Cluster “Zuckerzeit” (1974)

Editado em 1974 o álbum “Zuckerzeit”, o terceiro da dupla Hans-Joachim Rodelius / Dieter Moebius, reafirmou a visão cósmica da sua música mas focou-a num sentido que a levou a ser depois encarada como grande influência para a pop que chegou depois. Texto: Nuno Galopim

Tal como sucedeu com os Kraftwerk, o percurso dos Cluster (outra das forças maiores da música alemã dos anos 70 a que a imprensa britânica resolveu chamar krautrock) conheceu também uma etapa inicial feita de ensaios, demandas e transições. Nascidos de um núcleo experimental formado ainda em finais dos anos 60, os Kluster, onde militava ainda Conrad Schnitzler, um dos fundadores do Zodiak Free Arts Lab (em Berlim), o duo emergiu na forma de uma parceria entre Hans Joachim Rodelius e Dieter Moebius que, a partir de 1971, se passaram a apresentar como Cluster. Entre 1971 e 72 lançaram os álbuns Cluster e Cluster II pelos quais lançam de forma clara uma curiosidade sobre não apenas as eletrónicas mas também novas formas de composição. Cluster (1971) chegou mesmo a ser incluído numa lista da Wire a que a revista chamou “One Hundred Records That Set the World on Fire”. E de facto entre esses dois discos os Cluster lançam possibilidades e visões, que não só serão estímulo para inúmeros artistas vindouros como de certa forma representam bases de uma visão “cósmica” de uma música cenicamente desafiante e cativante de onde emergiria, pouco depois (e sobretudo em França) uma cena space rock. Pela Alemanha a coisa chamou-se mais kosmische… Música cósmica.

         Roedelius e Moebius tinham-se mudado para Frost, em pleno cenário rural, em 1971, onde instalaram um estúdio que, pouco depois, recebeu a visita de Michael Rother (dos Neu!) que, com os dois elementos dos Cluster formou então os Harmonia, que em janeiro de 1974 lançam um primeiro álbum. Entretanto, com Rother de regresso a Dusseldorf para reatar com Klaus Dinger o trabalho nos Neu!, Roedelius e Moebius retomam o percurso como Cluster, gravando Zuckerzeit, um álbum consideravelmente diferente dos anteriores, feito de composições mais curtas, mais próximas por vezes de uma ideia de canção (apesar de ser música instrumental) e com uma presença rítmica agora evidente e cadenciada, traduzindo mesmo em alguns momentos uma certa afinidade com o chamado motorik… Michael Rother surge aqui com um crédito (partilhado com os Cluster) na produção, na verdade tendo o seu papel sido sobretudo focado num plano técnico ligado à chegada de novos instrumentos e ao modo de com eles lidar (e os gravar).

         As caixas de ritmos e os sintetizadores abrem neste disco novos caminhos que, se por um lado lançam novas possibilidades às visões cósmicas elaboradas no disco de 1971, por outro entram em sintonia com uma demanda formal que tem afinidade com trabalhos dos Kraftwerk ou Neu! no plano da estrutura e da sua relação com os sons. E se em Hollywood estamos claramente perto do território dos Neu! e se em Rote Riki emergem ecos memórias antigas dos próprios Cluster, já em temas como Caramba ou Heisse Lippen os Cluster lançam visões rumo a um futuro que os saberia escutar para assim reinventar a canção pop poucos anos depois. Vale a pena lembrar que, depois de Zuckerzeit, encontramos no seguinte Sowieso (1976) mais sementes para esse futuro que se começava a aproximar da linha do horizonte.

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