Carlos Matos

Nasceu em 1970, em Leiria, cidade onde desenvolve a sua actividade. É curador, crítico, radialista, organizador de festivais, DJ, produtor, músico e melómano inveterado. Associação Fade In, Entremuralhas, Unidade 304, Ode Filípica e Stereogun são, entre outros, alguns dos nome a que o ligamos. O seu mundo gira, literalmente, à volta da música. Hoje fala-nos dos seus discos.

Qual foi o primeiro disco que compraste? 

Aos 12 anos ainda era, naturalmente, dependente dos meus pais, pelo que o primeiro LP que comprei foi através de um cheque-disco que me ofereceram. Andava fascinado com o videoclipe do “Thriller”, de Michael Jackson, e na primeira oportunidade que tive troquei o cheque pelo álbum. Comprei muitos discos com as mesadas que recebi mas era um processo de espera penoso porque tinha que juntar o dinheiro de dois meses para ter o suficiente para comprar um LP. Na primeira vez que pude comprar com o meu próprio dinheiro, fruto do meu primeiro ordenado, dei-me ao luxo de adquirir não um, mas logo três discos: “Calenture” dos australianos The Triffids, “My Nation Underground” do britânico Julian Cope” e “A Hard Knight’s Day” dos belgas à;Grumh… 

E o mais recente?

Foi a edição original do LP “Feu Et Rythme” da francesa Colette Magny, editado em 1971. Um disco que num piscar de olhos vai da chanson “convencional” ao experimentalismo de improviso, onde podemos encontrar ambientes esquizofrénicos seminais que nos remetem para as obras de Diamanda Galás dos anos 80 e inícios de 90. Ouçam, por exemplo, temas como “Brave Negre”, “U.S.A. Doudou” ou “Prends-Moi, Me Prends Pas”.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

Música que me provoque, que me agite, que me faça pensar e questionar, que me embale ou me dê uma tareia, que me aconchegue ou me arrepie. Mas, sobretudo, e se possível, que me dê tanto de comer aos ouvidos como aos olhos. Numa altura em que (quase) tudo se pode ouvir em streaming, de forma massiva e muitas vezes descartável (ao ponto das gerações mais novas não perceberem porque é que têm de pagar pela música), na hora de gastar dinheiro, seja em que formato físico for, opto sempre pelo objecto que apresenta a capa que mais me atrai. Como não posso comprar tudo, estabeleci esse critério como elemento de desempate. Considero os itens que tenho na colecção como pequenas peças de arte e gosto de tratá-las como tal.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Há anos que espero poder adquirir “¿Que Sucede Con El Tiempo?”, o primeiro álbum dos madrilenos Mecanica Popular, editado em 1984. O disco, que tem uma produção excepcional para a época em que foi editado (ouvido nos auscultadores é uma experiência quase tão incrível como a audição do álbum “Proper Headshrinker” dos catalães Evol), já foi reeditado por duas ocasiões: em 1990 e em 2015. Sei onde o comprar. Só estou à espera do subsídio de Natal…

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

Não tenho a certeza se foi o álbum homónimo dos norte-americanos Silver Apples, de 1968, ou se foi o também álbum homónimo dos britânicos Ike Yard, de 1982. Não porque fossem extraordinariamente difíceis de encontrar mas sim porque na hora de os comprar encontrava sempre discos mais recentes pelos quais optava. Até ao dia em que me deixei de importar com a data dos discos que adquiro. Já não sou aquele maluquinho que anda sempre, cegamente, atrás de todas as novidades, embora continue a fazer uma garimpagem assídua, sobretudo nos cantos mais obscuros e recônditos que por aí existem. Há períodos em que me dedico mais à arqueologia sonora e há outros, como aqueles em que estou mais focado na programação dos festivais que organizo, em que me concentro mais na pesquisa de nomes recentes, ou novos, com discos que valham a pena conhecer. E depois partilhar esses mesmos nomes na Unidade 304 (programa que faço há 26 anos) e, se ficar apaixonado e se for possível, num dos palcos da minha cidade…

