Propaganda “Dr. Mabuse” (1984)

Entre as muitas editoras independentes que floresceram na Inglaterra dos oitentas, na sequência de uma verdadeira revolução na indústria motivada pelo fulgor e inquietude levados a cena pela geração punk, houve uma que se destacou não apenas pelo sucesso que chegou a alcançar, mas pelo facto de ter sabido desenvolver um conceito sólido tanto na construção de uma identidade sonora e visual como pelo facto de ter apostado desde cedo numa estratégia de comunicação que muito deveu a sua alma (e impacte) à visão do jornalista Paul Morley. Fundada em 1983 por Morley, o produtor Trevor Horn (um ex-Buggles) e a empresária Jill Sinclair, a ZTT Records (iniciais de Zang Tum Tumb, expressão “colhida” no manifesto futurista de Marinetti) ganhou desde cedo grande visibilidade pelo impacte (e sucesso tremendo) dos três primeiros singles dos Frankie Goes To Hollywood (FGTH) – Relax, Two Tribes e The Power of Love. Estes singles, juntamente com o álbum de estreia do grupo (Welcome To The Pleasuredome) evidenciaram um estilo de produção grandioso, sofisticado e perfecionista, que desde logo se afirmaria como uma das marcas de identidade da editora, ideia logo confirmada pelos primeiros álbuns dos The Art of Noise e Propaganda, que juntamente com o duplo de estreia dos FGTH define a “santíssima trindade” da etapa de apresentação da editora, que assim se afirmava como uma força do som da frente de uma noção de pop alternativa.

Nascidos de um núcleo que ganhou forma em Düsseldorf com Ralf Dörper (dos Die Krupps) e Suzanne Freytag, aos quais se juntaram depois o compositor Michael Mertens e a cantora Claudia Brücken, os Propaganda evidenciaram cedo uma clara manifestação da linguagem e da estratégia que definia a alma da ZTT Records. A estratégia de comunicação, com vitaminas agit prop, surgia espelhada na capa dos discos, sublinhando a música uma visão épica que começou logo por ganhar forma no single de estreia lançado em março de 1984, bem antes do álbum A Secret Wish, no qual seria integrado um ano depois. Sob o título Dr. Mabuse, personagem nascida no romance Dr. Mabuse, der Spieler de Norbert Jacques e imortalizada depois no cinema de Fritz Lang, a canção promovia, mais do que qualquer outro momento na obra do grupo, um sentido de cruzamento de tempos e de culturas que seria explorado no teledisco, um dos primeiros assinados pelo fotógrafo Anton Corbijn.

Á versão do single a edição em 12 polegadas acrescentou uma abordagem mais desafiante, com praticamente dez minutos de duração, na qual se exploram não só afinidades com os caminhos mais experimentais da música contemporânea mas também um sentido épico, quase sinfonista, que eleva a canção para lá de patamares mais habituais nas esferas da música pop.

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