Nos bastidores de um (breve) reencontro com os KLF

A secção que o festival Porto Post Doc dedica à música incluiu “Welcome To The Dark Ages”, um documentário sobre um evento que Bill Drummond e Jimmy Cauty realizaram recentemente em Liverpool, sem música, mas sob claros ecos da memória dos KLF. Texto: Nuno Galopim

Bill Drummond e Jimmy Cauty tinham um passado mais próximo das artes visuais antes de, na década de 80, cada um dar por si passos de convergência na indústria da música. Cauty a bordo dos Billiant, Drummond como A&R da editora que assinou o grupo, além de desenvolver também uma (breve) obra a solo, editando dois álbuns em nome próprio pela Creation Records. Juntos encontraram um modo semelhante de entender a arte como uma forma de expressão de uma rebelião que cedo revelou afinidades com ideias, formas e métodos mais próximos dos anarquistas e situacionistas do que de uma qualquer orientação musical meramente estética. Começaram a editar discos como JAMs (ou seja The Justified Ancients of Mu Mu) e cedo assumiram um papel pioneiro na criação de colagens e novas visões através do uso do sampling e da citação. A coisa nem sempre foi bem sucedida (no departamento legal), mas nessas ações encontraram o caminho que os levou aos KLF (ou seja Kopyright Liberation Front), projeto musical através do qual editaram discos que exploraram possibilidades desde uma ideia de paisagismo ambiental em Chill Out ao fulgor exuberante da tecno no clássico What Time Is Love (com várias vidas e versões, muitas delas transformadas em casos de sucesso global). Por volta de 1991, depois de terem lançado mais um disco exploratório como Space e de terem somado um êxito pop evocando as memórias de Dr. Who e de Gary Glitter num single que assinaram como Timelords, editaram (como KLF) o álbum The White Room que foi casa de uma série de clássicos que cruzavam a vertigem da pista de dança com a energia primordial do rock’n’roll, inscrevendo no mapa dos clássicos dos anos 90 não apenas o já referido What Time is Love, mas também 3 a.m. Eternal, Last Time To Transcentral ou o delicioso Justified and Ancient, chamando a cena a lenda da country Tammy Wynette. Apesar do método de construção de uma obra, semelhante aos que definiam as demais discografias de então, os KLF não deixavam nunca de aliar a edição de discos a uma narrativa com evidentes marcas de agitação na verdade mais próximas das formas de agir de artistas anarcas e situacionistas. Cada novo single não era apenas uma canção, mas um statement artístico que juntava imagens (sobretudo na forma de telediscos) e, aos poucos, construíam uma narrativa que criava todo um universo de referências. Mas pouco depois de alcançado o sucesso resolveram deixar a música, regressando pontualmente para ou editar um single com o coro do Exército Vermelho (1993) ou reativar pontualmente a atividade em 1997 assinado como 2K o single Fuck The Millenium… Na verdade, depois de encerrado o ciclo de singles centrado em The White Room deram mais que falar quer pela ausência quer por “eventos” como aquele em que queimaram (de facto) um milhão de libras… Há uns três anos anunciaram um “regresso” mas cedo deixaram claro que não era coisa com música… E Welcome To The Dark Ages, de Paul Duane, é um documentário sobre o “festival” (ou o que lhe quiserem chamar) que, durante três dias, chamou um grupo restrito de admiradores (e de ideias… invulgares) a Liverpool.

O filme abre com uma sugestão de imagens chegadas do futuro e, por uns momentos, a coisa mais parece uma criação à la KLF do que um olhar exterior sobre a dupla Drummond / Cauty… Mas em pouco tempo saímos dessa transmissão espaço-tempo para entrar no universo da preparação de eventos que tanto evocam memórias (sonoras e iconográficas) dos KLF – há um momento em que Drummond e Cauty andam nas ruas de Liverpool na carrinha de gelados que vimos na capa de Justified and Ancient, e ouvimo-los a trautear 3 a.m. Eternal – como sugerem outras novas ideias, uma delas (senão mesmo a central) focada numa obsessão pela persistência de uma materialidade física depois da morte. Isto porque, no centro de toda a “iniciativa” está o projeto de construção de uma pirâmide de tijolos, em cada um havendo uma concavidade para acolher (um dia) 23 gramas das cinzas de quem o adquirir. A pirâmide (que vemos logo na sequência inicial, referida a partir do futuro) é o fim de um conjunto de manifestações que envolvem, além da venda dos tijolos e respetivo certificado, uma exposição com uma instalação de carros de supermercado colocados uns sobre os outros em pirâmide…

Não faltam desfiles (mais procissão do que manifestação) pelas ruas da cidade, com iconografia KLF, e desafios lançados aos potenciais compradores de tijolos, já que só os poderá adquirir quem comparecer no local de venda com um carro de compras de supermercado. É claro que a polícia acaba por intervir, juntamente com o funcionário de um supermercado nas imediações, para os recolher (já que depreendemos que dali tenham sido levados sem o objetivo de fazer compras, mas antes responder ao desafio dos KLF). O filme junta ainda imagens dos ensaios (em casa) de construção da pirâmide de carros de compras e uma outra com pneus… E imagens de uma cerimónia noturna na qual é lançado o primeiro tijolo da pirâmide… Pelo meio, em brevíssimas frestas narrativas, dão-se elementos sobre quem são Cauty e Drummond e recordam-se memórias dos KLF (e não faltam imagens da queima do milhão de dólares). Welcome To The Dark Ages, não será o mais convencional documentário sobre músicos… Mas os KLF também nunca foram a mais convencional das bandas. Fica, contudo ainda por fazer “o” documentário mais objetivo (e com distância) sobre Drummond e Cauty… Porque, na verdade, Welcome To The Dark Ages está demasiado perto dos dois artistas e quase parece mais um “making of” deste momento do que um olhar, com ponto de vista (jornalístico ou autoral), sobre os protagonistas e as suas criações artísticas.

Um pensamento

  1. Ainda mais célebre que a queima do milhão de libras foi tudo o que se passou na cerimónia 92 dos Brits – e que acabou por ser a maneira deles de anunciarem o fim dos KLF. Quem ler isto que “google” algo parecido com “the klf brit awards 1992” para saber do que se trata.

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