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Para ser franco acho que a única vez que senti que perdi a cabeça foi na re-aquisição de uma cassete-compilação em que a Ode Filípica (o meu projecto musical mais antigo que, por acaso, nesta edição até está tributado como Ode Philipica) participou. A cassete chama-se “Man-An-Tol” e foi editada na Alemanha, em 1994, na editora Ant-Zen. Na altura recebi uma (gratuita, como prémio de participação) e uns anos mais tarde emprestei-a a um amigo que acabou por falecer. Como nunca tive coragem de pedir aos seus familiares a sua devolução acabei por ficar sem ela. Há um par de anos lembrei-me que gostaria mesmo muito de voltar a ter um exemplar. Tive que desembolsar 60 euros… Tenho algumas edições de discos, sobretudo algumas caixas, que foram caras, mas acho que paguei o preço justo por elas. Portanto o limite é sempre o que estás disposto a dar dentro do que achas justo dar e, claro, dentro da tua disponibilidade. Mas quando vejo à venda um disco que quero muito por mais de 100 euros penso logo: “Espera Carlos, calma, com esse dinheiro compras 4 ou 5 LPs, ou 7 ou 8 CDs, ou 9 ou 10 cassetes…”. Este travão mental resulta (quase) sempre, hehehe…  

Lojas de eleição em Portugal… 

Fui sócio durante 13 anos da Alquimia, uma loja que existe em Leiria desde 1994. Já não estou lá desde 2007 mas ainda mando vir muita coisa através da Célia Lopes, a actual única proprietária. Quando vou a Lisboa, sempre que posso, dou uma saltada à Flur, mas a maioria das vezes até é para ir ter com o João Monteiro, da Equilibrium Music que, não tendo uma loja física, me recebe sempre no seu antro de perdição (leia-se “armazém”) onde muitas vezes me perco. 

Em viagem lá fora também visitas lojas de discos? Quais recomendas?

Normalmente, quando viajo para fora do país é para ir de férias. E quando vou de férias é mesmo para me desligar. A minha profissão, e praticamente tudo o que faço na vida, tem a ver com música. Desligar-me dela por uns dias faz com que ganhe fome, e é essa fome enorme que depois vou saciando ao longo dos meses normais de trabalho. Até precisar ir de férias outra vez. Porém, todos sabemos que este ano está a ser um ano atípico e por isso, confesso, acabei por quebrar a regra. Como a Stereogun (espaço de concertos e DJ sets do qual sou curador) está, desde Março, circunstancialmente fechada devido à pandemia, e como os festivais organizados pela Fade In (associação a que pertenço) foram cancelados e/ou adiados, não houve tempo de me empanturrar o suficiente com música ao ponto de ter necessidade de jejuar. Portanto, quando em Setembro fui para Alicante ter com o meu irmão, cidade onde vive e onde tenho passado férias nos últimos anos, acabei por fazer um périplo pelas lojas de discos que lá existem. Entre algumas dedicadas ao garage rock e as cadeias normais que podemos encontrar um pouco por toda a Espanha, descobri uma verdadeiramente hilariante! Pequena, mas com milhares e milhares de vinis e compactos. A maioria usados e muitos deles sem os preços marcados. Mas o mais incrível é que estavam empilhados em torres, uns por cima dos outros, ao ponto de correr risco de derrocada sempre que tirava algum do monte. Passei horas com o meu irmão a jogar, literalmente, tetris! Vim de lá com algumas pérolas da Les Disques Du Crépuscule em vinil, alguns CDs, e uma caixa de 7 LPs de Jacques Brel que estava numa pilha a fazer de perna a uma bancada cheia com mais e mais discos. A caixa, que estava num estado miraculosamente razoável e, claro, sem preço, facilmente se encontra à venda online usada, que, num estado aceitável, anda sempre na casa dos 50 euros, mais coisa menos coisa. Então disse ao meu irmão: “Se o senhor me fizer até 30 euros, levo-a já”. O senhor (que era o dono, um homem na casa dos 55, 56 anos) olhou para mim e disse-me: “Faço-lhe a 17 euros”. Tau, nem pisquei os olhos! A loja chama-se Music Passion, não tem site nem facebook, funciona durante a semana das 17h30 às 21h00 (mais um facto bizarro) e podem encontrá-la no número 8 da Rua Berenguer de Marquina. Entrem por vossa conta e risco!

