Até que enfim há um livro de texto a escutar a história do movimento “new romantic”

Apesar de algumas omissões o livro “Sweet Dreams – The Story of the New Romantics”, de Dylan Jones, olha o movimento como uma herança do glam rock nascida entre jovens que procuraram reencontrar o sentido de liberdade original do punk. Texto: Nuno Galopim

O modelo de construção de narrativas a que muitas vezes se chama “história oral” tem-nos dado alguns belos livros. Do já “clássico” Anthology sobre (e com) os Beatles ao recente coro de vozes que Jon Savage convocou para contar a história dos Joy Division, o lote cresce e acolhe agora mais um título que vale a pena ler. Assinado por Dylan Jones, um veterano do jornalismo musical britânico, o livro tem por título Sweet Dreams – The Story of the New Romantics. Mas ao contrário de uma incursão anterior por este mesmo território em The Look, de Davi Rimmer (que juntava impressionante documentação visual), o novo livro não só investe muito mais no texto do que nas imagens como alarga consideravelmente o espectro da sua abordagem, criando um arco narrativo que se estende, por dez anos, a partir de 1975.

E de facto, tal como Dylan Jones aponta, tudo começa ali, por um lado com as mais recentes mutações (e a mitificação) das figuras de David Bowie e de Bryan Ferry, que estabelecem uma genética antiga para o movimento “new romantic” entre os alicerces do glam rock. Por outro lado, e ao mesmo tempo o livro deixa claro como a eclosão do punk como fenómeno cuja ética extravasou a música para abarcar, por exemplo, expressões de afirmação identitária, usando a roupa e a imagem como importante veículo de comunicação, foi igualmente um motor fulcral para as movimentações que se começaram a materializar a caminho dos finais dos anos 70, inicialmente em clubes noturnos até então longe das atenções, algures entre o Soho e Covent Garden.

Dylan Jones escuta e observa Bowie e Ferry e nota como ambos são referência para os músicos que, ainda muito jovens nos dias de Ziggy Stardust e Virginia Plain, acabariam depois a formar grupos como os Visage, Spandau Ballet, Duran Duran ou ABC. Depois nota a chegada do punk, não apenas na maré de rebeldia expressa entre plateias e palcos como também no espaço em volta, notando aí as visões de Vivienne Westwood ou de Malcolm McLaren como focos que através da moda e da sua forma de agir depois na música, abriram frentes de afirmação de novos sentidos de liberdade.

A moda, a vida noturna (entre concertos mas também discotecas e bares) e as progressivas transformações na imprensa musical britânica são aqui peças marcantes no cenário que Dylan Jones vai construindo. O livro nota então que quando, por volta de 1977, alguns dos que haviam sonhado liberdade, criatividade e fraternidade sob as movimentações do punk começaram a notar como rapidamente um certo conservadorismo se havia ali instalado, notando em volta o clima tenso que então dominava a vida política e social britânica, surgiram desejos de criar uma fuga para algo diferente. John Foxx conta que sentia “total afinidade com o punk”, mas ficou “desapontado porque rapidamente se tornou muito conservador”. Boy George é citado relatando um momento em que alguém, uma noite, num clube ligado à cena punk, lhe atirou para cima uma caneca de cerveja por não gostar do seu aspeto: “o punk estava a transformar-se em algo do qual não podíamos fazer parte… Precisávamos de algo diferente! E Steve Strange corrobora: “Por volta de 1977 já estava aborrecido com o punk. Tinha-se tornado violento. Os skinheads e a Frente Nacional tinham-se mudado para ali”.  

Dylan Jones observa assim que a génese do movimento “new romantic” acontece entre jovens que tinham Bowie e Ferry entre as suas referências mais relevantes e que tinham militado entre o entusiasmo das primeiras vagas do punk. Steve Strange ou Adam Ant (que de resto Derek Jarman filma em Jubilee, um dos mais interessantes olhares “de autor” sobre Londres sob a revolução punk) não eram de todo figuras estranhas às famílias que geraram grandes acontecimentos do punk made in UK.

A ideia de criar uma noite temática semanal no Billy’s (um clube algo distante dos focos das atenções) na reta final dos anos 70 tem depois o efeito de um rastilho. Rusty Egan, o DJ, era na verdade o rosto central da ideia. O look e o mediatismo que gerou deram contudo maior visibilidade a Steve Strange, que ali exercia uma política draconiana na porta, deixando entrar apenas aqueles que se vestiam e arranjavam com criatividade e arrojo. Fez história, de resto, numa ocasião – já no Blitz, para onde migrou depois esta noite temática das terças feiras – Steve Strange não deixou Mick Jagger entrar. Ainda por cima ia de ténis… Sacrilégio! Já a visita de David Bowie, que ali encontrou os figurantes para o teledisco de Ashes to Ashes (entre os quais Steve Strange) juntou àquela movimentação um sentido de caução: aquele que os motivara estava agora com eles.

