Um olhar documental diferente para descobrir a música que está a acontecer nas ruas de Baltimore

Assinado por TT the Artist, que tem também obra feita na música, o filme “Dark City: Beneath The Beat” é um exemplo de primor visual de um pensamento narrativo diferente para nos dar a conhecer uma cultura que emerge nas ruas de Baltimore. Texto: Nuno Galopim

Tivesse 2020 sido um ano diferente e Dark City: Beneath The Beat, que era suposto ter conhecido estreia mundial no SXSW, estaria transformado num clássico instantâneo, não só garantindo a Baltimore uma série de novos olhares como colocando em cena uma forma diferente, esteticamente cuidada, exigente, e por fim sedutora, de propor um olhar documental sobre um universo musical. Não deixemos que o ano nos tire, então, a possibilidade de descobrir um dos melhores documentários sobre música que vi nos últimos anos.

Baltimore, está visto, é o epicentro das atenções. E este é um conjunto de olhares, que escapa à lógica narrativa mais habitual (assim como evita ao máximo o recurso a talking heads), e nos coloca perante figuras, sons, formas, movimentos e cores de uma cena musical que ali borbulha nas ruas da cidade, longe, portanto, dos espaços mais convencionais (palcos, media, festivais). O olhar da câmara, com uma apurada visão fotográfica (na composição, na cor), o gosto em criar segmentos quase como se de telediscos se tratasse, juntando uma ideia de encenação e pose sem ao mesmo tempo perder um sentido de verdade dos lugares e das vidas que o habitam, fazem de Dark City: Beneath The Beat uma experiência capaz de cativar atenções de fio a pavio (ainda por cima sem nunca esticar a corda demasiado, resolvendo o desafio de nos convidar a descobrir esta realidade social e cultural em apenas 65 minutos).

            Podemos, antes de ver este filme, associar naturalmente a história musical de Baltimore a nomes como os de Billie Holliday, Philip Glass ou Tori Amos, mas não é deles que aqui se fala. Nem mesmo dos Animal Collective ou Beach House que ali deram primeiros passos e chamaram a dada altura atenções para a cena indie que brotava na cidade… A Baltimore de que se fala em Dark City: Beneath The Beat é mais dura, menos idealista e coisa do presente. Dei por mim a lembrar os ambientes retratados na (magnífica) série The Wire (que entre nós ficou conhecida como A Escuta) que, com ação nas ruas de Baltimore, dá conta de problemas de integração social, de consumo de drogas (alguém refere aqui uma pandemia de consumo de heroína) e de violência. É nessas mesmas ruas, e porque não lhes dão acesso a outros lugares, que os músicos, rappers, DJs, bailarinos e estetas que aqui vemos nos dão a conhecer o que fazem. E a vigem faz-se de encantamento e descoberta, sem deixar nunca de se perder o realismo social que lhe serve de palco. O palco do quotidiano de todos estes protagonistas.

          O olhar esteticamente apurado de TT The Artist, natural da Flórida e também ela com carreira na música (além do trabalho com as imagens) coloca-nos na posição de atentos observadores de uma realidade que certamente antes desconhecíamos. Hip hop e house são os alicerces de uma cultura musical que borbulha entre ruas, campos de basquetebol, terraços e jardins, ginásios e salas comunitárias que se transformam em palco de “batalhas” nas quais rapazes e raparigas procuram brilhar e inovar. A ideia de repetir o que já antes foi feito, nos gestos, nos sons, não é cool, como nos explicam. O olhar não se esgota contudo no (exigente) plano estético nem mesmo numa sistematização (nunca académica, antes mais apelativa à emoção e aos sentidos) de ideias, formas e modos de materializar toda esta cena musical claramente “alternativa”. Há entre as imagens (e a narrativa que veiculam) uma vontade de integrar comunidades, quebrar barreiras de género, entender as mais variadas afirmações identitárias (e a presença da cultura queer é evidente), traduzindo afinal a enorme diversidade de figuras e de ideias que ali emergem. O texto está mais vezes no contexto, surgindo aqui e ali vozes (sobretudo em off) que nos dão pistas, contextualizam, mas deixam depois ao espectador tempo (e liberdade) para ver, ouvir e pensar sobre o que viu. Simplesmente magnífico!

“Dark City: Beneath The Beat”, de TT The Artist, passa hoje, às 20.15 no Passos Manuel, integrando a secção Transmission do festival Porto Pos Doc.

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