Visionários ou nem por isso? 34 anos depois regressamos aos Sigue Sigue Sputnik

A Cherry Red acaba de lançar uma caixa de 4CD que recupera gravações em volta de “Flaunt It!”, o álbum de estreia do grupo que então clamava pela chegada de uma “quinta geração do rock’n’roll” que na verdade foi coisa que não aconteceu… Texto: Nuno Galopim

Visionários ou aldrabões? Esta questão sempre dividiu opiniões e a verdade é que, a ideia da criação de uma “realidade alternativa” residia na equação posta em prática pelo grupo logo desde o início. A mitificação da ideia de uma banda que ia trazer-nos a “quinta geração” do rock’n’roll” era naturalmente veículo para uma sugestão no mínimo capaz de suscitar a curiosidade. A imagem e uma estratégia de comunicação que, embora diferente da lógica agit prop operada por Paul Morley na ZTT, não deixou de surtir efeitos, ajudaram a colocar o nome Sigue Sigue Sputnik no mapa das expectativas em 1986… Não havia internet e o escrutínio era diferente… Seria a sua história a que nos contavam?… Na verdade nem por isso. Mas a bem de que lhes reconheça um lugar na história da música pop dos anos 80 há que apontar hoje nos Sigue Sigue Sputnik, particularmente no seu primeiro ano discográfico, um claro exemplo de como se pode fixar um tempo sociológico num discurso pop, mesmo se há mais vitaminas de ficção científica do que marcas de realismo no discurso. Mas a verdade é que está ali espelhada uma atitude que só poderia ter nascido em meados dos anos 80. E, já agora, com uma canção de facto diferente e bem-nascida (Love Missile F1-11) que David Bowie acabaria até por recriar no lado B de um single alguns anos depois…

            Mas vamos por partes. A génese da ideia parte de Tony James, ex-guitarrista dos Generation X. E cedo juntou a bordo Neal X (outro guitarrista que atualmente integra a banda de Marc Almond) e Martin Degville, um estilista que tinha a sua própria loja de roupas. Deville tinha passado pelas noites do Rum Runner em Birminhgam e, chegado a Londres, rapidamente deu por si integrado entre os frequentadores das Bowie Nights entre as quais florescera o movimento “new romantic”. Idealizaram uma visão de um rock do futuro cruzando por um lado o viço das guitarras e do legado do punk com a presença de sequenciadores e outras eletrónicas. Juntaram uma imagem de travo sci-fi em grande parte definida pelo olhar de Degville. E pelas canções fixavam ecos de uma sociedade consumista, materialista, capitalista. O Tatcherismo, de certa forma, embora em pose de rebeldia futurista.

            Depois começou a campanha de serrazina barulhenta, com mais slogans e T-shirts do que uma mais “clássica” visibilidade em palco. Mas dessa campanha nasceram primeiros mitos. Como os que diziam que o grupo fora assinado pela EMI sem ter tocado uma única nota e que o contrato fora na ordem dos 4 milhões de libras. A verdade é que nem uma nem outra dessas “verdades alternativas” correspondiam a realidades factuais. Em primeiro lugar o grupo já tocava regularmente desde 1984… E no CD4 da nova caixa temos o registo de uma sessão (ao vivo em estúdio, é verdade) que antecede a edição do single de estreia, ao qual dão ainda o título de trabalho Shoot It Up. A outra aldrabice é a dos 4 milhões de libras, mais 3.650 milhões do que o contrato real… de 350 mil. O certo é que estas “verdades” cantaroladas aos media (que as veiculavam), T-shirts que transformavam este tipo de narrativa em slogans e primeiras sessões fotográficas com todo o brilho que o exagero pode conceber, colocaram o nome no mapa. E de facto só depois a comunicação envolveu a música.

            E a música teve inevitavelmente de entrar em cena quando, em fevereiro de 1986, o single Love Missile F1-11 era lançado com pompa e circunstância. Os samples de momentos de filmes como A Laranja Mecânica ou Blade Runner, integrados numa rede definida por sequenciadores e acompanhados por jorros de eletricidade e outros momentos de cenografia igualmente moldados em estúdio colocavam em cena uma ideia de facto diferente e potencialmente capaz de chamar atenções… O teledisco, pensado mais sob uma linguagem de publicidade do que de cinema, vincou o discurso da mitologia em curso. Futurista mas algo assombrado, o single fixava ecos de um tempo de guerra fria e medo de um apocalipse. Meses depois 21st Century Boy juntava ao mesmo discurso elementos de uma visão tecnocrata e materialista da sociedade, cimentando o poder que pode ser alcançado por ícones (Elvis 1990 é uma das referências da letra). Musicalmente o segundo single socorria-se de uma fórmula semenlhante, acrescentando ao jogo de citações ecos de música de outro tempo (aqui na forma da Tocata e Fuga de Bach, abrindo um precedente que seria repetido em várias outras canções).

