Entre o berço nos blues e o momento do sucesso global, há todo um percurso a (re)descobrir nos Fleetwood Mac

Uma caixa de 8 CD junta sete álbuns de estúdio e uma gravação ao vivo que documentam o período que separou a génese dos Fleetwood Mac como uma banda britânica de blues e as vésperas do momento em que se inicia (em 1975) a sua fase “imperial”. Texto: Nuno Galopim

Editados ambos em 1968 (e ausentes do alinhamento desta caixa) os dois primeiros álbuns dos Fleetwood Mac tinham identificado o grupo como um nome de referência entre uma geração de bandas e músicos que definiam um espaço para os blues com berço no Reino Unido. Um ano depois, ao terceiro disco, o grupo encetou contudo a primeira das muitas mudanças de rumo que foram fazendo da sua obra um espaço de constante reinvenção.

Um dos principais fatores em favor das (boas) surpresas que se foram materializando em 1969 teve a ver com a entrada na formação do então muito jovem guitarrista Danny Kirwan cuja natural apetência para a exploração da melodia se começou logo a revelar em canções que abriam novos horizontes de possibilidades. Houve primeiros sinais de que algo mudara em singles como o instrumental Albatross (que lhes deu um inesperado número um no Reino Unido) ou, mais ainda, a belíssima balada de travo folk Man Of the World (que por pouco não repetiu o top one, alcançando mesmo assim o segundo lugar na mesma tabela). Ambos, curiosamente, ficaram de fora do alinhamento desta caixa…

É da assimilação de novas pistas na folk que ali emergiam, assim como em outros sinais dos tempos que se vivam depois das visões caleidoscópicas do psicadelismo mas ainda evidenciando um gosto pelo desafio, que nasce a alma de Then Play On. Os blues não abandonam de todo a música dos Fleetwood Mac, mas é nas fugas a esses universos já explorados nos dois álbuns de 1968 que se revelam os episódios mais inesquecíveis do alinhamento deste terceiro disco de lançado em setembro de 1969. Canções acústicas de alma folk como When You Say ou Although The Sun Is Shining, ambas de Danny Kirwan, são momentos maiores num disco que mostra como Peter Green (via Closing My Eyes) aceitou igualmente o desafio de ensaiar caminhos diferentes. O álbum revela, depois, uma amplitude estilística mais vasta do que os discos anteriores e mostra, entre o viço elétrico do longo Searching For Madge, sinais de que a vontade em explorar também mergulha na própria identidade bluesey das origens do som do grupo.

Mas o tempo guardava mais surpresas para os Fleetwood Mac… E se na música os sinais de mudança eram já evidentes em algumas das canções do álbum de 1969, no plano da vida pessoal dos músicos as convulsões revelaram-se ainda mais profundas e com efeitos de impacte mais definitivos logo a seguir… A vontade em criar um álbum de temática religiosa, lançado por Peter Green e sob a aprovação de Jeremy Spencer, não foi acolhida com entusiasmo pela banda. O desconforto, amplificado por um choque pessoal com o seu modo de vida e o desejo em fazer um dia a dia mais despojado (o guitarrista chegou a doar o que tinha ganho a obras de cariz social e desafiou os colegas a fazer o mesmo) acabaria por levar Peter Green a afastar-se dos Fleetwood Mac não chegando por isso a colaborar na gravação de um quarto álbum que ficou por conta de uma formação reduzida a quatro elementos, contando contudo com a colaboração de Christine Anne Perfect (que depois casaria com John McVie) que aqui se estreia a cantar nos coros e a tocar teclados (embora aí sem ser creditada), assinando também o desenho que vemos na capa do disco.

Em Klin House (editado em 1970) a diversidade de referências e caminhos é amplificada a um patamar até então não experimentado pelos Fleetwood Mac. Há ainda ecos dos blues numa versão de Hi Ho Silver (original de Big Joe Turner). Há ensaios em terreno rock’n’roll em canções assinada as em conjunto como Jewel Eyed Judy ou, por Kirwan, em Tell Me All The The Things You Do. Em Buddy’s Song (de Ella Honey) piscam o olhar a memórias de um tempo, em finais dos anos 50, quando a canção pop refletiu, com cautelas, contaminações do emergente rock’n’roll. Pelas mãos de Spencer chegam sinais de curiosidade maior pelos terrenos da folk e, sobretudo, da música country (como se escuta em One Together). E vale ainda a pena ter em conta o instrumental Earl Grey (de Kirwan) que assinala a continuidade face a experiências que o grupo vinha a fazer desde Albatross.

