Da Alemanha para o mundo: a história de uma música que procurou criar a sua identidade

Disponível em DVD, o documentário “Kraftwerk and The Electronic Revolution” (2008) é na verdade um olhar alargado sobre os acontecimentos que abriram uma frente popular para a música eletrónica na Alemanha na viragem dos anos 60 para 70. Texto: Nuno Galopim

Pode não ser o maior monumento na história do cinema documental, mas entre o volume de entrevistas e as imagens de arquivo aqui chamadas, Kraftwerk and The Electronic Revolution oferece-nos uma visão espantosamente completa do cenário que permitiu o surgimento das eletrónicas como ferramenta ao serviço da música popular, tomando os Kraftwerk como protagonistas, embora focando acima de tudo a génese e os primórdios da aventura.

São 180 minutos de filme, propondo uma história cronologicamente arrumada que parte da Alemanha do pós-guerra, revelando como o surgimento de uma cultura free jazz e o acarinhar de espaços dedicados à música experimental foram, nos anos 60, berços para ideias que procuravam uma identidade distinta da realidade pop que a presença norte-americana em Berlim ocidental e a cultura de bares em Hamburgo (invadida por grupos ingleses) então propunha. Ser diferente deste presente era ponto assente, assim como o era um evitar dos elos de ligação a raízes da cultura germânica que levantassem eventuais afinidades com dias assombrados da sua história recente. A estas coordenadas juntou-se a presença determinante do compositor Karlheinz Stockhausen e de heranças do francês Pierre Schaffer, que revelam novas formas de encarar o som e a construção de música por novos veículos eletrónicos. Seria esse o caminho? A multidão de grupos que surgiram na Alemanha de finais de 60 e inícios de 70 assim o viu… E não só encontraram uma identidade como acabaram por mudar o curso da música popular.

O filme (com praticamente três horas de duração) começa por escutar memórias sociais e políticas que serviam de cenário à juventude alemã de finais de 60 e nota a génese de primeiros focos de invenção. Descobrem-se instrumentos. Mas também motivos diferentes para fazer música e modos de chegar a outras formas. Fala-se dos Amon Düul, Can, Neu!, Cluster, Tangerine Dream, Harmonia… Hans Joachim-Rodelius, Dieter Moebius, Conrad Scnitzler ou Klaus Schulze são alguns dos entrevistados, num coro de vozes que junta ainda académicos e jornalistas que nos conduzem numa viagem de aventura e descoberta que, pouco depois, conhecia na imprensa britânica a designação (nem sempre aplaudida) de krautrock. Na verdade o filme investe mais neste capítulo do que na história dos Kraftwerk em concreto. Não deixa de ser uma peça cativante, mas convenhamos que se apresenta com um título algo enganoso, usando os Kraftwerk como isco para chamar atenções.

Só depois de lançado um mapa e nele desenhado contexto e colocadas em cena outras bandas o filme chega aos Kraftwerk e mostra como o grupo cedo mostrou vontade em seguiu um caminho próprio, que os destacaria dos demais contemporâneos. Dos elementos do grupo apenas Karl Bartos acedeu em falar aqui para a câmara. Pena que depois trate da obra posterior a The Man Machine já a olhar para o relógio, guardando contudo ainda uma breve sequência para para identificar descendências diretas da obra do quarteto de Dusseldorf ora no disco de Giorgio Moroder, na pop de uns Soft Cell ou no hip hop de Afrika Bambaataa… O filme está disponível num DVD que oferece como extras uma comparação das cenas de Berlim e Dusseldorf e ainda a entrevista completa com o ex-Kraftwerk Karl Bartos.

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