Maria Teresa de Noronha “Saudade das Saudades” (1966)

Nascida em meio aristocrático, Maria Teresa de Noronha não tinha apenas no contexto familiar ao seu redor as marcas que a fizeram destacar. As características da sua voz e o modo como escolheu o repertório são elementos talvez ainda mais marcantes. Texto: Nuno Galopim

Este texto é o oitavo de uma série abordagens a álbuns da música portuguesa que ou estão ainda guardados apenas na memória do vinil. ou não costumam ser apontados como os títulos de referência dos respetivos autores ou até são por vezes ignorados em listagens dos mais representativos do seu tempo. Todos eles, contudo, são discos a ter em conta para contar as histórias de quem os fez e do período em que foram gravados e editados. Este foi um dos momentos altos da obra em disco de Maria Teresa de Noronha. Está longe de ser um disco esquecido, é verdade, tanto que o podemos encontrar em CD e em suporte digital. Mas convenhamos que, ao invés das vozes do presente, algumas as grandes figuras do fado de meados do século XX podiam estar mais presentes nas nossas memórias. E daí a sua inclusão nesta série de textos.

Figura com percurso atípico na história do fado, Maria Teresa de Noronha é referência maior num espaço a que se convencionou chamar “fado aristocrático”. A designação na verdade tem a ver mais com o contexto pessoal que envolveu a vida da fadista (e do modo de encarar a obra) do que com formas musicais em concreto. Filha de família aristocrata, casada depois com o conde de Sabrosa, Maria Teresa de Noronha não partilhava assim nem as narrativas vivenciais nem mesmo as marcas de expressão das identidades de muitas das outras grandes vozes do seu fado. Mas não era apenas o contexto que a fazia diferente. As qualidades de uma voz surgem, de resto, à frente de outras quaisquer características. Tinha uma uma voz de soprano que, como frisa Rui Vieira Nery num texto publicado na caixa que recolhe a sua obra gravada, era de um timbre “focado e penetrante”. E logo depois o musicólogo refere ainda a força da interpretação e as qualidades da articulação com os instrumentos. Curiosamente o marido era um bom guitarrista, mas Maria Teresa de Norinha gostava mais de o escutar do que ser por ele acompanhada.

         Apesar de não ser uma característica do foro “musical”, o contexto pessoal e social “aristocrata” pelo qual se fez a história de vida de Maria Teresa de Noronha acabou por marcar o seu percurso na música. O facto de a encarar mais como uma atividade amadora do que profissional, a relativamente reduzida presença nos palcos (sobretudo internacionais), o que se acentuou depois do casamento (em 1947), e uma focagem de prioridades entre os microfones da rádio e, depois, os discos, acabam por definir também em torno da sua obra todo um quadro de características diferentes… e não menos apelativas, sublinhe-se.

         Nascida em Lisboa em 1918, teve educação musical de piano e canto e começou por cantar em festas familiares antes de, com 20 anos, se estrear num programa de rádio apresentado por D. João da Câmara. Manteve uma presença na rádio a partir de então, sendo notada por um lado a sua identidade aristocrata, por outro as características vocais e também o sentido de desafio com que canto fados de Coimbra, espaço até então reservado a vozes masculinas.

         Retirou-se da vida artística em 1962, regressando apenas ocasionalmente aos palcos mantendo, contudo, alguma relação com os estúdios (os de gravação de discos e os da televisão, onde protagoniza um programa na RTP em 1968). A sua obra em disco iniciou-se em 1956 com um disco de 78 rotações com os temas Fado em Cinco Estilos e Fado Zé António, editado então pela Alvorada. Na verdade, antes tinha já feito gravações no início dos anos 50 para as Gravações Roxinol, que seriam mais tarde localizadas. A sua maior visibilidade discográfica deve-se sobretudo à ligação com a Valentim de Carvalho, para cujo catálogo começou a gravar em 1959. Depois da sua derradeira emissão na Emissora nacional (em 1962), que assinala o momento da retirada da vida artística, não deixa, contudo, de gravar novos discos. E em 1965, nos estúdios Paço de Arcos, grava com o técnico Hugo Ribeiro, uma série de temas dos quais alguns começam por emergir no EP Mouraria Antigo, mas que na sua esmagadora maioria têm primeira edição em 1966 no LP Saudade das Saudades.

         O álbum toma o título de uma das canções do alinhamento, assinada por D. António de Bragança e José António Sabrosa, o marido de Maria Teresa de Noronha. Nestas gravações é acompanhada pelo grupo de guitarras de Raul Nery e mostra, além da sua voz, uma contribuição nos arranjos de alguns dos temas de origem popular que ali interpreta, em dois deles (Mouraria Antigo e Corrido em Cinco Estilos) sendo também sua a autoria da letra.

         Originalmente lançado em LP em maio de 1966 pela Valentim de Carvalho, Saudade das Saudades, conheceu já duas reedições no suporte de CD e está disponível nas plataformas digitais de streaming.

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