Criado num tempo em que o grupo se muda para uma comunidade e ali partilha o dia a dia, Klin House é, contudo, a expressão de uma época de agitação interna maior, que culminaria com uma segunda saída: a de Jeremy Spencer, que assegurara a voz principal depois da partida de Peter Green. Mas às más tempestades seguem-se bonanças… E neste caso, já depois de terminado o disco, foi Christine McVey quem passou a integrar oficialmente a formação dos Fleetwood Mac… E, logo depois, o californiano Bob Welsh, que viva por aqueles dias em Paris. E com ambos novos desafios chegariam à história, sempre mutante, do som da banda.

À exceção de What A Shame, criado coletivamente, quase em cima do joelho, para “esticar” o disco se sete para oito temas (a pedido da editora), o alinhamento de Future Games (1971) apresenta canções de Danny Kirwan e dos dois novos elementos, Bob Welsh e Christine McVey. As ausências de Green e Spencer levaram o som para lá dos terrenos marcados pelos blues que tinham circulado entre a primeira etapa da vida dos Fleetwood Mac (mas que não desaparecem completamente, como se nota por exemplo nos ecos que ainda habitam, por exemplo, Morning Rain ou Lay It All Down). Kiwran, por aqueles dias, assumia, mais do que qualquer outro, o leme dos acontecimentos criativos. E a sua visão que conciliava a eletricidade do rock com visões folk pastorais domina um disco que alarga o espaço vocal às contribuições de Christine McVey, o que de certa forma abre caminho para a identidade com maior diversidade que caracterizará daí em diante a obra da banda.

O grupo mantinha por esta altura a vida comunitária em Benifold, tendo partido de Danny Kirwan a ideia de juntar a voz de Christine a algumas das canções (e deixa clara a sua versatilidade nos contrastes que encontramos entre o fulgor rock de Morning Rain e a balada Show Me a Smile que fecha o lado B). O disco ganhou forma entre sessões de trabalho caseiro na primavera, entremeadas com uma pequena digressão por clubes no Reino Unido. Só depois rumaram a Londres para gravar um disco que mostrou vontade em se afastar do passado do grupo, não querendo, contudo, focar-se numa só nova direção. Os momentos folk na voz de Kirwan que escutamos em Woman of 1,000 Years ou Sometimes contam-se entre os mais belos desta etapa na obra do grupo. Sometimes, com travo country, parece antecipar horizontes americanos que o futuro reservava ao grupo. O próprio Bob Welsh, sem forçar a geografia das ideias, vinca a sua “alma” americana em Lay It All Down… Resultado ou não destas sugestões, o facto é que, apesar de ignorado em “casa” (no Reino Unido), assinalando mesmo o primeiro ‘flop’ dos Fleetwood Mac no Reino Unido, o álbum acabou por chamar mais atenções, ainda que discretas, nos EUA…

Editado em 1972 Bare Trees representou o último capítulo da contribuição de Danny Kirwan para a música dos Fleetwood Mac. Na verdade, a sua presença tem um peso evidente na definição dos caminhos centrais que a música do grupo foi tomando desde finais dos anos 60, sendo-lhe apontada a expressão, nessa etapa, não apenas das marcas de personalidade das suas composições mas também os efeitos de uma atitude atenta e interventiva em estúdio. Mais do que no disco anterior, Bare Trees retrata um tempo em que o equilíbrio se define entre as contribuições de Kirwan e do guitarrista californiano Bob Welsch, as duas “vozes” criativas de maior peso num alinhamento que conta com ainda dois temas assinados por Christine McVie. A música traduz ainda uma vivência bucólica que podemos associar o facto de o grupo viver ainda em regime comunitário na sua grande residência rural, a mítica Benifold. De resto o disco encerra com a voz (e as palavras) de Mrs. Scarrott, uma vizinha de 68 anos cujo olhar sobre a paisagem de campo que lhes servia de cenário quotidiano acabou por gerar igualmente a opção gráfica tomada pela capa do disco. Bare Trees define com o anterior Future Games um episódio de alguma estabilidade nos rumos da música e da própria vivência dos músicos. Mas, fruto de problemas amplificados pelo alcoolismo e também talvez o facto de não ter estreitado quaisquer laços com Bob Welsh, Danny Kirwan foi afastado durante a digressão que se seguiu ao lançamento do disco. Nova mutação estava assim na linha do horizonte.

