frase batida, mas estes foram os dois primeiros discos do resto da discografia de Sérgio Godinho

Reeditados após um tempo de ausência das lojas de discos, os álbuns “Pano Crú” (1978) e “Campolide” (1979) permitem reencontrar um momento absolutamente marcante na obra de Sérgio Godinho. Texto: Nuno Galopim

A história da criação artística reflete ou relaciona-se com os percursos e cenários que, com as mesmas regras da passagem do tempo (aquelas que fazem com que um dia tenha 24 horas, a semana sete dias, os meses 28, 29, 30 ou 31 dias, o ano 12 meses…), definem a vida real. Ao olharmos para a obra de Sérgio Godinho (que ainda há semanas acrescentou uma nova canção a um já longo caminho) encontramos um “antes” refletido nos seus dois primeiros álbuns, um “durante” expresso no tom à queima-roupa com que são lançados o terceiro quarto discos e o “depois” que nasce logo a seguir. Estas fronteiras de tempo têm naturalmente a ver com condicionantes políticas e da história pessoal do próprio Sérgio Godinho que fizeram com que Os Sobreviventes (1972) e Pré-Histórias (1973) tivessem nascido num tempo de vida em exílio (mas menos distante de Portugal nos temas do que na geografia em que as canções ganharam forma) e que À Queima Roupa (1974) e De Pequenino Se Torce o Destino (1976) tenham marcado intensamente um período de mudança de rumo na sociedade portuguesa e de uma particular atenção concedida à canção como uma voz que retratava o presente e servia de imediata voz crítica e de alerta depois da revolução.

A progressiva “normalização” da vida política e social em democracia acolhe toda a obra de Sérgio Godinho desde esses dias, os passados mais longe e os vividos em climas mais quentes. Não que alguma vez tenha deixado de olhar e comentar o mundo político e social (o Novo Normal é um olhar atento ao 2020 que estamos a viver)… Mas mais do que os temas cantados, nesse “depois” mudou talvez a forma como muitos passaram a encarar a música de Sérgio Godinho. A escutá-la como mais do que a expressão da voz de um cantor político. E convenhamos que vê-lo desse modo sempre foi redutor até porque, logo desde o início, nas suas canções havia também histórias de amor, figuras maiores criadas tal como um escritor molda personagens de ficção ou observações vivenciais do mundo em que vivemos.

O “depois” de 1976 para Sérgio Godinho manteve firme estes mesmos rumos para a canção. Mas, talvez mais ainda do que em discos anteriores (onde não deixara de haver experiências por vários rumos estéticos, como por exemplo os do rock em Etelvina), o “depois” revelou ser terreno para diversas abordagens nas quais os rumos para o desenho das canções e a família de colaboradores chamados para lhes dar forma final ajudaram a sugerir outras etapas, outros caminhos, outras descobertas…

Há discos que, por si só, fixam episódios particularmente distintos, como sucede por exemplo em Coincidências de 1983 (com evidentes ligações à música do Brasil), Na Vida Real de 1986 (onde António Emiliano ajuda as canções a experimentar outras possibilidades instrumentais) ou Domingo No Mundo de 1997 (que lança as bases para questionar uma renovação ao estabelecer novas ligações a uma geração de músicos vindos de terrenos pop/rock que depois ganha um espaço próprio logo a seguir). Mas este “depois” começa, necessariamente com um “primeiro dia”. E aqui a lógica da criação artística desafiou as leis do tempo. É que o “primeiro dia” deste “depois” de Sérgio Godinho na verdade estendeu-se num ciclo de três álbuns de estúdio, lançados entre 1978 e 1981. Pano Crú (1978), Campolide (1979) e Canto da Boca (1981) definem, sem desmerecimento para o que vinha de trás, o momento em que a linguagem musical e poética de Sérgio Godinho alcança, aprofunda e demarca definitivamente a plenitude da sua identidade.

A cada um de nós caberá o gosto de definir, entre os seus discos, aqueles de que mais gosta. Mas entre estes três álbuns ficou fixada a força de uma forma muito pessoal de pensar a canção que rapidamente entrou na nossa memória coletiva. E não é por acaso que entre os três álbuns nasceram alguns dos seus maiores clássicos. Ausentes dos escaparates há já algum tempo, os dois primeiros títulos deste trio de discos (que correspondem à breve etapa em que Sérgio Godinho editou pela Orfeu) regressam finalmente, tanto em formato de LP e CD, como estão igualmente disponíveis nas plataformas digitais. E agora sim, um olhar panorâmico sobre a sua obra volta a ser possível.

Escutemos então com algum detalhe mais estes dois discos que agora regressam.

