Kraftwerk “Tour de France Soundtracks” (2003)

Após uma ausência discográfica de 17 anos, durante a qual de novo só tinha sido lançado um novo single, os Kraftwerk regressaram com um álbum que retomava uma vontade antiga de criar um disco dedicado ao ciclismo. Texto: Nuno Galopim

Entre o álbum Electric Café (1986) e o disco que chegou como surpresa em 2003 tinham passado 17 anos durante os quais dos Kraftwerk tinha havido um álbum de remisturas editado em 1991 e de, verdadeiramente novo, apenas um single havia a assinalar: Expo 2000, tema composto a partir da ideia concebida para um jingle criado pelo grupo para a exposição mundial de Hannover em 2000 e que, entretanto reescrito, se apresenta hoje com o título Planet of Visions em alinhamentos de recentes concertos ao vivo. A chegada de nova música em 2003 foi para quase toda a gente uma (boa) surpresa, do silêncio surgindo pouco antes do lançamento do álbum um disco promocional distribuído entre os media, gerando reações do oito ao oitenta. A quase unanimidade de outrora desaparecera. Mas Tour de France Soundtracks era tudo menos um momento menor na obra do grupo.

Na verdade a história do disco era já antiga, remontando aos tempos em que, depois de Computer World (1981) esteve sobre a mesa a ideia de criarem um álbum sobre ciclismo, uma das paixões maiores dos elementos do grupo. Houve ideias registadas e primeiros conceitos levantados, mas o desejo de criar um álbum teve materialização apenas na forma do single Tour de France, que editaram em 1983 e que acabaria então por representar uma experiência one off sem representação no alinhamento de um álbum de estúdio (nem mesmo, mais tarde, foi tema recuperado no repensar de formas e cenografias que ganhou forma em The Mix).

Com uma nova formação, já sem Karl Bartos nem Wolfgang Flur, os Kraftwerk do século XXI retomavam a ideia desse disco perdido para assinalar o centenário do surgimento da Volta a França em Bicicleta, repensando a forma de o arquitetar musicalmente juntando ecos do que era a linguagem que em tempos teriam utilizado, mas mostrando ao mesmo tempo sinais de atenção para o modo como as suas visões originais tinham gerado descendências que agora assimilavam, um pouco como aquela imagem do professor que volta a aprender com o que os alunos fizeram com base naquilo que em tempos ele lhes ensinara.

Tomando Tour de France como mote para parte das novas composições, explorando depois realidades e conceitos associados ao ciclismo, desporto, a tecnologia (afinal havia máquinas em cena: as bicicletas) e ao corpo do desportista, o disco emerge como um espaço tematicamente coeso, musicalmente revelando contudo uma lógica que concilia o gosto em criar peças maiores e sequenciadas (como o tinham feito ou em Trans Europe Express ou Electric Café) com uma vontade em trabalhar canções que pudessem ter expressão musical independente apesar de haver um elo de ligação temático entre si (como tinham mostrado em The Man Machine). Curiosamente o álbum que musicalmente mais se aproxima ao que aqui encontramos será Computer World. Mas a presença de novos elementos é igualmente evidente.

No álbum de 1991, que surge depois de a música de dança e o hip hop terem assimilado muitas das visões lançadas pelos Kraftwerk entre 1974 e 1981, notava-se já da parte do grupo alemão um desejo em escutar e aprender com os que haviam sido seus discípulos, e ecos da cultura house e suas cercanias já ali tinham emergido. Agora, em 2003, não só a house era assimilada (e transformada) como o mesmo acontecia com ensinamentos colhidos em tantos outros domínios, do ambiente às periferias do techno e outras derivações.

Sem perder o apelo pop, que sobressai particularmente em La Forme e na canção de 1983 devidamente recuperada e sem prescindir de marcas de personalidade evidentes, como as que escutamos em Vitamin, há em grande parte do disco a expressão de um desejo em adaptar as marcas de identidade de uma música de personalidade vincada ao convívio com novas formas e máquinas (afinal nada mais senão o que em tempos tinham feito com as máquinas ao seu serviço nos anos 70). E se Aero Dynamik e Chrono são expressões claras de um diálogo da “voz” kraftwerkiana com descendências várias da cultura house, já Elektro Kardiogramm assinala, através da utilização de sons do corpo sampados, uma aproximação a um terreno de construção sonora com base em captações áudio depois manipuladas onde tantas vezes encontrámos já nomes como uns Matmos ou Herbert.

Talvez não seja um álbum capaz de estimular novas ideias, como o fizeram os que em tempos tinham editado. Mas convenhamos que por essa altura, há 12 anos, os Kraftwerk tinham já contribuído mais que muitos para a história da música. E que bom que foi ver como deram um belo novo passo sem ficar atolados na nostalgia que tantas vezes domina obras de veteranos com o tempo de vida do quarteto alemão.

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