A instabilidade emocional que atormentava Danny Kirwan teve uma manifestação em jeito de “última gota de água” quando, antes de um concerto da digressão americana que se seguiu ao lançamento de Bare Trees, uma discussão com Bob Welch acabou num desentendimento maior que acabou por levar Mick Fleetwood a afastá-lo da banda. A necessidade de preencher o lugar de Kirwan – que era não apenas guitarrista e vocalista mas uma das principais forças na composição de canções – levou-os a encontrar não um mas dois novos recrutas. Entram então em cena o guitarrista Bob Weston e o vocalista Dave Walker, ambos com um percurso feito entre o espaço dos blues. Recuperar essa memória primordial da identidade era uma das propostas em jogo na hora de criar um novo disco que levou o estúdio móvel dos Rolling Stones a acampar junto da residência rural no coração da Inglaterra onde a banda ainda vivia em regime comunitário. Esse reencontro apresentava um desafio a uma banda cujo caminho se tinha vindo a afastar dessa rota original. E apesar das evidentes manifestações de genética escutada nos blues que emergem no alinhamento do álbum que editam em 1973, os momentos mais memoráveis do disco manifestam-se quando a música olha para além de uma ideia de afiliação de género mais fechada. Da visão pop de ecos dos blues em Remember Me à luminosidade e sabor a maresia (com steel drums e tudo) de Did You Ever Love Me , passando pela balada de atmosfera e cenografia bem elaboradas Night Watch (onde Peter Green regressa pontualmente como colaborador), alada nascem três belos episódios de um disco de uma banda novamente a mãos com uma mudança de formação e mais uma guinada na rota do seu caminho. O título do álbum, Penguin, parece que se deve ao facto de John McVie gostar de visitar a cerca dos pinguins no jardim zoológico sempre que ia a Londres… É o que se diz. Pode ser verdade, ou pura mitologia pop.

A instabilidade que caracterizou a formação dos Fleetwood Mac (que na verdade só conheceram uma primeira mais longa etapa com os mesmos músicos entre 1975 e 1987) acabaria mais dia menos dia por se manifestar no alinhamento de um disco. Se até aqui o ritmo de entradas e saídas tinha ocorrido a tempo de fazer de cada álbum um espaço coeso (em função dos músicos e dos jogos possíveis entre os gostos e orientações dos vários elementos daquele momento), em Mystery To Me, editado em outubro de 1973, há duas sensações que se instalam no ouvinte logo num primeiro contacto com o disco: por um lado a capa (representando um gorila melancólico a comer um bolo na praia) é no mínimo desconcertante. Mas convenhamos que intriga… E por outro há um alinhamento revela uns Fleetwood Mac absolutamente perdidos, sem clara decisão sobre para onde caminhar e, por isso, a disparar em todos os sentidos. Este desnorte não faz contudo deste um disco mau, antes pelo contrário, uma vez que aqui nascem algumas pérolas diferentes na obra pré-75 do grupo. Uma delas é Hypnotised, uma canção que começou por ser apontada a um lado B mas que acabou por cativar DJs de rádio e a gerar um êxito num terreno de uma luminosidade pop algo inesperada dado o percurso do grupo até então. Igualmente inesperado é o arranjo orquestral pré-disco de Keep on Going, uma das mais belas contribuições de Bob Welsh para os Fleetwood Mac, aqui com a voz de Christie McVie. O alinhamento é talvez demasiado variado, mas não naquele sentido em que um disco pode ser capaz de encontrar universidade na diversidade… Não podia ainda faltar a esta etapa mais um episódio de instabilidade pessoal. Chegou na forma de um relacionamento amoroso entre o ainda recentemente chegado Bob Weston e a mulher de Mick Fleetwood que fez faísca quando viviam uma etapa na estrada. A coisa acabou com Weston afastado e a banda a encurtar a digressão em curso. Foi aí que o manager resolveu criar uma segunda banda, alegando que detinha a propriedade do nome da banda. É claro que a coisa também não correu bem nesse departamento. Certo é que, depois de Mystery to Me, o grupo encarava o futuro uma vez mais com uma formação modificada. Este seria ainda o seu último disco gravado no Reino Unido… O episódio seguinte teria já berço americano.

