Viagens entre as visões dos Tangerine Dream no início da década de 80

Depois de uma caixa que recuperou gravações para o catálogo da Virgin feitas entre 1973 e 1979, eis que surge um novo volume nascido do arquivo do grupo alemão, reunindo álbuns e música para cinema de 1980 a 1983, incluindo raridades e inéditos. Texto: Nuno Galopim

Criados em Berlim Ocidental em 1967 por Edgar Froese, que por sua vez foi chamando ao coletivo outros parceiros de trabalho, os Tangerine Dream começaram por procurar os caminhos para a busca de uma identidade nos limiares da experimentação, processo de resto então partilhado por inúmeros outros novos grupos alemães de então, dos Amon Duul aos Can, dos Cluster aos Kraftwerk. Livres nas formas, mas distantes das genéticas do jazz (que então cativavam igualmente atenções entre uma nova geração de músicos alemães), traduziam desde logo na génese do seu percurso ecos do seu tempo e do seu lugar. A presença de emergentes instrumentos eletrónicos, que se assumiria como uma das principais características da sua obra, estava inicialmente ainda longe do que aconteceria um pouco mais tarde.

Os Tangerine Dream tinham já quatro álbuns editados e um aplauso de John Peel lançado sobre Antem (de 1973), apontando-o como o melhor disco desse ano, quando Richard Branson os chamou para o catálogo da recentemente criada Virgin Records (onde Tubular Bells, de Mike Oldfield tinha registado um êxito global). Deu-lhes total liberdade criativa e acesso aos equipamentos (e instrumentos) disponíveis no seu estúdio. E é do acesso a nova tecnologia que nasce o ponto de partida para uma visão mais arrumada e direcionada da música dos Tangerine Dream que em Phaedra (editado em 1974, o mesmo ano de Autobahn dos Kraftwerk), abre portas a todo um novo universo com recurso aos sequenciadores e texturas eletrónicas que servirá de “imagem de marca” para grande parte da produção subsequente do coletivo. 

Phaedra é um dos títulos fulcrais na história da música eletrónica e uma peça determinante para o talhar de um espaço para a música instrumental no quadro do mercado discográfico dos anos 70. Nos anos seguintes aprofundaram essas visões em discos como Rubycon (1975) e o álbum ao vivo Ricochet (também de 1975), propondo a partir de Stratosfear (1976) um espaço de exploração diferente sobre as possibilidades do trabalho com a melodia. Stratosfear, de resto, completa o período em que a formação dos Tangerine Dream viveu do esforço conjunto de Edgar Froese, Christopher Franke e Peter Baumann que, discograficamente, se traduziu na melhor etapa da sua extensa obra. Na reta final dos anos 70 surgem novas frentes de trabalho com o cinema (numa primeira banda sonora assinada para Sorcerer, de William Friedkin), com a voz (em Cyclone, de 1978), retomando depois em Force Majeure (1979) os caminhos do space rock que tinham abandonado algum tempo antes. Ainda em 1979, e depois de uma instabilidade na formação do grupo que se vinha a verificar desde 1975, a entrara em cena de Johannes Schmoelling, que então se junta a Edgar Froese e Christopher Franke, cria um trio mais coeso que determinará a condução do trabalho dos Tangerine Dream até 1985.

Chegamos assim ao período definido no início dos anos 80 sobre o qual centra atenções de “Pilots of The Purple Twilight – The Virgin Recordings 1980-1983“, a nova caixa de 10 CD agora editada. Um ano depois de uma outra caixa que agrupava gravações feitas para o catálogo da Virgin entre 1973 e 1979, e à qual chamaram In Search of Hades, as memórias dos Tangerine Dream agora evocadas começam com Tangram. Editado em 1980 o álbum recupera o modelo de discos dos tempos de meados dos anos 70, apresentando cada face apenas uma faixa, correspondendo o todo a uma peça única naturalmente dividida em sequências. A música começa por sugerir um espaço “ambiental” (ou paisagista) não muito distante do que então se designava por new age, evoluindo depois rumo a mudanças de cor e forma, como que explorando sucessivos mundos. Além das paisagens new age o percurso explora uma arrumação de melodias ora sob heranças de arquitetura rítmica herdada da visão motorik ora num momento de quase-canção, embora sem voz, deixando à guitarra esse papel (aqui assegurando o “jorro de azeite” do álbum). Há ainda pinceladas de formas menos nítidas que na verdade mais sugerem um mergulho nos caminhos da música contemporânea exploratória, Tangram devolveu os Tangerine Dream a caminhos bem mais interessantes do que aqueles que tinham sido fixados nos seus discos posteriores a Cyclone.

