Navegando entre o “Archipelago”, vencedor do primeiro Play para a música clássica/erudita

Editado na reta final de 2019, o álbum “Archipelago” junta a música de Luís Tinoco ao Drumming GP. O disco conquistou o primeiro Play na área de clássica/erudita. E vale a pena ler o que sobre ele nos conta o seu compositor. Entrevista de Nuno Galopim

O Drumming – Grupo de Percussão surge neste disco como um parceiro que é mais do que apenas um grupo que interpreta… Do Drumming GP partiram dois desafios de composição que aqui se materializam em gravação. O que vos aproximou e como têm mantido um relacionamento ao longo dos anos?

A minha relação profissional e de amizade com os Drumming começou em 2003 quando o grupo estreou “Imaginary Dancescape – a melodrumming after Cocteau” – uma peça para voz masculina e ensemble de percussão, que escrevi para um ciclo da Culturgest, a convite de António Pinto Ribeiro.

Eu já era um admirador do trabalho dos Drumming e do Miquel Bernat, apesar de o grupo, na altura, ainda ter uma história breve. Desde a sua fundação, o projecto Drumming distinguiu-se pela excelência dos seus músicos e pela originalidade e transversalidade dos seus projectos, facto que me levou a propor que a peça “Imaginary Dancescape” fosse escrita para eles. Recordo-me também da disponibilidade e generosidade dos músicos na forma como me ajudaram a investigar diferentes tipos de recursos, fazendo sugestões e contribuindo para que o meu interesse e curiosidade pela percussão se aprofundasse.

Desde então, essa cumplicidade foi-se intensificando e posso dizer que tenho sido um privilegiado pelo facto de o Miquel me ter lançado vários desafios para novas colaborações e, mais recentemente, para gravarmos um CD com a minha música para percussão.

Como se define um conceito de álbum a partir de um conjunto de peças que cruzam vários anos e até resultaram de projetos de trabalho com várias instituições?

O álbum surge na linha de programação que os Drumming têm seguido ao longo dos últimos anos, e que tem incluido a gravação de vários discos monográficos com a música de compositores ibéricos. Por outro lado, eu tenho vindo também a procurar fixar em CD o meu trabalho, gravando vários projectos temáticos. O primeiro, gravado em 2005, foi dedicado à minha música de câmara. Seguiram-se dois discos focados no meu repertório orquestral, dado que tenho investido bastante na escrita de música para orquestra. Mas durante 20 anos, não só através da minha relação com os Drumming mas também fruto de colaborações com outros percussionistas como o Pedro Carneiro ou a Elizabeth Davis, entre outros, fui escrevendo regularmente para percussão e, a dada altura, percebi que tinha chegado o momento de compilar essas composições e reuni-las num disco. O CD Archipelago surge, assim, no cruzamento de duas trajectórias – por um lado, o percurso consistente dos Drumming e, por outro, a minha vontade de ir fixando o meu trabalho em colaborações com intérpretes de grande qualidade.

Havia várias possibilidades na hora de pensar um título. Como se chegou a “Archipelago” e que significados o termo pode lançar ao abraçar as restantes peças que fazem este alinhamento?

O tema da água tem surgido com alguma regularidade no meu trabalho ao longo dos anos, tanto em peças de câmara, como na escrita orquestral. Por outro lado, na peça mais recente que incluímos neste CD, intitulada Archipelago, explorei um conjunto de sonoridades “liquidas” do vibrafone desenvolvidas numa estrutura formal de pequenas secções, que associei à ideia de ilhas. A escolha do título do disco surgiu assim, naturalmente, como consequência de essa ser a peça mais recente e, também, por permitir resumir a ideia de que este projecto reúne um conjunto de peças / “ilhas” criadas ao longo de várias anos, unificadas pelo naipe instrumental da percussão.

A título mais pessoal, acrescento ainda o facto de acreditar que cada nova partitura surge sempre num contexto, num momento particular, mas que não existe necessariamente como um objecto isolado, do que a antecedeu e do que virá a seguir. Ou seja, cada peça acaba por ser um episódio de uma cadeia que se desenvolve ao longo dos anos e que, com o tempo, acaba por definir o ADN do compositor. Por vezes, podemos até concluir que essa cadeia começa a definir-se ainda antes da produção de cada autor, nomeadamente, através daquelas que foram as suas referências e estímulos exteriores. No meu caso, por ser filho de um músico, essas raízes começaram naturalmente na música que o meu pai fazia, desde o álbum de rock progressivo “Homo Sapiens” (que ele gravou em 1976 com o grupo Saga), ao CD “Arquipélago” que gravou em 2007 com Bernardo Sassetti, Mário Laginha e João Paulo Esteves da Silva, entre outros. Ou seja, numa esfera muito pessoal, posso dizer que este archipelago assume-se também como uma herança e faz parte de uma cadeia que, muito provavelmente, será continuada pela geração seguinte. 