A saída de Bob Weston e o desentendimento com o manager (por ter criado uma banda alternativa para responder à agenda de estrada) são elementos a ter em conta no momento em que, chegados a 1974, os Fleetwood Mac se vêm reduzidos a um quarteto com Bob Welsh e Christine McVie a partilhar o protagonismo tanto na composição como por detrás do microfone. Uma vez mais a instabilidade na formação abriu terreno a um repensar das possibilidades perante os rumos que a música poderia tomar. Como que a antecipar o que o futuro próximo lhes guardava, mas sem na verdade sequer o imaginar (ou forçar), os Fleetwood Mac exploram em Heroes are Hard To Find uma ideia de canção mais próxima de uma identidade pop/rock (departamento Adult Orientated Rock, vulgo AOR), ao mesmo tempo abrindo terreno a explorações mais complexas (poderíamos dizer cósmicas), como se escuta por exemplo em Coming Home. Sob sugestão de Bob Welsh o grupo muda-se para Los Angeles, podendo assim aproximar a sua relação com a editora, ao mesmo tempo seguindo o rumo natural de um progressivo interesse pela música do grupo que os últimos álbuns tinham vindo a estabelecer junto do público americano. Se por um lado Heroes are Hard to Find representou o primeiro álbum americano dos Fleetwood Mac, ao mesmo tempo encerrou a etapa na qual Bob Welsh habitou a formação do grupo.

Uma vez mais haveria mudanças. Mas desta vez tudo pareceu natural, quase como se tivesse nascido de uma narrativa escrita por um bom argumentista. Quando procuravam um estúdio em Los Angeles para gravar este álbum chegam ao Angel City Sound. E aí, para demonstrar o que ali se poderia fazer, é apresentado a Mick Fleetwood um álbum ali gravado por uma dupla formada por Lindsay Buckingham e Stevie Nicks… Em dezembro, quando Welsh saiu, o lugar de guitarrista foi sugerido a Buckingham. Ele deu o sim e levou igualmente Stevie Nicks para a nova formação que, tal como sucedera com a original, em 1968, se estreia em disco em 1975 com um álbum a que chama, novamente, Fleetwood Mac. Dois anos depois Rumours levaria a música do grupo a um estatuto de gigantesca popularidade global com vendas de milhões de álbuns… Mas essa é outra etapa na história dos Fleetwood Mac. O que a caixa Fleetwood Mac 1969 to 1974 nos conta, juntando todos os sete álbuns de estúdio entre Then Play On (1969) e Heroes are Hard to Find (1974), todos eles em com faixas extra (entre temas editados em singles e versões alternativas), juntando ainda o registo ao vivo Live From The Record Plant, captado a 14 de dezembro de 1974 (um registo disponível em formato bootleg que assim tem agora edição oficial), é a história de um longo (e muito criativo) percurso de transição (ou transições) entre a ideia inicial de uma banda enraizada na cena blues britânica de finais dos anos 60 e uma das mais bem sucedidas bandas pop/rock de dimensão global da segunda metade dos anos 70, num percurso que na verdade se manteve criativo, ágil e bem sucedido, com uma mesma formação fixa, até 1987. A caixa conta a história de um intervalo cheio de bons acontecimentos. Na verdade poucas bandas colheram tão boa discografia num tempo de busca entre dois momentos de sucesso maior.

“Fleetwood Mac 1969-1974”, dos Fleetwood Mac, é uma caixa de 8 CD editada pela Reprise/Warner

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