Pulp “Different Class” (1995)

Lançado a 30 de outubro de 1995 o quinto álbum de estúdio dos Pulp pode ter nascido sob os entusiasmos ‘brit pop’ mas na verde resistiu mais do que muitos outros à passagem dessa maré e hoje tem o sabor de um grande clássico dos anos 90. Texto: Nuno Galopim

Editado a 30 de outubro de 1995 o quinto álbum de estúdio dos Pulp confirmou não apenas o percurso de progressivo apuramento da sua música ao longo dos anos, como chegou às lojas sob uma atmosfera de grande expectativa lançada pelo sucesso dos singles que tinham transformado o estatuto de popularidade nacional e internacional do grupo entre a primavera e o verão desse ano.

Os textos publicados em jornais e revistas expressavam um tom de rara unanimidade cobrindo a música de elogios e destacando igualmente a escrita e a postura de Jarvis Cocker. “Different Class”, produzido pelo veterano Chris Thomas, tornava-se assim num daqueles casos raros que geram um clássico instantâneo. E ninguém duvidava que aquele seria um disco para resistir à passagem do tempo, tal como o são aqueles álbuns maiores que surgem habitualmente nas listas dos melhores de sempre.

Passados 30 anos sobre a edição de “Different Class” ninguém duvida de que este disco não só representa a obra-prima dos Pulp como é um dos títulos de referência do pop/rock com rosto alternativo que nasceu no Reino Unidos nos anos 90. É certo que os Pulp tiveram mais momentos dignos de serem referidos nos dois álbuns que ainda lançaram depois de “Differen Class”. Ou seja, o menos imediato “This Is Hardcore” editado em 1998 e a aventura que certamente terá sido gravar “We Love Life”, disco de 2001 no qual o mítico Scott Walker surgiu como produtor.

Mas inevitavelmente, sempre que deles se fala, acabamos por regressar a “Different Class”. O disco arrebatou o Mercury Prize no ano seguinte e só no Reino Unido alcançou vendas na ordem do milhão e trezentos mil. Nada mau para um álbum de perfil… alternativo. O tempo deu-lhe ainda um estatuto merecido por mérito próprio, destacando-o assim dos efeitos da maré brit pop.

Sem surpresa “Different Class” surgiu já em várias listas, daquelas que enumeram os melhores álbuns disto ou daquilo, estatuto que por um lado naturalmente deve à música aqui gravada, mas que não será alheio ao facto de o disco ter fixado retratos da sociedade britânica quer no tempo em que o álbum foi criado, quer dos dias que fizeram os percursos de formação individual dos seus elementos.

Mas o que explica que as atenções se tenham concentrado nos Pulp só ao fim de mais de 15 anos de carreira de um grupo que, na verdade, tinha nascido nos anos 70? Sim… 70! Por incrível que possa parecer, os Pulp nasceram em Sheffield em 1978, o mesmo ano em que os Human League editaram o seu primeiro single… Mas ao contrário dos Cabaret Voltaire, ABC ou Heaven 17, outras bandas de Sheffield daqueles tempos, os Pulp passaram longe das atenções durante anos a fio.

A agitação mediática que fez respirar a cena pop/rock alternativa britânica nos anos 90 nos dias do brit pop não se limitou a colocar novos nomes no mapa… E foi com os ares do brit pop a aguçar apetites de (re)descoberta de bandas britânicas que finalmente somaram primeiros êxitos com “Razzmatazz” e “Lipgloss” em 1993, logo depois “Babies”, que tinha passado despercebido numa primeira vida em 1992… Deste clima resultou logo a seguir o tom de surpresa que acompanhou a descoberta de “His’N’Hers”, editado em 1994, e na verdade era já o quarto álbum do grupo.

Lançado a 30 de outubro de 1995, “Different Class” foi o passo seguinte e nasceu já sob uma considerável exposição mediática que, entretanto, tinha transformado Jarvis Cocker num dos novos heróis mais aclamados pela imprensa musical. E antes mesmo da consolidação de um novo estatuto, que naturalmente chegou com o álbum, a escolha certeira do single de avanço foi o primeiro episódio com desfecho feliz num ano que de facto se revelaria marcante para os Pulp.

E essa primeira escolha certeira apontou a “Common People”. É uma canção que teve como gatilho a memória de uma conversa do vocalista Jarvis Cocker com uma estudante grega nos dias em que ambos assistiam a aulas de uma cadeira sobre escultura numa escola de arte e design em Londres. Ao que parece a jovem, aparentemente de família endinheirada, terá dito que gostaria de se mudar para um bairro popular de Londres (do de Hackney mais precisamente) e viver ali… como uma pessoa normal. Ou comum… Essa ideia ficou uns anos a borbulhar nas memórias de Jarvis Cocker até que serviu para dar forma a uma canção que satiriza as diferenças de classe.

O sucesso da canção levou muita gente a tentar encontrar depois a jovem estudante grega. E houve até um jornal grego que chegou a levantar a hipótese de que poderia ser nada mais nada menos do que Danae Stratou, a mulher do antigo ministro das finanças Yannis Varoufakis. Confrontada, ela mesma respondeu que só Jarvis saberá quem na verdade terá inspirado a canção.

Quatro meses depois de “Common People”, e antecedendo ainda a edição do álbum, o tema “Sorted For E’s & Wizz” foi escolhido para ser incluído no segundo single. A canção teve estreia na edição desse ano do Festival de Glastonbury e apresentava uma reflexão sobre a superficialidade da cultura das drogas, contrariando algum discurso que, geração após geração, surge aqui e ali, a tentar justificar eventuais mecanismos que possam despertar a criatividade.

Depois de terem alcançado o número 2 da tabela de singles do Reino Unido com “Common People”, o que era algo que uns dois anos parecia coisa impossível de acontecer na vida dos Pulp, o grupo encarou o passo seguinte com dois trunfos. Como sinal de cautela para que o sucesso não lhes escorregasse das mãos e talvez vontade em mostrar que não seriam one hit wonders, escolheram lançar um double A side. Ou seja, um single com dois lados A, o que quer dizer que ambas as canções teriam igual protagonismo mediático… E se uma das canções em que apostavam era “Sorted For E’s & Wizz” a outra era como um hino destinado a celebrar a identidade algo marginal na qual o grupo vivera toda a sua existência até há bem pouco tempo.

As memórias mais antigas a que se refere a canção têm a ver até com experiências que recuam a vivências na noite de Sheffleild nos anos 80 e a um sentido de insegurança que assombrava quem então se vestia ou comportava de maneira diferente. Com a forma de hino, “Mis Shapes”, juntamente com o outro lado A do mesmo single, voltaram a levar os Pulp ao segundo lugar no top britânico.

“Disco 2000” foi o terceiro single extraído do alinhamento de “Different Class” e o primeiro a surgir já depois da edição do álbum. A canção reforçava o gosto narrativo das letras de Jarvis Cocker, contando a história de um amor de infância, imaginando o rapaz onde estará a sua amada quando um dia forem crescidos. Além da grande canção (e de mais um êxito global), deste single ficou também a memória de um dos melhores telediscos dos Pulp. Foi assinado por Pedro Romhany e usou uma linguagem visual semelhante ao grafismo da capa do álbum para ilustrar a narrativa de que nos fala a canção.

Houve ainda um quarto single extraído do seu alinhamento do álbum. E a escolha recaiu sobre “Something Changed”. Surgiu em single em março de 1996 para encerrar um ciclo. Chegou, tal como os anteriores, ao Top ten no Reino Unido, mas dessa vez o sucesso dessa dimensão só ficou conhecido em casa…

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