O passo seguinte no catálogo da Virgin, antes mesmo de um novo álbum de originais em estúdio, corresponde a uma segunda colaboração com o cinema. Depois da estreia com William Friedkin (em O Comboio do Medo, ou The Sorcerer no original), o trio trabalhou desta vez com Michael Mann, naquela que era então a sua primeira longa-metragem. Filme neo-noir, protagonizado por John Belushi, Thief (que entre nós estreou como O Ladrão Profissional) contou com contribuições musicais na forma de pequenas peças, na verdade sem que refletissem uma qualquer nova visão ou desafio, juntando, contudo, uma presença mais vincada da arquitetura dos ritmos. Esta, de resto, é talvez a etapa da obra dos Tangerine Dream em que a sua música mais se aproxima dos modelos que então Jean Michel Jarre tinha vindo a explorar sobretudo desde Equinoxe, com a diferença de não haver em Thief, além do recurso ao leit motif, uma maior noção de continuidade ou ligação entre as peças, apesar de todas elas servirem as imagens e narrativa de um mesmo filme.

Depois de um álbum mais fixado no retomar de modelos antigos e de uma banda sonora que na verdade não pareceu querer rasgar novos caminhos, coube ao segundo álbum de estúdio criado pelo trio Froese / Francke / Schmoelling uma mais clara expressão de vontade em encontrar novas rotas e destinos para a música dos Tangerine Dream. Kiew Mission, que abre o alinhamento de Exit (1981) traduz ecos do clima de guerra fria no qual a Europa vivia mergulhada na aurora dos anos 80 e um receio de potencial eclosão de um conflito nuclear que dominou medos que cruzaram parte da década. Uma voz feminina (não creditada) enumera os continentes em russo, sugerindo um mapa aberto a um risco global a que o ativismo anti-nuclear de Edgar Froese regressaria em várias outras ocasiões. Além desta relação com o “clima” daquele tempo a música de Exit assinala uma vontade dos Tangerine Dream em retomar o modelo de composição de peças mais curtas e independentes entre si que surgira em discos da reta final dos anos 70. E, sobretudo em temas como Choronzon ou Network 23, uma presença mais vincada de um discurso rítmico que não era mais uma memória metronómica da arquitetura motorik mas sim uma expressão de uma relação mais próxima com linguagens contemporâneas de uma pop eletrónica com gosto em piscar o olho ao que então se ouvia à noite. Porém a liberdade formal aqui explorada não fecha de todo a música numa solução de pragmatismo para noites na pista de dança.

O passo seguinte representou uma tentativa de coexistência de duas ideias formais. No lado A de White Eagle, álbum editado em 1982, os Tangerine Dream voltavam a alargar os horizontes de uma visão feita de sons, lançando ideias no curso de uma faixa que ocupava toda a face do álbum. Mojave Plan começa por revelar sinais de uma paisagem ambiental desolada da qual emergem depois outros momentos que colocam em cena a presença de sequenciadores que arrumam o espaço, dali emergindo vários momentos, ora explorando a forma “clássica” do solo ora valorizando pistas cenográficas. Ao virar o disco para o lado B encontramos algo completamente diferente em três faixas mais curtas nas quais a pulsação rítmica retoma os flirts mais próximos da pop e da música de dança, vincando assim o caminho de afastamento de uma linguagem mais contemplativa antes mais presente. Midnight In Tula é aqui um belo exemplo de uma aproximação (instrumental) ao espaço da canção pop. E White Eagle captou o ar dos tempos de uma relação mais generalizada com eletrónicas, tanto que esta faixa acabou por ser usada na banda sonora da série televisiva alemã, um policial que se mantinha em produção desde 1970 e que, entre 1982 e 1983 contou com um envolvimento musical dos Tangerine Dream. De resto, como complemento aos temas de White Eagle, o CD4 desta nova caixa junta algumas composições expressamente gravadas para a banda sonora de Tarot.

Até aqui inédita, a banda sonora de The Soldier, filme de 1982 de James Glickenhaus que entre nós teve estreia como O Soldado, ocupa todo o CD5 desta edição. Com Joaquim de Almeida entre o elenco, o filme é um thriller de espionagem e ação que refletia o tempo de guerra fria que se vivia por aqueles dias e que estava a conhecer várias expressões entre a música dos Tangerine Dream, fruto de uma preocupação maior por este mesmo clima que dominava o quotidiano de então que assombrava particularmente o pensamento de Edgar Froese. Contudo, e apesar de alguns momentos que traduzem ambientes semelhantes aos que, em discos recentes a música dos Tangerine Dream tinha desenhado uma visão algo desolada das possibilidades que o futuro colocava pela frente da humanidade, a banda sonora responde sobretudo a critérios funcionais, acabando por visitar, nas várias peças e variações, algumas outras soluções em linha com a música pulsante que estava dominar por aquela altura os alinhamentos dos discos de estúdio do grupo. Mais uma montra funcional do que uma visão discograficamente desafiante, The Soldier traduz, ao ser inserido nesta caixa, a forma como as demandas então em curso na música dos Tangerine Dream se adaptaram a outros trabalhos.

