Francisco José “A Volta do Fabuloso Francisco José” (1964)

“A Volta do Fabuloso Francisco José” junta num mesmo alinhamento clássicos como o “Fado Hilário” e “Uma Casa Portuguesa” e composições de figuras da canção portuguesa como Frederico Valério, Nóbrega e Sousa ou Alves Coelho Filho. Texto: Nuno Galopim

Comecemos pelo nome. Francisco José Galopim de Carvalho… Os apelidos são-me comuns. Nada de estranhar já que era meu tio, irmão mais velho do meu pai. E Chico era o nome pelo qual era tratado não apenas em Évora (onde nasceu, em 1924) mas entre toda a família. Em minha casa era simplesmente o Tio Chico. Ainda o vi a cantar ao vivo, mais vezes em casa até do que em concertos. E aos poucos tenho tentado reunir a sua discografia, coisa difícil quando grande parte dos discos (de 78, 45 e 33 rotações) se faziam entre nós sem que uma data neles ficasse registada… Dificuldade acrescida quando parte da obra foi lançada no Brasil, onde surgiram discos com títulos, alinhamentos e capas diferentes… Este álbum, creio (porque não tenho a certeza) terá sido possivelmente lançado em 1964. E no Brasil, facto que o selo da Companhia Brasileira de Discos deixa bem claro…

         Mas comecemos um pouco antes quando a música não era sequer um caminho profissional em vista. Francisco José (aqui não o vou tratar por tio) cantou pela primeira vez em público numa festa de finalistas do liceu, em Évora. Mas a coisa ficou, por ali, como hobbie… Anos depois, quando frequentava o terceiro ano do curso de engenharia civil (e trabalhava já no LNEC), apresentou-se no Centro de Preparação de Artistas da Emissora Nacional. O ano era o de 1948. E, ao que parece, inicialmente contra a vontade da minha avó (a quem depois dedicaria a canção Estrela da Minha Vida), o rumo profissional desviou-se da engenharia para a música. E nos anos 50, munido já de um repertório de canções românticas, era já uma voz popular em Portugal, iniciando em 1954 um percurso em paralelo no Brasil para onde acabaria por se radicar. Chamavam-lhe então “o coração que canta”.

         Em 1961 torna-se no primeiro cantor português a obter um sucesso com vendas superiores a um milhão de discos com a canção Olhos Castanhos, que se tornaria o seu ex-libris. O sucesso abraçou-o de ambos os lados do Atlântico e no Brasil chegou mesmo a ter um programa de rádio e um de televisão. Sempre que cantava juntava aos alinhamentos canções com referências a Portugal. E neste disco, A Volta do Fabuloso Francisco José, ora dá voz a Uma Casa Portuguesa ou Madragoa, interpretando ainda o Fado Hilário e visitando espaços de um certo bucolismo rural lusitano em Na Minha Aldeia. Vale a pena sublinhar que esta era uma edição destinada prioritariamente ao mercado brasileiro (em Portugal lançava sobretudo EPs por estes tempos), e que pelo alinhamento surgem ainda temas de Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança (Lado a Lado) ou de Frederico Valério e Fernando Santos (Alguém no Cais), Joaquim Pimentel (Só Nós Dois) e Alves Coelho Filho (Bom Dia e Serenata ao Luar), o autor dos Olhos Castanhos.

         No texto de Concessa Riberiro Colaço de Lacerda que podemos ler na contracapa sublinha-se outras das duas mais notórias características de Francisco José que este LP igualmente documenta: a voz e a dicção. Da voz diz o texto que cantava “sem esforço aparente”. E aqui confirmo… era de facto assim. E depois acrescenta: “a sua extraordinária dicção lembrou-me, em mais do que um momento, João Villaret, um Vilarett que cantasse”.

         Sendo de facto este disco uma edição de 1964 (como o sugere a plataforma Discogs, embora nem sempre precisa nas datas), este LP foi lançado no mesmo ano em que, por ocasião de uma viagem a Portugal, Francisco José mudou o modo de a televisão pública lidar (pelo menos nos anos seguintes) com o “risco” dos diretos. Numa emissão da RTP (em direto) criticou, indo expressamente contra as indicações que lhe haviam sido dadas depois de ter protestado sobre os valores do seu cachet, notando a enorme discrepância entre os que eram atribuídos aos artistas portugueses e aos estrangeiros que ali se apresentavam. Terminada a emissão foi detido e interrogado, iniciando-se um processo que, como ele mesmo mais tarde comentou, com o seu sentido humor, que “ficou em águas de bacalhau”.

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