Compras discos online?

Sim, a maioria. E, sempre que possível, diretamente aos artistas, através dos seus bandcamps, ou às editoras nos seus sites.

Que formatos tens representados na coleção?

Vinil, Cassete, Compact Disc, VHS e DVD, se bem que privilegio mais os três primeiros formatos referidos, que estão apresentados, exactamente, pela minha actual ordem de preferência.

Os artistas de quem mais discos tens?

À cabeça, estes: Legendary Pink Dots, Sparks, Coil, Attrition, Swans, The Fall, Allerseelen, Current 93, Death In June, Einstürzende Neubauten, Oneida, The Residents, Rome, Dernière Volonté, Klaus Schulze, The Klinik, Nick Cave And The Bad Seeds, Laibach e Nurse With Wound. De alguns até tenho obras repetidas em diferentes formatos (CD, LP e Cassete – é uma estupidez, eu sei, e não tenho explicação para isso). Também tenho muitas discografias completas (ou praticamente completas) de artistas/bandas como Nitzer Ebb, Fad Gadget, King Dude, Smog, Aphex Twin, Depeche Mode, And Also The Trees, Bright Eyes, Deine Lakaien, Suicide, In The Nursery, A Silver Mt Zion, Love And Rockets e, claro, daqueles clássicos tipo Bauhaus, Joy Division, Echo And The Bunnymen, Sonic Youth, Siouxsie And The Banshees, The Sound… 

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Tive o período 4AD como quase todos os da minha geração. Os com selo da Mute também comprava quase sempre sem ouvir. Depois passei a fase da power electronics da Ant-Zen (e da sua sub-label, a Hymen Records) da qual tenho dezenas e dezenas de discos; da Infrastition, que reeditou praticamente todas aquelas bandas francesas da coldwave dos anos 80, como os Little Nemo, Asylum Party, Mary Goes Round, Clair Obscur, Norma Loy, Opera Multi Steel, Martin Dupont… Actualmente faço isso com algumas editoras de música mais extrema, como por exemplo a francesa Debemur Morti Productions e, sobretudo, com a germânica Ván, que tem edições em vinil fabulosas.

Uma capa preferida

Esta é uma pergunta de resposta verdadeiramente difícil para mim, uma vez que, como já expliquei atrás, um dos meus critérios de aquisição é precisamente a estética e a beleza das capas. Para não estar a eleger uma em detrimento de algumas dezenas de outras que poderia citar, vou referir aquela que é, para mim e para muitos, uma das capas mais iconográficas de sempre: “Unknown Pleasures” de Joy Division.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Vou referir aqui um disco de que gosto muito mas que talvez seja difícil de deslindar por quem é mais duro de ouvido ou por quem está enclausurado apenas num ou dois géneros musicais mais simples de ouvir. Esses certamente, vão detestá-lo porque nem sequer lhe vão dar uma oportunidade digna, hehehe… Trata-se de “Heimweh”, de 2015, o primeiro álbum dos britânicos Crom Dubh. É uma jornada épica, não no sentido bacoco de uma qualquer pretensa grandiosidade sinfónica, mas sim devido às melodias vertiginosas de uma guitarra dedilhada entre a técnica do black-metal e a do shoegaze. A velocidade rítmica, em contraste com o lead “lento” de cada “canção”, e as vozes cavernosas e guturais, conferem a esta obra uma “monstruosidade” adicional que a torna numa experiência empolgante a cada audição. Como se Bathory, Godspeed You! Black Emperor e Darkthrone fossem uma só entidade.