As muitas memórias das noites no Billy’s e depois Blitz recordam a música que Rusty Egan passava – que ia de Bowie e Kraftwerk aos The Normal ou Ultravox – mas mais ainda a sensação de liberdade de cada um na forma de se vestir e comportar. A questão identitária (e a sexualidade em particular) tem um papel determinante nas transformações que ali se viviam na mudança de comportamentos. E essa é uma nota que Dylan Jones vinca no livro, notando que era assunto praticamente evitado na imprensa da época. A imprensa musical é de resto um dos focos de atenção do livro, aproveitando o autor coro de entrevistados para, juntamente com as suas memórias, notar como havia então duas escolas distintas, uma mais ligada aos jornais semanários (NME, Sounds, Melody Maker), com uma crítica caracterizada por valores que raramente entraram em sintonia com os acontecimentos ligados aos músicos aqui referidos (sublinhando muitas vezes o autor o tom injusto dessas atitudes). Mas havia uma outra imprensa mais ligada ao fenómeno pop (com a Smash Hits aqui como paradigma) e por essa altura entram ainda em cena novas publicações como a The Face, Blitz ou i-D, as “bíblias do estilo” como Dylan Jones lhes chama, e que encaram a música num espaço informativo escrito e visual que coexistia com a moda, as tendências, as visões de novas descobertas… É claro que entre estas revistas o mundo “new romantic” encontrou almas com maiores afinidades na escrita, por detrás das câmaras fotográficas e, depois, entre os leitores.

O retrato dos focos de ebulição que nasciam nestas noites em Londres (e igualmente no Rum Runner em Birmingham) contados no livro não contam apenas com memórias de músicos, mas também de fotógrafos, figuras da moda e noctívagos que viveram intensamente aqueles lugares naqueles dias.

Ao mesmo tempo que acompanha a evolução dos comportamentos na noite, Dylan Jones narra detalhadamente a entrada em cena de vários novos nomes. Human League, OMD, Gary Numan, a nova formação dos Ultravox, vincando com justificada razão a presença dos Visage como a força que acaba por traduzir em si a soma das ideias em jogo. A banda nascera sob uma ideia de Rusty Egan e Midge Ure, rapidamente entrando em cena a figura de Steve Strange (que depois polarizou as atenções). Tar, editado em 1979, é um claro exemplo de uma canção nascida para servir o clima das noites no Billy’s. E sob coordenadas com afinidades, umas mais evidentes outras nem por isso, outras na verdade só mesmo vincando projetos contemporâneos, a história continua juntando os Spandau Ballet, Adam and The Ants, Duran Duran (vindos de Birmingham), Depeche Mode, Soft Cell, Eurythmics, ABC, Culture Club, Yazoo, isto sem esquecer projetos contemporâneos que por vezes são associados a estas movimentações (com mais ou menos razão) como os Japan ou Blue Rondo a la Turk. Curiosamente são aqui completamente ignorados nomes como os Classix Nouveaux, A Flock of Seagulls ou Landscape (a banda do produtor dos primeiros discos dos Spandau Ballet), claros exemplos do som e look que associamos aos “new romantics”. Assim como ficam de fora da narrativa nomes como os Dramatis, New Musik ou Berlin Blondes, entre tantos outros que esteticamente na verdade estavam em comprimentos de onda semelhantes a outras bandas às quais o livro dá voz. Não teria sido má ideia notar depois o impacte internacional destas visões… E se podemos perdoar a Dylan Jones que não conheça os portugueses Ópera Nova (mas não lhe fazia nada mal ouvir Sonhos, antes pelo contrário) ou os espanhóis Mecano, já sobre os franceses Taxi Girl ou Indochine, os alemães La Dusseldorf ou Zeus, os belgas Telex ou os suíços Yello não têm faltado referências em textos e edições com amplitude internacional… Enfim, fica apenas aqui história à inglesa, com fim de linha no canal da mancha…

Não cruzando as águas para o continente, a história continua depois no tempo observando sobretudo percursos na pop que, não sendo exatamente coisa “new romantic” não deixam de refletir nas suas vidas até 1985 o impacte das mudanças que tinham sido postas em marcha. E uma delas tinha a ver com a chegada da MTV e do modo como o teledisco ajudou a criar a força de comunicação de uma segunda “invasão britânica” do mercado americano. Dylan Jones foca (justificadsamente) atenções em nomes como os Wham!, Sade, Style Council ou Frankie Goes To Hollywood. E assinala o Live Aid (1985) como o momento para colocar um ponto final a esta narrativa.

As 680 páginas incluem depois dos relatos, memórias e reflexões, ordenados por ano, uma descrição de cada um daqueles cujas palavras “escutamos” e ainda uma lista de discos sugeridos… Apesar das omissões, convenhamos que até aqui, e tirando bons artigos que em tempos surgiram nas tais “bíblias do estilo”, nunca o movimento “new romantic” tinha sido encarado com semelhante seriedade. Os maus fígados e as comichões que esta música e figuras causaram à crítica mais sisuda de então levaram anos a acalmar. Ainda há quem reaja. Mas aí a questão é de gosto (e nada contra nesse sentido). Mas o modo de encarar esta música como um feito menor parece hoje coisa tão ultrapassada como aquelas birras de quem, nos anos 70, olhava para a música eletrónica sob suspeita porque era coisa feita com máquinas. Encare-se assim este tempo, estes factos e estes nomes com a dimensão histórica de um movimento que na verdade reencontrou o sentido de rebeldia e liberdade do punk para o levar a outras descobertas. E em clima de liberdade e de esperança (ou de fuga), uma música diferente tomou conta dos acontecimentos na viragem dos anos 70 para os 80. Quem gostar destes discos ou do papel que de facto tiveram em lançar descendências, vai encontrar aqui boa leitura. Quem não gostar tem outros livros para ler. Nada como a sensação de se poder viver em liberdade como a que na verdade permitiu o nascimento deste movimento.

“Sweet Dreams – The Story of The New Romantics”, de Dylan Jones, é um volume de 680 páginas publicado pela Faber & Faber

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