Entre o alinhamento da caixa encontramos ainda elementos da banda sonora de Risky Business, filme de Paul Brickman (com um ainda bem jovem Tom Cruise como proragonista) que teve estreia entre nós com o título Negócio Arriscado. Estas faixas, que partilham o espaço do CD9 juntamente com o álbum de 1983 Hyperborea (ver mais adiante) refletem a linguagem mais pragmática e pensada em sintonia com as formas pop do presente que os Tangerine Dream então levavam a algumas missões no mundo do cinema.

Mais desafiante é decididamente a banda sonora de The Keep (que ocupa todo o CD10). O filme, de Michael Mann (estreado em 1983), que entre nós ficou conhecido como O Guardador do Mal, cruza os espaços do cinema fantástico com um cenário dos tempos da II Guerra Mundial na Europa de Leste. A música sugere climas de misticismo e assombração, recuperando o sentindo mais contemplativo de alguns discos dos Tangerine Dream nos anos 70. Esta, que é a mais interessante das experiências para cinema revisitadas nesta caixa, teve uma vida discográfica atribulada já que só conheceu uma primeira edição em 1997 numa versão limitadíssima a 150 exemplares postos à venda por ocasião de uma atuação no Reino Unido. Uma tentativa de criar uma edição alargada em 1998 caiu por terra por questões levantadas pelo estúdio que produzira o filme, tendo a música acabado por surgir no triplo CD Millenium Booster Pack, também com edição limitada, lançado no ano 2000. Desde 1984 circulam bootlegs desta banda sonora, que assim se transformou num dos items mais procurados por colecionadores dos Tangerine Dream. Agora, a acompanhar esta caixa, as bandas sonoras de The Solidier e The Keep conheceram novas edições individuais (para já apenas em suporte digital).

A segunda grande edição (oficial) de música dos Tangerine Dream gravada ao vivo chegou em dezembro de 1982 no álbum Logos Live, que incluía parte do que fora captado numa atuação no Dominion Theatre (Londres) cerca de um mês antes. Apesar de pensado como uma nova peça única – com o título comum Logos – o segmento do concerto que conheceu edição no formato de LP apresentava uma deambulação de longa duração que, se por um lado ecoava memórias das faixas mais longas dos primeiros álbuns (inclusivamente ao optar em alguns longos momentos por um registo mais contemplativo), por outro esta caminhada não deixava de cruzar vários pequenos territórios com formas, cores e timbres diferentes, não voltando assim as costas à lógica de alguma aproximação a linguagens da pop e da música de dança. O concerto teve, contudo, perto de três horas de duração, correspondendo assim Logos – Live a apenas um terço da música que ali se escutou. Com o tempo surgiram em várias edições excertos complementares dessa gravação maior. E cabe agora a esta caixa o papel de, em três CD, juntar a totalidade do concerto, incluindo ainda o encore.

Lançado em novembro de 1983, Hyperborea é ao mesmo tempo um ponto de reencontro e de lançamento de novas possibilidades para os caminhos a seguir pela música dos Tangerine Dream. O álbum surge num momento em que o grupo aprofunda a sua relação com o cinema – depois de Hyperborea editariam, de resto, quatro discos com bandas sonoras antes de voltarem a estúdio para criar um álbum novo – mas não só segue a capacidade em desenhar moods com um sentido não apenas descritivo mas até mesmo narrativo (como se escuta na evolução das formas do tema-título) como acaba por recuperar um gosto pela exploração de uma noção maior de espaço, como antes fora até a norma em alguns dos seus discos mais marcantes nos anos 70. Excetuando o mais curto Cinamon Road, que está em linha com as ligações a formas da pop que a música recente dos Tangerine Dream vinha a sugerir, o álbum é feito de peças mais longas, uma delas (Sphinx Lightning) ocupando até toda a face B do disco. Hyperborea usa em alguns momentos o som de um sitar, facto que alarga cromaticamente as visões sugeridas. De certa maneira, e naquele que talvez seja o mais apelativo dos discos revisitados nesta caixa, lançava-se aqui um momento que era tanto de síntese de caminhos mais antigos e mais recentes, propondo novas rotas que o tempo trataria de os levar a percorrer. O caminho não seria contudo nem simples nem feito de respostas imediatas. Além das quatro bandas sonoras que se seguiram e de Poland (1984), um novo disco ao vivo, Le Parc, surgiria apenas em 1985… Esse seria o último com o trio que fez então uma das etapas de formação mais estável na longa vida do grupo alemão… Underwater Light, o primeiro álbum de estúdio com Paul Haslinger, chegaria em 1986… Mas essas serão certamente histórias para contar numa terceira caixa…

“Pilots of The Purple Twilight – The Virgin Recordings 1980-1983”, dos Tangerine Dream, é uma caixa de 10CD, com o áudio disponível nas plataformas digitais de streaming, editado pela UMC/VIrgin.

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