Como tens arrumados os discos?

Os CDs por ordem alfabética, os vinis por estilos e editoras, e as cassetes de forma um pouco aleatória porque ainda não me dedique a organizá-las. Porém, as de aquisição mais recente estão mais à mão.

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Há muitos… Por exemplo, tenho alguns discos de Asmus Tietchens e de Conrad Schnitzler mas também tenho um problema: é que quero tê-los todos! O mesmo acontece com Ghédalia Tazartès ou com Charlemagne Palestine…

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

O mais recente foi o “Alles Im Allem”, o disco que os Neubauten editaram em 2020. Na primeira abordagem achei-o fraco e desinteressante. Penso que essa apreciação esteve condicionada pelo facto de eu não ter gostado nada do videoclip do primeiro single, “Ten Grand Goldie” (ainda agora é o tema que menos gosto do álbum). E também não gosto da capa do disco. Mas como sou daqueles gajos que não desiste “por dá cá aquela palha” e porque sei que há muitos discos cuja percepção muda à medida que os abordamos, insisti. Agora considero-o como um dos melhores na carreira do colectivo de Blixa Bargeld e companhia. Pelo menos entre os que a banda editou na sua fase de canções, porque os discos primordiais, da fase da bigorna e do camartelo, tiveram muito mais impacto em mim. E eu sei porquê: porque os ouvi em muito jovem, naquela idade cirúrgica em que as coisas que se ouvem nos marcam, muitas vezes, “irremediavelmente”, para toda a vida.

Usas muito as redes sociais para publicar fotos de discos. É uma forma diferente de partilhar uma coleção?

Sim, acho giro fazê-lo, e como escrevo sempre algo sobre o objecto que partilho vou também exercitando a escrita e o intelecto. Além disso, como a maioria das obras que vou publicando são pouco conhecidas, sempre contribuo para a sua divulgação. É serviço público, a uma pequena escala, mas é.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história?

Em 1986, em Colónia, na Alemanha, e ainda dependente do dinheiro das mesadas, entrei numa loja de discos (já não faço ideia que nome tinha) para comprar um álbum dos Alien Sex Fiend que estava na montra. Era o “Maximum Security”. Lá dentro deparei-me com uma secção chamada “Alternative Muzik” repleta de discos que gostava de ter. Era um sensação estranha. Estar a ver e a tocar em todos aqueles maravilhosos artefactos e não poder fazer mais do que… vê-los e tocá-los. Claro, estava condicionado com o pouco dinheiro que tinha. Ainda assim, depois de pagar, resolvi ir à secção dos singles. Em promoção estavam uma série deles dos Depeche Mode que para mim, à época, e para um puto que estava mergulhado num mundo novo de descobertas musicais incomuns e obscuras, eram uma banda comercial. Havia um, em particular, que estava mesmo com um preço irresistível: “Just Can’t Get Enough”. Entre ir embora com dinheiro no bolso ou com mais um disco na sacola, a opção seria sempre a segunda. Trouxe-o, portanto. Foi só quando cheguei ao nosso país, uns dias depois, que reparei que se tratava de uma edição de 1981 com selo da Edisom, uma editora… portuguesa! O mundo é um bidé e encontramo-nos todos no ralo!

Um disco menos conhecido que recomendes…

Poderia recomendar tantos, tantos… Sei lá, assim, de repente, ocorre-me o álbum “Apes Of A Cold God” dos suecos Lovac, um disco de 2010. Imaginem o universo dos Low (num híbrido perfeito entre o que fazem agora e o que fizeram no passado) debruado por uma aura de neofolk sofisticado e polvilhado por uns pozinhos de um “je ne sais quoi” obscuramente irresistível. Se quiserem ir “direitos ao assunto” ouçam, por exemplo, os temas “War (Cause & Effect)” ou “Murder”. O disco tem uma gravação ligeiramente baixa por isso ouçam-no com o volume bem alto.

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