36. Shirley Bassey “Something” (1970)

Editado em 1970 o álbum “Something” levou a voz de Shirley Bassey a outros horizontes, interpretando, sob arranjos magníficos de Johnny Harris, canções dos Beatles, Blood Sweat and Tears ou dos Doors. Texto: Nuno Galopim

Nascida no País de Gales em 1935, Shirley Bassey começou por trabalhar em grupos de teatro e em digressões de produções de musicais antes de começar a gravar discos (o seu primeiro single data de 1956 e o álbum de estreia surgiu no ano seguinte). Com sucesso no Reino Unido conquistado inicialmente com uma versão de Banana Boat Song em 1958, a sua voz ganhou dimensão internacional quando, em seis anos depois, surgiu pela primeira vez no universo dos filmes do agente 007, ao som do clássico Goldfinger, muitas vezes apontada como a melhor “Bond song” de todos os tempos. O êxito foi sublinhado por uma sucessão de singles e álbuns que continuou a editar ao longo da década de 60, vincando sobretudo uma relação com grandes standards, canções originalmente criadas para musicais e ainda as torch songs. Data dessa fase Big Spender (de 1967) uma canção-assinatura que sublinhou precisamente as marcas firmadas por este quadro de referências. Todavia, chega a 1970, Shirley Bassey apresentou um disco no qual propunha, sem abdicar da sua identidade, uma abordagem a uma série de propostas mais… modernas. Chamou-lhe Something (porque na verdade o alinhamento incluía uma versão dessa canção dos Beatles) e acabou por se revelar um dos mais sólidos e bem recebidos entre os álbuns de toda a sua discografia.

O álbum nasce numa etapa de intensa agenda de trabalho, que inclui um especial para a BBC e uma residência de várias noites no Talk of The Town, em Londres. O disco juntava então a este momento o desafio de juntar ao repertório de Shirley Bassey um ângulo de abordagem (pessoal) a nomes e canções da cultura pop/rock contemporânea. E de facto no alinhamento encontramos, além da canção escrita por George Harrison (e incluída em 1969 no álbum Abbey Road) versões de Spinning Wheel dos Blood Sweat and Tears ou Light My Fire dos Doors. Something não se fecha contudo apenas em território pop/rock e inclui ainda ora música nascida no cinema (como What Are You Doing the Rest of Your Life?, de Michel Legrand, composta para Amar sem Amor, de Richard Brooks) ora incursões pela canção francesa, seja ao cantar palavras (traduzidas) de Aznavour (em Yesterday When I Was Young, no original Hier, Encore) ou até mesmo em My Way (canção popularizada por Sinatra, mas que tem génese francesa em Comme d’Habitude, inicialmente cantada em 1967 por Claude François).

Coube então à voz de Shirley Bassey o desafio de juntar as peças, numa aventura que muito deve também ao papel do escocês Johnny Harris, maestro e responsável por arranjos que não se limitam a definir aquele tom de sumptuosidade teatral (tão caro à voz da cantora) como exploram detalhes e nuances nas entrelinhas das canções, levando-as a caminhos por vezes bem distintos das interpretações originais (e aí o caso dos Doors é exemplar). Harris voltaria a trabalhar com Shirley Bassey que, um ano depois deste álbum, estaria de volta ao cinema de 007, desta vez com Diamonds Are Forever, regressando parta uma terceira canção em Moonraker (suplantando assim as vidas de James Bond, sobre quem a história rezou a frase “só se vive duas vezes”).

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