Memórias da longa (e cara) criação do terceiro álbum dos Tears For Fears

Uma caixa que junta 4CD e um Blu-Ray audio recupera gravações de várias etapas do longo processo de trabalho que, em sessões registadas em estúdio entre 1986 e 1989, fez nascer “Seeds of Love”, o terceiro álbum dos Tears For Fears. Texto: Nuno Galopim

Quando se estrearam em inícios dos oitentas, os Tears For Fears, então uma dupla que juntava Roland Orzabal e Curt Smith, eram uma banda com uma visão pop muito pessoal, algo minimalista nos recursos, mas cheia de canções absolutamente brilhantes. Editado depois de três singles promissores – Suffer The Children (1981), Pale Shelter (1982) e Mad World (1982) – o álbum de estreia The Hurting podia ter ficado na história como sendo “apenas” um grande momento na história de uma pop made in UK diretamente nascida das heranças do universo da new wave. Mas o sucesso obtido por canções como Mad World e Change colocaram inesperadamente o grupo num patamar de grande visibilidade. The Hurting é todavia um disco invulgarmente povoado por ideias que não são necessariamente as que constroem êxitos. Não só as meditações e reflexões pessoais que habitam as letras como as abordagens à composição espelhavam marcas de autor que fazem deste o mais interessante dos títulos da discografia do duo. Distantes de um certo tom mais festivo e escapista de uma pop que conheceu então paradigmas em nomes como os Duran Duran ou Wham!, os Tears For Fears procuravam, num espaço estético com algumas afinidades, caminhos diferentes. Caminhos que os levariam a aprofundar, depois de traduzir ecos do mundo ao seu redor nesse álbum de 1983, olhares interiores para, no que pode ser entendido como uma nova expressão das técnicas “primal scream” (que com o álbum de 1970 de Lennon e a Plastic Ono Band fizera escola na canção popular). E depois de The Way We Are, um single (ainda em 1983) que deixava claro que procuravam outros olhares – sem que se tenha de facto indicado o caminho para um segundo álbum – encontraram após Mothers’s Talk (já em 1984) uma relação com técnicas da psicoterapia e um desejo em trazer o dentro para fora (gritando, se fosse preciso – e eis que surgiu Shout), definindo assim rumos que os conduziram a um álbum que instrumentalmente se afastou do predomínio partilhado com as eletrónicas de The Hurting, ensaiando uma ideia de pop sofisticada que acabaria por definir um paradigma do som em meados dos anos 80. Com o título Songs From The Big Chairo segundo álbum dos Tears For Fears é um espaço de ensaio de ideias onde canções que conquistaram multidões partilham o alinhamento com episódios de ensaio de ambição maior, por vezes quase sugerindo o que poderia ser uma ideia de prog pop (há mesmo uma suite no lado B do disco, traduzindo o seu espaço narrativo algo que lembra também a lógica do álbum conceptual). 

Em meados da década eram assim uma das bandas pop com maior sucesso do seu tempo. O passo seguinte era aguardado com expectativa por muitos admiradores. Mas também pela editora, que não colocou freio na hora de definir o orçamento para o terceiro álbum. Abriu os cordões à bolsa. Deu tempo e possibilidades… Mas de tanto se gastar em tempo e dinheiro, a génese do tão esperado terceiro álbum foi não só longa como cara. Roland Orzabal perseguia o desejo de um sentido de perfeição (que era em tudo justificável e natural dado o que havia já alcançado nos dois primeiros discos). Por sua vez, Curt Smith estava em progressiva rota de afastamento (por razões mais pessoais do que artísticas), e quando o álbum finalmente foi dado como concluído só o escutávamos num tema e só o víamos a partilhar a autoria de um outro…

A história do terceiro álbum dos Tears For Fears começa com primeiras sessões em 1986 que encetam uma sucessão de etapas de envolvimento com produtores que não chegam a bom porto. E entre os nomes que passam por esta etapa inicial de pré-produção está até Chris Hughes, com quem o grupo tinha antes trabalhado (e bem). Com Orzabal mais focado (em modo perfecionista), as ideias vão surgindo, ocasionalmente gerando alguma unanimidade e satisfação, como aconteceu por exemplo quando regressaram aos EUA para convidar para bordo das sessões a cantora Oleta Adams que haviam visto a atuar ao vivo no Kansas por alturas da digressão que acompanhara a edição do segundo álbum. Depois de uma atribulada pré-produção a própria gravação esteve longe de ser rápida e tranquila, iniciando-se logo nos primeiros meses 1988 para só terminar no verão de 1989, falando-se num total de gastos na ordem do milhão de libras (vale a pena notar que estamos num período anterior à vulgarização da ideia de uma banda ou um músico poder ter um estúdio em casa)…

A vontade de Roland Orzabal em não usar sintetizadores e outras eletrónicas (que tinham marcado presença nos dois álbuns anteriores) e a enorme complexidade de formas e sons chamados a um álbum que vai dos espaços da canção pop/rock clássica (de escola Beatles) aos campos da soul, sem descuidar um evidente interesse pelas franjas e possibilidades do jazz, fez de Seeds of Love um disco difícil de terminar. E uma das grandes qualidades da nova edição especial agora editada é a revelação de uma série de maquetes e takes intermédios que revelam a gradual moldagem das canções até se chegar à forma final fixada em disco. Revelado pela força “classicista” de Sowing The Seeds of Love, o álbum não repetiu, apesar do reconhecimento e do sucesso, o mesmo patamar de popularidade global de Songs From The Big Chair. Cedo foram ali reconhecidos dois momentos dignos de figurar entre o melhor da obra do grupo em Advice For The Young At Heart e Woman In Chains, este último um dueto com Oleta Adams. Já Famous Last Words, quarto single extraído do alinhamento do álbum, passou mais distante das atenções.

Confesso que na altura senti um efeito de “a montanha pariu um rato” quando o disco me chegou às mãos. Apesar de ter passado, sobretudo os singles, na rádio, durante anos não voltei a escutar Seeds of Love, cabendo a esta nova caixa o papel de me “obrigar” a reencontrar um álbum que, afinal, me sabe melhor hoje do que há 31 anos… A nova edição, que junta a esta “história” os singles Tears Roll Down e Johnny Panic and The Bible of Dreams (originalmente um lado B), este último uma das mais desafiantes e interessantes criações desta etapa, e acrescenta ao álbum original os lados B, remisturas, takes intermédios, maquetes e jams iniciais, ajuda a compreender a história complexa de um álbum que, mesmo sem a carga “clássica” do disco de 1985 nem a frescura pop das visões de 1983, não deixa de representar um terceiro episódio na história de um grupo com personalidade vincada que marcou a pop dos oitentas. Segiu-se uma etapa apenas com Orzabal (e sem o mesmo apelo destes três discos originais). Mas entre The Hurting, Songs From The Big Chair e Seeds of Love ficam memórias de uma linguagem pop que era capaz de cativar grandes multidões sem seguir fórmulas de sucesso, sem nunca repetir receitas (tal como o fizeram os Talk Talk) nem cedências aos sabores em voga.

“Songs From The Big Chair (Super DeLuxe Edition)”, dos Tears For Fears, é uma caixa de 4CD e um Blu-Ray Audio disponível também nas plataformas digitais, numa edição da Mercury/Universal.

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