Foto: Tommaso Tuzj

O trabalho de grafismo e fotografia neste disco reafirma a noção de que a música é coisa que se vê. Além da cor há, sobretudo na imagem da capa, uma sugestão de que olhemos sob outros pontos de vista. Esta sugestão habita o compositor na hora de pensar como a música se pode materializar em função dos intérpretes e ensembles com quem se grava um disco?

A imagem da capa surgiu com o fotógrafo da editora, Tommaso Tuzj, que veio fazer fotografias para o álbum aproveitando uma ocasião em que os Drumming estavam a ensaiar para um concerto no Teatro Nacional S. João, no Porto. Dado que o Tommaso ainda não tinha ouvido o álbum, pediu-nos que lhe explicássemos o conceito do disco para procurar encontrar uma imagem. Conversámos sobre a ideia de ilhas e ele acabou no topo do teatro, na zona técnica, a tirar fotografias dos instrumentos que estavam dispersos no palco, como se estivesse a observar “ilhas” de instrumentos, vistos de cima. A fotografia é excelente e o trabalho gráfico teve essa felicidade de captar de forma muito eficaz aquilo que queríamos transmitir.

Concordo que a música é também algo que se vê. A componente visual e plástica do som é algo que me interessa particularmente, talvez por ser um apaixonado pelas artes visuais. No entanto, apesar de estar totalmente em sintonia com a ideia de que um disco é um objecto que pode seduzir-nos também pelo cuidado gráfico com que é desenhado, o meu desejo maior, enquanto músico, irá sempre no sentido de que essa riqueza visual se revele essencialmente através da escuta e das qualidades da música em si mesma. 

Mas destaco, ainda, o contributo excepcional dos engenheiros de som, Hugo Romano Guimarães e Santi Barguñó, na forma como gravaram este disco, criando também um conceito de som com uma plasticidade admirável e oferecendo-nos mais um ponto de vista que em muito contribuiu para a forma como a música se materializou.

Os “fados geneticamente modificados” são uma das peças centrais do disco (e do relacionamento com o Drumming GP). Como surgiu esta visão de abordagem ao fado e à própria memória de gravações de outros tempos?

Surgiu de uma das situações que mais me estimulam quando sou desafiado para um novo projecto. Refiro-me aos casos em que começo por ficar totalmente perdido, sem fazer a mínima ideia de como resolver esse desafio. 

Se quiser enumerar as maiores riquezas que encontro no fado, muito provavelmente acabarei por falar na vocalidade dos intérpretes, nas imagens que nos são contadas pelas palavras, na ornamentação melódica, na cor dos instrumentos que acompanham as vozes, etc., mas, com maior dificuldade incluirei parâmetros como harmonia ou ritmo. Neste contexto, quando os Drumming me desafiaram a escrever uma peça que visitasse o fado, imediatamente pensei na dificuldade que seria fazê-lo através de o naipe da percussão que, como é sabido, não tem qualquer relação directa com este género musical. As gravações históricas, com excertos de vários fados e canções interpretadas por algumas vozes emblemáticas, surgem assim como uma solução para superar o primeiro obstáculo. Depois de tomar a decisão de introduzir a voz através destes registos históricos, o passo seguinte foi encontrar um conceito que permitisse apresentar essas fontes sob uma perspectiva diferente, nomeadamente, manipulando-as, transformando-as através de edição e manipulação por computador, e combinando-as depois com os instrumentos de percussão.

O recurso a fragmentos de gravações permitiu-me, também, trazer para um primeiro plano a nostalgia que todos associamos ao fado, não apenas através do som “envelhecido” das gravações antigas mas, também, da audição de palavras ou frases como “os teus olhos são tão tristes”, ou “volta, que já perdoei”, etc.