Editado em 1978, Pano Crú concretizou de forma bem evidente os vários sinais de mudança que tinham sido indiciados no álbum de 1976. E, sobretudo depois de um período em que a vida política habitara quase todas as conversas do quotidiano, Pano Crú propunha um novo conjunto de dez canções entre as quais sobressaíam claramente narrativas de amor e histórias vivenciais, não significando, porém, uma cedência nos espaços do comentário e da crítica ao presente político (escute-se aqui Lá Isso É). Do alinhamento deste disco surgem canções como O Primeiro Dia (que aborda a questão da renovação dos afetos), 2º Andar Direito (que podia ser uma sequência de um filme de bom realismo social) ou A Balada da Rita (uma canção na qual Sérgio Godinho canta do ponto de vista de uma personagem feminina), que conheceria depois nova leitura na voz de Lia Gama no filme Kilas, O Mau da Fita. Em O Galo é O Dono dos Ovos nota-se um exemplo de um labor mais elaborado na escolha das palavras. Era uma certa “carpintaria” de palavras, como o próprio Sérgio Godinho depois descreveu. Musicalmente Pano Crú é um disco aberto a vários horizontes e caminhos, um deles traduzindo ecos de um interesse em explorar formas e timbres da música popular tradicional, o que se nora tanto em Venho Aqui Falar, Lá Isso É como em A Vida é Feita de Pequenos Nadas, esta última uma homenagem a António Mafra, figura à qual a música de Sérgio Godinho voltaria a regressar. Já o Homem Fantasma traduz uma experiência inédita, chamando pela primeira vez a um arranjo um grupo de sopros (neste caso específico resultado de um belíssimo arranjo de Carlos Zíngaro).

Depois de uma digressão – a que chamou “Sete Anos de Canções” – Sérgio Godinho regressou a estúdio para gravar o disco a que chamaria Campolide (título sugerido pela fotografia usada na capa). Nascem ali mais dois clássicos maiores. Um deles, Cuidado com as Imitações, é um retrato de uma figura: o Casimiro, um tipo que desmascara as burlas dos poderosos. E na verdade deve o seu título a um episódio curioso quando, à mesa de um restaurante, Sérgio Godinho dá com uma daquelas velhas embalagens de palitos que garantia que os que ali estavam guardados eram bons, pelo que era preciso ter “cuidado com as imitações”. O outro clássico que aqui surge é Espectáculo, canção que tinha conhecido uma primeira vida no álbum Doce de Shila, na voz de Shila. Passo de continuidade face aos caminhos trilhados em Pano Crú (e mantendo a mesma equipa), em Campolide encontramos novos momentos de exploração de ecos da música popular tradicional em Vivo Numa Outra Terra (uma canção sobre emigração na qual colabora Vitorino), revelando depois Quatro Quadras Soltas uma celebração da poesia popular, contando com a colaboração vocal de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Fausto. Na linha dos retratos vivenciais que ajudam a criar retratos de uma sociedade o alinhamento junta  Arranja-me Um Emprego. Mudemos de Assunto, por sua vez, revela marcas de busca da atrás referida “carpintaria” na escrita para canções. O álbum inclui ainda dois temas criados para a banda sonora do filme de Pierre Kast Le Soleil en Face. Uma delas o instrumental que dá título ao filme (onde se escuta uma guitarra portuguesa tocada por Pedro Caldeira Cabral), a outra Os Conquistadores, um olhar lançado não apenas sobre o passado dos portugueses nos tempos dos descobrimentos, mas também capaz de traduzir ecos mais recentes ligados às consequências da descolonização.

Em conjunto Pano Crú e Campolide definem uma breve etapa numa editora diferente (a Orfeu). Mas musical e poeticamente são discos determinantes numa evidente afirmação do alcançar pleno de uma identidade. Editado dois anos depois de Campolide, o álbum Canto da Boca reforçaria e aprofundaria estas conquistas. Mas nada era dado por definitivo. Já que, logo depois, ao escutarmos Coincidências (1983) ficaria claro que o gosto pelo desafio abria novos caminhos, o mesmo acontecendo no Salão de Festas (1984) onde surgiam em evidência vários músicos de jazz. E a coisa não ficaria por ali… No fundo era como quem diz… “mudemos de assunto”.

“Pano Crú” e “Campolide” de Sérgio Godinho têm novo lançamento em LP, CD e estão disponíveis nas plataformas digitais, em edições pela Universal

Um pensamento

  1. As canções do Sérgio Godinho têm a capacidade de nos transportar em realidades paralelas, populares e futuristas.

    Nelas consigo encontrar viva voz de tempos que naturalmente não vivi, vivendo-os, e ao mesmo tempo dão-me a esperança eterna pelo futuro que sobressai em tempos estranhos, extraterrestres. São um eterno calmante às memórias e aos novos dias.

    Tempos que nos fazem espreitar encolhendo o dorso, timidamente escondendo a cara e as brechas da mão abertas para o olho espreitar direto ao sol. E o Primeiro-Dia, feitos de Pequenos Nadas volta sempre a Pano-cru para nos acalmar e lembrar que o sol nasce sempre, para toda a gente.

    E voltarão os dias de festa, ou os dia de Sérgio Godinho, se preferirmos.

    =)

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