Luis Cília “Portugal Angola: Chants de Lutte” (1964)

Editado em 1964 o álbum de estreia de Luís Cília, lançado pela Le Chant du Monde, representou um episódio determinante no nascimento discográfico de uma geração de músicos que abriram uma frente de resistência ao regime através da canção. Texto: Nuno Galopim

Este texto é o segundo de uma série abordagens a álbuns da música portuguesa que ou estão ainda guardados apenas na memória do vinil. ou não costumam ser apontados como os títulos de referência dos respetivos autores ou até são por vezes ignorados em listagens dos mais representativos do seu tempo. Todos eles, contudo, são discos a ter em conta para contar as histórias de quem os fez e do período em que foram gravados e editados. Este foi o primeiro álbum de Luís Cília. E representou o primeiro disco de resistência nascido de uma geração de músicos que, na década de 60, viveram exilados em Paris.

 Se por um lado é das transformações em Coimbra que emergem, no início da década de 60, algumas das primeiras grandes referências de uma nova canção portuguesa, focada em busca de novas formas e animada por uma consciência crítica de clara oposição ao regime, por outro é de França que chegam outras importantes fontes de inspiração que ajudariam igualmente a definir caminhos para a criação entre nós de uma “música moderna” particularmente atenta ao valor (e peso) da palavra. Nascido no Huambo (Angola) em 1943, Luís Cília tinha 16 anos quando se mudou para Lisboa. Das experiências de música dos tempos vividos em Angola trazia a passagem por uma banda de rock, terreno ao qual ainda dedica inicialmente alguma atenção em Lisboa, enquanto frequenta um colégio interno. É um pouco depois, ao entrar para a Casa dos Estudantes do Império que, através do poeta Daniel Filipe que descobre a música de nomes como Georges Brassens ou Léo Ferré. A relação destes músicos com a poesia, o clima que se vivia em plena crise académica (1962), são motores para mudanças que transformam a relação de Luís Cília com a música. E os primeiros resultados serão imediatamente visíveis num álbum de estreia que surge já depois de uma partida para Paris, onde se torna então o primeiro dos jovens músicos portugueses exilados a editar um disco.

À chegada a Paris, onde depois estudará composição, um dos primeiros contactos que faz é com Câmara Pires, figura ligada à oposição angolana e, através dele, uma das pessoas que rapidamente conhece é a cantora Colette Magny. Mais adiante estabelece uma relação profissional e de amizade com Paco Ibañez. As referências cimentam-se no modo de encarar a canção. Consciente da sua relação com a escrita (ele mesmo o explicaria em entrevistas), Luís Cília toma sobretudo o leme da composição e da interpretação. E apesar de apresentar no seu álbum de estreia três temas com letra sua (Resiste, Duas Melodias e Canto do Desertor), o grosso do alinhamento escuta palavras de outros. E assim, sobre poemas de Daniel Filipe, Manuel Alegre (que conhece também em Paris em 1964), José Gomes Ferreira, António Borges Coelho, Jonas Negalha, Rui Namorado e Geraldo B Victor, além dos textos de sua autoria, surge o alinhamento do álbum a que chama Portugal-Angola: Chants de Lutte, que é lançado pela Le Chant du Monde, editora pela qual voltaria a gravar, apresentando dez anos depois Contra a Ideia da Violência, a Violência da Ideia.

O álbum é um disco de resistência, com as letras publicadas na capa (desdobrável) em português e traduzidas igualmente para francês. Firme na força da palavra e ciente do protagonismo que a música lhe deve entregar. Os arranjos das canções são despidos à relação da voz com a guitarra, tocada pelo próprio autor. A seu tempo ao cantor resistente Luís Cília acrescentará o compositor informado e motivado para levar a sua música a outros patamares de complexidade. O disco, ao ter edição francesa, tornou visível uma voz de oposição ao regime e à guerra colonial, abrindo uma frente de trabalho e intervenção que desenvolveria em discos seguintes. Ainda em 1964 conheceu, em Paris, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Na cidade viva já José Mário Branco. Sérgio Godinho chegaria ali um pouco mais adiante… Uma nova canção juntava autores diferentes em volta de causas comuns… E uma frente maior acabaria assim por transformar o curso da canção portuguesa.

“Portugal-Angola: Chants de Lutte”, de Luís Cília, teve edição original em LP pela Chant du Monde em 1964. Uma edição portuguesa, com o mesmo selo, surgiria praticamente dez anos depois com o título “Meu País”. Este álbum nunca teve edição em CD nem está representado nas plataformas digitais de streaming.

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