O que mais desafia um compositor ao trabalhar com um grupo de percussão? “Steel Factory”, igualmente comissionado pelo Drumming GP, segue por caminhos bem diferentes dos que abordaram nos “fados”…

Mais uma vez, a dificuldade pode ser um enorme estímulo. Tanto os já citados “Fados Geneticamente Modificados”, como “Zoom in – Zoom out”, ou “Steel Factory”, todas estas composições nasceram de desafios muito específicos: revisitar o fado, desconstruir a bossa, compor para ensemble de “steel drums”… Para esta última, os Drumming tinham adquirido um naipe de tambores de aço (steel drums), que são instrumentos muito utilizados na música tradicional das Caraíbas e que têm características tímbricas (e de afinação) muito específicas.

Neste caso, comecei por pedir ao Miquel Bernat que tocasse em vários desses tambores – uns mais graves, outros mais agudos – e que me mostrasse as diferentes afinações de cada instrumento do conjunto. Gravei tudo e anotei todas as notas disponíveis e a composição começou por nascer assim, associada às características e estrutura daqueles instrumentos. Depois, a sua sonoridade metálica, de aço, permitiu-me fugir da “armadilha” da citação da música tradicional e explorar uma dimensão mais mecânica e industrial da música, como se os intérpretes estivessem a reproduzir sons de uma fábrica. Para isso acrescentei alguns instrumentos extra como placas de aço de diferentes dimensões ou peles (bombo e bongós).

Ao vivo, a peça explora ainda uma dimensão visual, de certo modo coreográfica, quando os músicos tocam em diferentes partes dos steel drums graves (do tamanho de bidões de metal), criando a impressão de um movimento de peças de máquinas, subindo e descendo. 

O naipe da percussão tem potencialidades únicas nos planos coreográfico e cénico. Como tal, tenho procurado aproveitar essa riqueza desde que escrevi “Imaginary Dancescape” ou até em peças para percussão solo, como é o caso de “Mind the Gap”, a peça mais antiga deste disco, que compus para o Pedro Carneiro em 2000. 

Vale a pena falar da Odradek Records. É uma editora que propõe uma relação diferente entre o músico e o processo de edição, envolvendo-o… Como tem sido este relacionamento e o que tem de diferente (e eventualmente atraente)?

No projecto da Odradek interessa-me, por um lado, o facto de o seu catálogo ser construído ao longo do tempo pelos próprios músicos. Cada projecto é submetido anonimamente, seguindo-se um processo de selecção que é feito pelos artistas que foram integrando o catálogo em edições anteriores. De certo modo, a escolha acaba por ser feita pelos nossos pares em vez de ficar nas mãos de um grupo restrito de pessoas, e essa é uma ideia interessante. Por outro lado, trata-se de uma editora que continua a apostar na edição que não se esgota na venda digital da música. Como é sabido, cada vez mais, as editoras vão abandonando a edição física dos discos, disponibilizando-os apenas em plataformas digitais, sem qualquer tipo de informação detalhada que complemente cada projecto. Com a Odradek, porém, os “objectos” / discos continuam a ser editados com o cuidado gráfico que já referi e com um conjunto de textos bastante detalhados, em diferentes línguas, que nos oferecem mais informação e a possibilidade de nos envolvermos (ainda) mais como a música gravada e o trabalho dos intérpretes e compositores.

“Archipelago” foi distinguido com o primeiro prémio Play para a área de música clássica. Que importância tem a conquista de uma premiação como esta?

Julgo que a inclusão da música erudita e do jazz nas categorias dos prémios Play foi uma decisão importante para chamar a atenção de que o fenómeno da música não se esgota nas produções com maiores potencialidades comerciais. Hoje em dia, é cada vez mais difícil arranjar tempo para se ouvir música com durações maiores do que os 3 a 5 minutos por faixa e que exija uma atenção mais detalhada (por vezes, até, silenciosa). Num contexto que é adverso para todos, a verdade é que algumas produções têm de enfrentar maiores dificuldades e lutar contra uma indiferença que tem as suas raízes em profundas falhas estruturais no nosso sistema de ensino que, na disciplina da música, tem sido bastante medíocre ao longo de décadas. Neste contexto, mais do que a distinção atribuída ao álbum Archipelago, eu destacaria o facto de, nessa noite, ter sido dada atenção ao trabalho do grupo vocal Cupertinos, do Quarteto Lopes-Graça, do Hugo Vasco Reis, dos Drumming, do João Mortágua, do Daniel Bernardes, do Filipe Raposo, do André Sousa Machado… 

No entanto, mesmo sendo uma correcção de trajectória elogiável (refiro-me ao facto de, na primeira edição, os prémios não terem contemplado estas duas áreas), não deixa de ser sintomático que, na cerimónia dos prémios, as duas categorias que não tiveram um momento musical em palco, foram precisamente a música clássica e o jazz.

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