            Com dois singles editados – o segundo não tendo repetido contudo o impacte do primeiro – o álbum Flaunt It! surgia no verão de 1986 para fixar definitivamente toda uma ideia que colocava a música como ferramenta para algo que não se esgotava na fruição das formas, sendo claro um discurso comercial a si associado. E convenhamos que não é mau haver quem assuma a face industrial da música. Porque existe. Ora aqui a coisa foi feita com arrojo provocador que, na verdade, não era senão parte do mesmo discurso que desde o início pensou a comunicação dos Sigue Sigue Sputnik como uma mitologia e não uma realidade. Tentando iludir, claro… A vontade de incluir anúncios entre as faixas do álbum foi uma das mais evidentes manifestações de construção de um discurso. A verdade é que não se venderam todos os espaços e alguns anúncios “fake” acabaram por ser também criados, um deles sobre a (certamente inexistente) Sputnik Corporation, que lançava outro dos iscos da sua comunicação… “o prazer é o nosso negócio”. E assim ao consumismo, tecnocracia e medo do apocalipse o álbum juntou o hedonismo, outro dos sonhos (e para muitos realidade) da sociedade dos oitentas. Ou seja, há formas de fixar um tempo social através de uma música que não tem necessariamente um discurso crítico sobre o que vê. Até ver (porque nunca disseram o contrário) Flaunt It! celebra todos estes valores que lança. Com a profundidade de casca de cebola de um anuncio de campanha publicitária, veiculando, tal como o faz a publicidade, um efeito de deslumbramento pelo impacte das imagens, dos sons, das palavras. Sim, Flaunt It! é um disco que traduz, além da sociedade, todo um discurso sobre formas de comunicar o apelo ao consumo.

            Mas não esqueçamos a música. E na altura o discurso não foi lá muito favorável. Bom, na verdade – e como tão bem o desmonta Dylan Jones no novo livro Sweet Dreams (de que aqui falarei brevemente) – havia uma divisão entre dois espaços maiores na imprensa musical britânica de então (e com reflexo internacional, claro está). Em primeiro uma imprensa “séria” (Melody Maker, NME) mas quase sempre avessa a tudo o que fosse uma certa modernidade pop que lhe dava comichão. E depois uma imprensa mais focada ou o fenómeno popular (Smash Hits) ou nos espaços das tendências (The Face, i-D)… O “bota abaixo” não perdoou ao grupo que lançou tantos foguetes e afinal não tinha nem fósforos nem pólvora por aí além. A visão pop de Love Missile F1-11 era de facto intrigante. Mas 21 Century Boy e o restante alinhamento de Flaunt It! não fizeram mais do que adaptar a mesma solução a todo o espaço. É erro fazer sempre igual? Nem por isso… E não falta quem passe a vida a fazer a mesma canção, a filmar o mesmo filme, a escrever o mesmo texto… E para quem pregava a chegada da quinta geração do rock’n’roll, convenhamos que a coisa sabia a pouco…

            Hoje, passados 34 anos sobre esse ano de promessas de futuro não cumpridas, podemos olhar para os Sigue Sigue Sputnik sem lhes querer cobrar promessas não cumpridas. Na verdade eles mesmos perceberam rapidamente que não tinham alcançado os seus objetivos quando, três anos depois, editam um segundo álbum – Dress For Excess – que quase passa longe das atenções (salvo em alguns territórios pontuais). A caixa de 4CD que a Cherry Red agora apresenta recupera o álbum original (retirando-lhe contudo parte dos anúncios), acrescenta dois CD de lados B, remisturas e raridades e um quarto disco com uma atuação ao vivo nos estúdios Abbey Road, gravada em dezembro de 1985. Do álbum, além do retrato sociológico que as palavras traduzem, vale a pena sublinhar o modo como o produtor Giorgio Moroder moldou uma construção pop que integrou a elementos exteriores (uns de outras músicas, outros de cinema) num tempo em que a construção de música com samples estava ainda longe de vulgarizada. O labor de cenografia e sonoplastia acaba por ser a força maior na moldagem de canções cuja fidelidade a uma fórmula (ou visão, como lhe quiserem chamar) na verdade permite desenhar Flaunt It! como um disco esteticamente coerente. Não digo com isto que seja uma obra-prima, nem mesmo a tal quinta-geração do rock’n’roll… Mas na verdade o que aqui está fixado faz sentido, traduz ecos de um tempo e merece ser apontado entre os esforços de demanda por um modo de construir música pop assimilando fragmentos de referências. Nesse sentido o reencontro, 34 anos depois, com um disco que intrigou e desconcertou, vale um menos inflamado olhar sobre os significados que afinal encerra.

            Entre os extras há aqui uma primeira visão de Dancerama (que seria integrado em Dress For Excess) e uma versão (ao vivo) de Twist & Shout. Há versões e mais versões que ajudam a explicitar o que aqui havia no plano da exploração da utilização de samples. E há uma gravação completa de uma atuação ao vivo que é, no mínimo, medíocre. O texto que acompanha o booklet peca por não esconder uma ligação emocional que tenta reproduzir ecos do discurso de 1986 em vez de saber olhá-lo à distância do tempo que passou. Mais interessante é From The Gutter To The Stars, um documentário áudio da altura que fixa a visão de construção (ou tentativa de construção) de um mito.

            No fim fica a consciência de que vale a pena integrar Flaunt It! ao fazer um retrato da música dos anos 80. Se Love Missile F1-11 foi um achado, o álbum musicalmente não soube der depois um novo salto “quântico”… Mas fixa, sob uma linguagem sci-fi, imagens de uma sociedade de consumo, tecnocrata, ambiciosa e materialista. E tal como a ficção científica não fala de outros mundos nem de outros tempos. Fala do ali e do agora, espelhando um clima que de facto habitou muitos espaços do mundo ocidental em meados dos anos 80.

“Flaunt It!” (DeLuxe Edition), dos Sigue Sigue Sputnik, está disponível numa caixa de 4CD numa edição da Cherry Red Records

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