Joni Mitchell: no princípio era a folk

Uma primeira edição de material dos arquivos pessoais de Joni Mitchell recua a memórias do período entre 1963 a 1967, ou seja, anteriores aos seus primeiros discos. Aqui acompanhamos como a cantora folk se foi transformando numa (grande) autora. Texto: Nuno Galopim

O ano que assistiu a tantas (e tão importantes) edições de arquivo guardou para a sua reta final uma das suas mais esperadas revelações: a abertura dos arquivos de Joni Mitchell. O que guardariam? Inéditos das sessões de gravação dos seus discos? Takes alternativos? Momentos de comunicação ligados aos respetivos lançamentos? Nada disso! Ao abrir os seus arquivos (naquele que parece ser o primeiro gesto de uma gradual revelação do que ali estará guardado) Joni Mitchell leva-nos inteligentemente a uma viagem pessoal que precede tudo isso. E entre os conteúdos da caixa a que chamou Joni Mitchell Archives Volume 1 – The Early Years (1963-1967) recua ao início de tudo, juntando uma série de gravações que precedem toda a sua carreira discográfica.

            E logo o primeiro tesouro que contemplamos é um conjunto de gravações que nos permite contemplar aquela que, em 1963, foi a estreia radiofónica da muito jovem Joni Anderson, então com 20 anos, numa estação local em Saskatoon (no Canadá): a CFQC AM. É ali que se revela uma voz límpida e fresca, ao som das canções dos outros, como de resto era então frequente em clima folk (a era dos novos cantautores estava naquele preciso momento a florescer). Convém deixar claro que esta não era a primeira vez que Joni se apresentava em público, tendo a estreia ocorrido em 1962 num clube dedicado à folk e ao jazz também em Saskatoon. Essas duas seriam, curiosamente, as principais fontes de inspiração para a jovem cantora que tinha Edith Piaf e Miles Davis entre os músicos que mais escutava por aqueles dias. A sessão na CFQC AM, onde canta sobretudo temas tradicionais como House Of The Rising Sun (que só no ano seguinte conheceria o estatuto de êxito pop na versão dos Animals) ou John Hardy, deixa clara essa identidade folk, reforçada logo depois pelo registo de uma atuação em Yorkville (Toronto) em outubro de 1964, da qual a caixa recupera os dos sets que Joni ali apresentou naquela noite. Desta vez aos tradicionais juntava canções de Woodie Guthrie, Sydney Carter e Merle Travis, vincando uma filiação formadora em consonância com a cena folkie de então.

A música começa a levá-la para a estrada com regularidade. E nesta caixa encontramos gravações de 1965 feitas em Detroit, Winnepeg, London (a de Ontario) ou Filadélfia. E aqui entram em cena as suas primeiras canções. Day After Day, que parece ter sido a primeira canção por si composta (em 1964) surge aqui integrada numa maquete de quatro temas destinada ao editor Jack Holzman (que, se a escutou, não lhe deu devido ouvido). E entre estas gravações de 1965 (que escutamos nos CD 2 e 3 da caixa) encontramos primeiras abordagens a temas que mais tarde se tornariam clássicos, mas que aqui estavam a nascer. Urge For Going,  Night In The City, Both Sides Now… E assim se juntam primeiras peças de uma história maior… Há um dado interessante a juntar a este momento em que o repertório deixa de ser feito de canções dos outros e passa a incluir apenas (salvo raras exceções) canções de sua autoria. O casamento com Charles Scott “Chuck” Mitchell “transformara” a assinatura de Joni para Joni Mitchell. Mas mesmo tendo sido relação de curta duração, o nome manteve-se. Até porque a própria associava o seu nome de família original a uma primeira etapa na qual cantava temas tradicionais… Agora, como Joni Mitchell, era uma autora. E, como ela mesma gosta de frisar, não mais uma cantora folk.

Os CD 4 e 5 têm como pitéu central a integral das gravações dos três sets de uma atuação na Canterbury House (Ann Harbour, Michigan) em outubro de 1967. E aqui, além da solidez com que muitas das suas “primeiras” canções se dão a escutar, o registo inclui as ocasionais apresentações de um ou outro tema, algo que se escuta já em gravações ao vivo de 1965 (as dos CD 2 e 3). A face a da contadora de histórias alia assim o desenho dos contextos à liberdade com que depois deles parte para criar a sua música e poesia. Ninguém duvidaria, depois de escutar esta atuação em 1967 que, mais dia menos dia, um álbum de estreia iria chegar e que seria o ponto de partida para uma aventura maior que aqui não era apenas latente. Era já evidente…

Esta primeira “espreitadela” sobre os arquivos de Joni Mitchell inclui algumas (mas não muitas) gravações feitas em casa. Uma de Sad Winds Blowin’ em 1965 outra feita em Nova Iorque em junho de 1967, com dez temas. Aqui é possível que o que escutamos na caixa seja apenas uma seleção do material que eventualmente possa existir em fitas da época. Basta olhar para a discografia de Nick Drake para reparar no volume de gravações caseiras (da mesma época) que mais tarde acabaram por surgir em discos.

A caixa Joni Mitchell Archives Volume 1 – The Early Years (1963-1967) não se esgota na música que podemos encontrar nos cinco CD (havendo edições avulso das gravações da atuação radiofónica em 1963 e da atuação na Canterbury House). O booklet de 36 páginas que acompanha a caixa não só inclui fotografias de infância e juventude como reproduções de manuscritos, de etiquetas de caixas de bobines, flyers (na altura dizia-se palnfletos) e recortes de imprensa, assim como uma extensa (e cândida) entrevista conduzida por Cameron Crowe expressamente feita para esta edição e que não deixa de fixar ecos do ano difícil que vivemos em 2020. Como quem diz que podemos falar do passado, mas é neste presente que estas memórias são revisitadas. Tudo correto, portanto! E venha o volume dois!

Joni Mitchell Archives Volume 1 – The Early Years (1963-1967)”, de Joni Mitchell, é uma caixa de 5CD, com o som disponível nas plataformas digitais, num lançamento da Rhino.

Em simultâneo foram editados, em vinil, os álbuns “Early Joni” (LP) e “Live at Canterbury House” (2LP), com material incluído na caixa. Estas duas edições são igualmente asseguradas pela Rhino.

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