David Byrne convida-nos a refletir sobre o mundo para evitar a rota oposta à de uma utopia

Filme-concerto assinado por Spike Lee, “David Byrne’s American Utopia” parte de um espetáculo magistralmente concebido e executado e usa as canções, as imagens e as palavras para nos fazer pensar sobre os caminhos que o mundo hoje vive. Texto: Nuno Galopim

Criar um filme-concerto pode ser muito mais do que conceber e gerir uma família de câmaras no momento da captação de uma atuação (habitualmente a decorrer num palco). O realizador e a sua equipa podem assim olhar o detalhe, colocar-nos perante pontos de vista que seria impossível de vermos caso estivéssemos sentados na plateia a assistir. E pode ainda, a partir da música e das palavras que emanam do palco, construir um discurso que assim ora acentua a comunicação ou pode até vincar ou destacar elementos e, assim, criar uma segunda camada de leitura… Spike Lee faz tudo isto ao levar o espetáculo American Utopia, de David Byrne, do “pequeno” Hudson Theatre, na Broadway (na verdade a porta fica na rua West 44) para o mundo dos ecrãs. Mas a verdade é que em David Byrne American’s Utopia, o filme que o realizador assina, há uma realidade que antecede todo o trabalho de Spike Lee e daqueles com quem trabalhou neste projeto. Há um espetáculo. Um grande espetáculo. E que é mais do que um concerto.

Vamos por partes. Foi com a contribuição (uma vez mais brilhante) da coreógrafa Annie B-Parson que David Byrne transferiu o espetáculo que andou pela estrada depois da edição do álbum American Utopia (de 2018) e o adaptou ao espaço do palco do Hudson Theatre. A adaptação não tinha apenas a ver com a relação da música e dos músicos com o espaço, mas também com a fixação dos movimentos e das palavras, criando assim um musical onde, mesmo sem fechar a porta a uma eventual reação “ao vivo”, um guião e uma encenação (meticulosamente coreografada) juntavam as canções, os corpos e as palavras para falar sobre nós, o nosso mundo, o nosso tempo, naturalmente estando o universo americano no epicentro das referências (mas com muitas ressonâncias e possíveis leituras num plano mais global).

A diversidade como princípio de tudo, das referências na música às histórias de vida daqueles que vemos em palco é um dos alicerces do discurso (musical e falado) de David Byrne, que nota a dada altura como ao longo da vida vamos deixando de usar muitas das possibilidades neurológicas com as quais o nosso cérebro nasce. E deixa-nos a pensar… David Byrne gosta de observar pessoas. É um facto. Fá-lo nas suas canções. Nota-o nos seus livros. E sublinha mais ainda a coisa numa série de observações que lança a quem assiste ao espetáculo. Assim, e entre canções da sua obra a solo (com evidente presença do álbum American Utopia) não esquecendo uma mão-cheia de grandes clássicos dos Talking Heads como This Must Be The Place (Naive Melody), I Zimbra ou Road To Nowhere, vai observando como o mundo em que todas as pessoas vivem poderia ser melhor. Não para criar ali o caminho para uma utopia. Mas para pelo menos prevenir uma rota diametralmente oposta. Fala de democracia participativa. Não condiciona o rumo do voto, mas alerta para a necessidade de votar (reparando a demografia de quem o faz e como os americanos mais novos muitas vezes se alheiam de votar). É depois mais focado, sem fugir aos nomes, quando fala do problema de racismo sistémico que reconhece existir não apenas nos Estados Unidos. E ao som de Hell You Talmbout, de Janelle Monáe, ele e os músicos lembram figuras desaparecidas, entre as quais a brasileira Marielle Franco. E aqui Spike Lee acrescenta ao filme elementos que vincam o que as imagens, captadas há já largos meses nos mostraram, juntando novos nomes a este mapa de realidades, entre os quais George Floyd.

Esse é assim um dos planos nos quais a intervenção de Spike Lee transforma o filme em mais do que apenas uma memória filmada de um espetáculo. Através de uma família de câmaras, que exploram olhares vindos dos bastidores, da teia ou até de dentro do palco, coloca-nos dentro do espetáculo, rompe a quarta parede, e até uma quinta (se assim o quisermos entender num plano zenital que a dada altura utiliza para ver movimentações em cena). Observa o detalhe, mas não perde nunca o pulso ao retrato do todo. É certo que tem um grande espetáculo como matéria prima, como de resto já o tinha tido Jonathan Demme quando filmou os Talking Heads em Stop Making Sense. Mas ao conceito essencialmente estético do conceito então explorado por Byrne e companheiros em 1983, em American Utopia acrescenta uma dimensão política que dá um sentido mais do que meramente contemplativo ao que ali podemos ver e ouvir. No final (e atenção que há um spoiler a seguir), Byrne e músicos saem do teatro, caminhando de bicicleta pelas ruas de Manhattan. O músico que dizia pouco antes que gostava de olhar para as pessoas afinal é também uma delas, agora diluído entre a multidão. Porque faz parte dela.

“David Byrne’s American Utopia”, de Spike Lee, tem primeira exibição entre nós amanhã (dia 20) no dia de abertura do Porto Post Doc. A sessão tem lugar pelas 19.00 no Teatro Rivoli, no Porto. Há uma segunda sessão dia 27, pelas 14.30, no mesmo local.

2 pensamentos

  1. O que todos os artistas de excelência tem em comum é, independentemente da arte que produza e do gênero ou estilo no qual se situa, a incrível capacidade de provocar reflexões e mesmo interpretações diversas, a “segunda camada de leitura” evocada no texto.

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